em Core Curriculum, Universidade

Qualquer adulto medianamente ilustrado acredita saber definir bem e claramente o que é uma Universidade, pois já passou por algum tipo de experiência atinente a essa instituição. Assim, se perguntado, responderia algo condizente com o que viu, leu, experimentou, ou ouviu dizer: “A Universidade é uma instituição de ensino superior”; “… é um conjunto de faculdades”; “… é um centro de pesquisas”; “…é um tipo de empresa”; “é um templo do saber”; “é uma escola para a vida”. Talvez alguns, mesclando alguma amarga experiência ao sarcasmo, acrescentem sentenças e aforismos copiados: “É uma instituição que desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez” (Techkhov); ou ainda, “É o local onde a ignorância é levada às últimas consequências” (Millor Fernandes).

Estas e todas a mil outras respostas análogas fazem lembrar a conhecida parábola indiana dos cegos e do elefante. O animal foi apresentado a um grupo de cegos, para que o conhecessem e definissem. Cada um deles apalpou uma parte do elefante. O que tocou a pata, definiu: “este animal é semelhante a uma árvore”. O que tateou a tromba, replicou: “é uma serpente”. O cego que tocava o ventre do animal contestou: “é parecido com um muro rugoso” …

O apego obstinado a apenas uma parte da verdade é próprio do cego, quando se trata de coisas materiais, e próprio do reducionista quando se trata do intelecto. O reducionismo é exatamente isso: uma insistência obstinada em uma parte da verdade que se percebe, acompanhada de uma teimosa negativa da existência de outros aspectos dessa mesma realidade, que o reducionista não vê. Leonardo Polo comenta que as frases dos reducionistas já trazem embutidas essa negativa teimosa em sua própria sintaxe, no uso do advérbio restritivo “apenas”: “o homem é apenas instinto”; “as pessoas se movem apenas pelo dinheiro”; “apenas os ingênuos são religiosos”, etc.

No íntimo, talvez o reducionista esteja apenas querendo dizer: “É apenas isso, porque isso é tudo o que sei, e não possa admitir que não possua todo o saber”. É um modo cômodo de caricaturar uma verdade complexa em algumas linhas que se possam postar nas redes sociais.

Este Blog está fazendo sua estreia nas redes sociais, mas não quer ser reducionista. Pretende tratar da Universidade. E como este é um tema complexo, o irá tratar paulatinamente, correlacionando opiniões, assentando pedras firmes e talhadas com método, plano e paciência, como quem constrói uma catedral. Temos a esperança de que leitores e amigos contribuam com suas parcelas de verdade. Aos poucos iremos assim construindo uma visão mais abrangente, mais sólida, mais polifacética, e – esperamos – mais verdadeira.

A primeira pedra que desejamos por, à maneira de fundamento, é que a Universidade é Una, como una é a Verdade.

Que é, qual o fim da Universidade? Seus primordiais equivalentes na Grécia Antiga, a Academia de Platão, e o Liceu de Aristóteles, buscavam a Verdade, em si mesma, e isso lhes bastava. A verdade era a identificação entre o Pensamento e a Natureza, e como a Natureza era una, pois que, no dizer de Anaxágoras, “tudo tem a ver com tudo”, a verdade a ser conhecida era una também.

Nas Universidades Medievais, essa busca da Verdade Una prosseguiu, somada ao ideal de serviço trazido pelo Cristianismo: a missão da Universidade passa a ser também o serviço da sociedade. Surge então a ideia de progresso: a Universidade não busca apenas o cultivo do Saber por si mesmo, mas procura encontrar nesse Saber o impulso que ajude o homem a crescer, tanto material quanto espiritualmente. A História, que os antigos viam como uma sucessão fatal de acontecimentos, é agora encarada pelo medieval como algo em que se pode intervir, de certa forma produzir, e até mesmo prever. O homem deixa de ser um joguete nas mãos dos deuses, e passa a ser um coautor da História, ao lado e sob a regência de Deus. A História tem um rumo, aponta para uma meta. Os homens podem livremente conhecer, estudar e percorrer esse caminho, que passa pelo aprofundamento na verdade, e consequentemente pela santificação pessoal de cada um. A Universidade, ao lado da Família, é vista como uma das Instituições que desvendam ao homem as múltiplas verdades das coisas, todas elas harmônicas e tendentes para a Verdade Única, de tal forma que o homem, ao descobrir uma verdade, tinha a certeza de que a poderia seguir, “fazendo seu próprio caminho ao andar”, certo de que no final todos se encontrariam no Verdadeiro, que era Bom, e que era Belo. Todas as Instituições colimavam o mesmo fim. Essa realidade medieval é assim descrita pelo Papa Leão XIII na encíclica “Imortale Dei”:

“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. (…) Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.”

No Renascimento, e depois na Ilustração, a simbiose entre a Universidade e a Sociedade se tornou ainda mais diversificada: as atividades técnicas humanas se beneficiam ainda mais das novas ajudas proporcionadas pela pesquisa universitária. As Ciências da Natureza se desenvolvem como nunca antes, proporcionando à sociedade um enorme desenvolvimento prático, técnico e econômico.

Entretanto, essa maior abertura para a prática e a técnica, que só benefícios deveria trazer, acarretou um desvio de rumo, uma progressiva perda do ideal universitário, que com o passar do tempo se tornou desastroso.

Ofuscado pela prática e pela técnica, o Iluminismo esqueceu que não basta conhecer as Ciências da Natureza, mas que é preciso também conhecer o Espírito, e toda a plêiade de saberes que essa palavra acarreta, tudo aquilo que no homem não é apenas matéria, e tudo aquilo que no universo é espiritual, e o fim de tudo, que é Deus. A “nova universidade” foi deixando de ser una, para ser primeiro duas, e depois muitas: os assuntos atinentes ao espírito continuaram sendo tratados, mas “de lado”, depois “nos fundos”, e depois ainda no quarto de despejo do conhecimento e da pesquisa humanos, até chegarmos ao estado de coisas atuais, onde esses saberes, reunidos sob o nome de “Humanidades”, são vistos com uma espécie de condescendência, como antiqualhas que serão talvez belas, mas que tem o mesmo valor prático da gravata, da cartola e do colete. Meros acessórios. Como descreve Alejandro Llano, a estrutura unitária da Universidade se rompeu:

“Em sua origem, ela era uma instituição em que todos os saberes tinham correlação entre si: era o Ideal da Árvore dos Saberes, ou Árvore das Ciências, onde se via todo o conhecimento humano hierarquizado em ciências fundamentais, que eram as raízes, outras que sustentavam o tronco, e outras ainda que formavam os ramos, isto é, as diversas especializações do saber. Esse ideal de manter a unidade da árvore das ciências se vai paulatinamente rompendo, e paralelamente a Universidade vai também perdendo seu caráter unitário. Foi esse estado de coisas que nós herdamos: a Universidade não é mais Una, e se transformou em Pluridiversidade.”

Leonardo Polo é enfático ao dizer que a universidade se fragmentou, se estilhaçou em especializações que não mais dialogam entre si, ocasionando um desentendimento entre os distintos ramos do saber, inteiramente contrário ao verdadeiro espirito universitário. E o Papa Bento XVI, em um encontro de professores universitários celebrado em Roma em 2007, também chamou a atenção para a urgente necessidade que tem a Universidade de “redescobrir a unidade do saber opor-se à tendência à fragmentação e à falta de comunicabilidade que acontece com demasiada frequência em nossos centros educativos”. Bento XVI recordava deste modo à Universidade “sua vocação de ser uma universitas, onde as mais diferentes disciplinas, cada uma a seu modo, se vejam como parte de um unum maior”.

Se desejamos realmente edificar uma Universidade, que nossa primeira pedra seja essa: a universidade é una, como a verdade que ela busca, pesquisa, defende e ensina.

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