em Universidade

Uma forma de pensar sobre  o perfil do professor universitário é considerar a universidade como uma empresa.  Nas empresas se costuma distinguir dois tipos de pessoas: o staff e a linha. As pessoas do staff são as de administração. As da linha são as que intervém diretamente no produto que a empresa oferece.

Vamos agora nos perguntar qual é o produto da universidade, e quem faz parte da linha que elabora esse produto. Sem rodeios, respondemos: na Universidade a linha elaboradora do produto é o professorado. Simplesmente assim, e ponto final.

De nada adianta contar com grandes e bem dotadas instalações se não se pôr em primeiro plano a atividade do produtor. E o produtor de uma Universidade é exclusivamente o professor.  A primeira consequência disso é que o professor, falando no singular, é a dimensão da Universidade que mais deve estar integrada a ela.  São os professores as pessoas que mais devem fazer sua a universidade.

Por isso, não é professor universitário o “paraquedista”, que aparece de vez em quando, e cujo interesse principal é outro.  A profissão de professor universitário é incompatível com o caráter eventual ou secundário, exatamente por causa da importância radical que tem. Ser professor universitário é um modo de ser, e cria caráter.  Se se apaga esse caráter, então a universidade mingua, e sua existência é apenas nominal.

Repetindo a pergunta: qual é o produto da Universidade? Qual o bem que a Universidade aporta à Humanidade, e à sociedade em geral?  A resposta é taxativa: o que a Universidade aporta à sociedade é o Saber Superior.

Corresponde à Universidade do desenvolvimento do saber superior, e é bom que não haja confusões a esse respeito. Em muitos lugares a universidade é entendida apenas como um “terceiro nível de ensino”, uma continuação do nivel básico e do Ensino Médio.  Mas isso não deve ser assim. Não se trata apenas de uma questão de “hierarquia”, é algo muito mais sério.

Esse cultivo do saber é uma característica da Cultura Ocidental. Ele está inexoravelmente aberto ao futuro, e precisa crescer.  Não é verdade que um professor universitário funcione apenas como um administrador, e um repartidor do saber adquirido.  Não é verdade que  ele seja apenas um terceiro nível de ensino.

Formar os alunos é certamente um produto da universidade, mas não é o seu fim primário. Se a universidade ficar apenas nisso, ela fica aquém do que é. Sim, é certo que o saber também entra na corrente social, e pode ser um fator a mais para que a sociedade funcione bem. Isso é bom, mas não é o primeiro produto da Universidade, que será sempre o cultivo do saber superior.

E o que se pode fazer com o poder superior? O primeiro que se deve fazer é incrementá-lo, e depois, e apenas em segundo lugar, o divulgar. E é aqui que entram os alunos.

Evidentemente, formar pessoas, comunicar-lhes o que se sabe, é muito importante para a sociedade, mas ainda assim não é o principal. Se uma parte da tradição universitária vai para a sociedade, a outra parte da produção universitária vai para a história. E esse é a parte mais importante. Quando se vêm as coisas desse modo, o professor universitário se dá conta de onde se meteu, e em que apostou sua vida.

O que caracteriza as pessoas que estudam na Universidade e depois saem dela para exercer sua profissão, é que o saber adquirido fica sendo a base consolidade de sua atividade, que ele irá complementar com a prática.  Mas o professor universitário nunca pode dizer “agora já sei, e só transmito o que aprendí”. Não. Ser professor universitário não é o mesmo que ser advogado ou médico na clínica. E não é o mesmo porque sua relação como o desenvolvimento do saber é diferente. O professor universitário se dedica a estar na ponta do saber, e só comsegue isso  – e ainda assim apenas em parte – estudando sem parar, estudando até morrer.

Isso é que é um professor universitário. Ele é membro de uma instituição característica do Ocidente, que se justifica e existe por isto, pela importancia que dá ao saber superior, ao desenvolvimento do saber.

E como se pode definir o saber superior? O saber superior é a plenitude de conhecimentos na situação mais alta que a humanidade adquiriu em um momento histórico.  É evidente,  por exemplo,  que o saber superior no que diz respeito à Física era diferente nos tempos de Aristóteles e nos tempos atuais.

E que se pode acrescentar a esse saber? Já é muito que não seja esquecido, e que não decaia. Apenas isso já pede um grande esforço. Não se trata de ser original, não se trata de conseguir o Premio Nobel, mas tampouco se trata de se conformar com o último nível.

É preciso estar na trincheira, não há outro modo. E qual é a trincheira? Cada um tem que saber qual é a sua, pois ela muda com a idade, ela está onde o universitário pesquisa a partir de todos os conhecimentos anteriores acumulados, e trata de ir mais longe, ou pelo menos tenta. E depois transmite seu saber aos demais universitários, e não apenas aos alunos que irão embora.

Considerações a partir de: POLO, Leonardo. “O professor universitário”. Conferência a professores da Universidade de Piura, Agosto de 1993,

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Comentários
  • Julio Trevisam Braga
    Responder

    Gostaria de fazer algumas colocações acerca de um artigo postado pelo autor no dia 01/06/2020 e, assim, conversar um pouco com este texto elucidativo sobre o ser professor universitário.

    No artigo de junho, o autor demonstrara os valores da Poética e da Retórica para o ensino e seu impacto no discernimento sobre o conhecimento. Ali, ficou evidente a ligação do argumento com os preceitos da educação clássica, especificamente, com as disciplinas do Trivium medieval. Agora, neste ponto, se faz necessário, talvez, evidenciar, igualmente, a relação do saber superior como “um modo de ser”, com as demais disciplinas da educação clássica medieval, a saber, o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). As quatro disciplinas que compõem o Quadrivium terminaram por sintetizar aqueles saberes que conhecemos como Filosofia, Teologia, Medicina e Direito e que, por muito tempo, apresentavam-se como os principais cursos oferecidos nas universidades. Das dezenas de ofertas de cursos que se tem nos dias atuais, pode-se dizer que a maioria é filha de uma das quatro disciplinas do Quadrivium. A esta altura, o que gostaria de expor neste longo comentário é, justamente, a razão de ser do Quadrivium, que no seu núcleo se apresenta como Saber Superior. Assim como o autor bem define neste texto, o elemento primordial que define o ensino superior – também no Quadrivium – é a preocupação permanente com a construção do caráter daquele que aprende, como daquele que ensina. O ensino superior, assim, torna-se “superior” não por ser uma última etapa a ser finalizada com o diploma em mãos, de modo exclusivamente utilitário, mas, principalmente, por encontrar o seu sentido numa direção que promove o conhecimento para além de sua colocação no mundo como instrumento científico. Isso quer dizer que o ensino superior não é feito para acabar dentro do tempo de sua formação universitária, mas é necessário que ele promova o aluno e o professor para uma construção permanente de quem serão no mundo, para o mundo e com o mundo, naquilo que o ELEVA de modo intelectual, emocional, psicológico e espiritual.

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