em Antropologia, Core Curriculum, Universidade

Uma das soluções que algumas universidades do mundo buscaram para superar o problema da fragmentação do saber foi oferecer aos alunos uma formação intelectual que tornasse possível a integração dos conhecimentos especializados de cada curso ou faculdade em uma unidade superior. Para isso criaram o chamado “Core Curriculum”, um conjunto de componentes curriculares e de cursos, normalmente de viés humanístico, que fosse comum para todos os estudantes, independentemente da faculdade que cursassem ou da carreira que escolhessem.

O primeiro programa de Core Curriculum foi implantado na Universidade de Columbia, em 1919. Desde seu início estava ligado à ideia de formação humanística, ou melhor dizendo, à perspectiva humanística de educação. Esse movimento se mostrou extraordinariamente fecundo nas universidades norteamericanas até os anos 60, especialmente em Columbia, Chicago e Harvard. Entre os seus principais promotores se destaca a figura Robert Hutchins, que introduziria em Chicago o sistema dos Great Books: leitura, análise e debate de grandes clássicos da literatura universal, de Platão a Shakespeare, passando pelos clássicos norte-americanos.

Em 1945 James Bryant Conant, Reitor de Harvard, sintetizava em poucas linhas o desafio que as universidades deveriam afrontar no período imediatamente posterior à Segunda Guerra: o centro do problema da educação deveria ser a continuidade da tradição humanística. Nem a aquisição de conhecimentos básicos nas ciências físicas e biológicas nem o desenvolvimento das habilidades de escrita e expressão bastariam para preservar a civilização e construir uma nação de cidadãos livres. É necessário mais: que em cada nível educativo, desde o colegial até a universidade, os estudantes entrem em contato com aquelas áreas do saber em que os juízos de valor são primordiais. É imprescindível que o estudante saiba avaliar e empregar as palavras “correto” e “equivocado” tanto em sua dimensão ética quanto matemática. Se não for assim, estará cego para distinguir aquelas ideias e aspirações profundas que atuam como motor interior da vida de tantas pessoas ao longo da história.

Conant acertava ao sublinhar o desafio que a educação superior norteamericana devia enfrentar naqueles anos. Suas palavras não pretendiam desvalorizar os progressos científicos de seu tempo (Ele mesmo era um químico de projeção internacional), nem diminuir a importância da formação nos estudos técnicos e científicos. Mas sublinhava a necessidade de ir mais além do que essa formação oferecia, para atingir níveis de compreensão e de juízo mais profundos. E para isso, a tradição liberal e humanística era insubstituível.

Infelizmente a história posterior da educação universitária norte-americana não seguiu essa linha então delineada por Harvard, Chicago e Columbia, e a corrente da formação humanística decaiu. Entretanto, algumas algumas Universidades e Centros Universitários ainda resistem heroicamente ao ataque do pragmatismo e do mero utilitarismo. Graças ao empenho de alguns professores e ao apoio de antigos alunos, esse empenho educativo continua presente nas três Universidades que o iniciaram, e em prestigiosos “Colleges” como Saint John ou Thomas Aquinas.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)

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