ENTREVISTA DO DEPARTAMENTO DE CORE CURRICULUM DA INVENIO COM A ENTÃO PRÓREITORA DE PROFESSORADO DA UNIVERSIDADE DE NAVARRA, E HOJE REITORA NA MESMA UNIVERSIDADE, PROFESSORA MARIA IRABURU, EM 14 DE ABRIL DE 2020.
Maria Iraburu é professora Titular de Bioquímica e Biologia Molecular na Universidade de Navarra. Fez seu doutorado em Ciências Biológicas em 1992, e entre 1993 e 1996 foi pesquisadora pos-doc no Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. Além de sua atividade docente e de pesquisa, tem uma vasta experiência em gestão e governo universitários. Foi membro das Juntas das Faculdades de Medicina e Ciência, e em 2005 se incorporou ao Reitorado da Universidade de Navarra, como pró-reitora de Alunos. Atualmente é Pró -Reitora de Professorado, cargo que ocupa desde 2012.
INVENIO – PROFESSORA MARIA, qual a importância do Core Curriculum na Universidade de Navarra?
MARIA IRABURU – Os Core Curriculum são bastante diferentes, nas diferentes Universidades que os adotam. Em Navarra o Core Curriculum é um conjunto de cursos comuns a todas as Faculdades, independentemente de serem Técnicas, Humanas ou Biológicas. São cursos anuais, focados na Antropologia e na Ética. Dois cursos anuais de 60 horas, e mais dois de 30 horas cada, com disciplinas eletivas. Estas últimas podem ser teológicas ou não teológicas, de recorte humanístico: Grandes Livros, ou História das Ideias, por exemplo.
Esse conjunto de matérias procura evitar dois extremos: O primeiro é o do academicismo, e da excessiva especialização. Quando o Core Curriculum apresenta, por exemplo, as grandes figuras da literatura, não é tanto com a intenção de criar especialistas em literatura, mas de conhecer a literatura universal, mergulhar em seus mitos, e refletir sobre a condição humana, sobre o sentido da vida, sobre o sentido da sociedade. O outro extremo a evitar é que os cursos sejam tão superficiais, tão “ligeiros”, que não tenham utilidade formativa alguma.
Isso quanto aos conteúdos. No que diz respeito ao professorado, buscamos os melhores de cada área. Para Antropologia e Ética contamos com os professores da Faculdade de Filosofia. Para Literatura, com os da Faculdade de Letras, e assim por diante. Será sempre o melhor professor da cada área o escolhido para administrar o Core Curriculum: aquele historiador reflexivo com cinquenta anos de experiência, e que se preocupa com os grandes problemas da História, aquele Mestre em Literatura que tem grande experiência da vida… são esses os nossos professores: os interessados pela formação dos estudantes e que sabem fazer o “follow up” entre o específico de sua área e o que tenha melhor impacto formativo entre os alunos.
INVENIO – O Core Curriculum mantém um curso especial para a formação de seus professores?
MARIA IRABURU – A Universidade de Navarra mantém um programa chamado Docens, de dois anos e obrigatório, para formar seus professores. Os professores do Core Curriculum são na realidade os que ministram os cursos do Docens. Além disso, o Instituto de Core Curriculum mantém seu próprio programa de formação de professores, com encontros várias vezes por ano. É um grande intercâmbio de experiências, pois esse professorado é muito maduro e compartilha seus conhecimentos. Mais que o conteúdo que cada um possui, esse esforço de comunicação e essa maturidade de pensamento são essenciais.
INVENIO – Como se faz o acompanhamento dos professores do Core Curriculum? Há algum programa de tutoria para eles?
MARIA IRABURU – Os professores do Core Curriculum são bastante veteranos. O que desejaríamos, mais que os acompanhar, é que eles acompanhassem a nós. A ideia de que o Reitorado possa formar os professores é bastante improvável. Na realidade, eles estão em constante autoformação. Eu sou bioquímica, não tenho nada a dizer, por exemplo, ao professore de Grandes Livros sobre como proceder. A formação dos professores Sêniores, como os do Core Curriculum, consiste em seminários de formação contínua, grandes atos temáticos, onde cada professor explica como trata do tema proposto. Nesses seminários não existe a posição “eu agora vou te formar”, porque neles ninguém tem mais sabedoria que ninguém. Aprendemos todos de todos. Ou um professor tem firmeza de pensamento, abertura intelectual, capacidade de diálogo com os jovens, ou não é professor de Core Curriculum.
INVENIO – Como os alunos, especialmente os de Exatas, encaram e vivenciam a formação do Core Curriculum?
MARIA IRABURU – Reparamos que os alunos dão mais valor aos cursos do Core Curriculum quanto mais o tempo vai passando. Os meus alunos de bioquímica, por exemplo, chegam fugindo dos cursos de Humanas, e a turma do primeiro ano tem certa dificuldade com a Antropologia, o curso do Core Curriculum. Não digo que não gostem, mas que lhes custa muito. Com o passar dos anos o Core Curriculum lhes vai melhor. Nos quatro anos de curso, eles têm três de Core Curriculum e mais um, o último, de Ética Profissional. São os cursos de viés humanístico que recebem. Outra verdade é que quando os professores são bons, os cursos são mais prestigiados e queridos pelos alunos. Os alunos respeitam os professores com intelecto forte e sólido.
INVENIO – Outra missão da Comissão de Core Curriculum é o estudo do Sentido da Universidade…
MARIA IRABURU – Uma vez ao ano temos uma jornada sobre o sentido da Universidade, para todos os professores. Na última compareceram trezentos. Tratamos de temas como o método científico, a interdisciplinaridade, etc. São encontros temáticos.
A Comissão Core Curriculum, formada por professores de diferentes faculdades, analisa as novas matérias dos novos programas, verificando se afetam ou não o Core Curriculum, e revisam os novos programas – por exemplo, um novo Master – no que diz respeito aos conteúdos humanísticos e éticos. Fazem um pouco uma tarefa de “surveillance” para assegurar que têm conteúdo ético. Na verdade, a Comissão de Core Curriculum cumpre muitas funções.
INVENIO – A Universidade de Navarra mantém relacionamento com outras universidades no que tange ao Core Curriculum?
MARIA IRABURU – A equipe de Core Curriculum faz parte de uma associação de Universidades que têm Core Curriculum, a CoreTexts, e mantém um bom relacionamento com todas elas. São poucas, na América e na Europa. A ideia de Core Curriculum é mais americana que inglesa. Em alguns aspectos, eles são bem diferentes de nós. Por exemplo, contratam professores jovens que iniciam sua carreira ficando “full time” no Core Curriculum por dois anos. Em nossa opinião isso não é o melhor.
INVENIO – Navarra é a terceira faculdade da Europa, não?
MARIA IRABURU – (Rindo) – Aqui há um erro. Agora os ingleses não fazem mais parte da Europa, portanto somos os primeiros…
INVENIO – Ainda sobre a formação de professores: depois dessa formação inicial de dois anos, eles retornam para a continuar?
MARIA IRABURU – Existem as jornadas que fazemos sobre a identidade da Universidade. E há formações específicas, setoriais: se um professor se torna assessor, há uma formação específica para assessores. Se fizer parte de uma junta de departamento, há uma formação específica para isso, e assim por diante.
INVENIO – Navarra é também considerada a melhor formadora de professores da Europa…
MARIA IRABURU – A maior preocupação que deve ter uma Universidade é formação de seu professorado. Mais que procurar alunos, a missão número um – número um, hein! – é formar bons professores. E por isso os formadores de professores precisam ser muito seletivos, e muito ativos. Mas a verdade é que esse título de melhor formadora me surpreende um pouco… O fato não me surpreende, porque realmente temos o professorado altamente motivado. Mas não porque os formemos especialmente bem, e sim porque se preservou a cultura inicial e o entusiasmo dos inícios. Há muitíssima motivação. Temos jornadas de atualização docente, e vemos muitíssimos professor com paixão pela docência. Não temos Prêmios Nobel, mas possuímos uma cultura – que conseguimos preservar – de amor e atenção às pessoas, de tentar ajudar e compreender. Isso é um fato, e vem passando de geração em geração. É um milagre de S. Josemaria, nosso fundador.