A Nova Extensão Universitária: Um Ótimo Caminho, Com Desvios Preocupantes.

Imagem ilustrativa que demonstra a Extensão Universitária, a geração de talentos em sala de aula e seu impacto na sociedade ao redor

Extensão Universitária é a prática que faz a ponte entre a produção do saber acadêmico e o mundo não acadêmico onde a universidade se insere. 

Uma das características da Universidade é ser luz, é irradiar o saber descoberto e elaborado na pesquisa para toda a sociedade, sob forma de benefícios realmente efetivos.  Para eficaz cumprimento dessa finalidade, as atividades universitárias se subdividem em três: a Pesquisa, o Ensino e a Extensão.  São todas funções essenciais, e o correto seria que elas nunca estivessem em conflito, mas sempre vinculadas, uma servindo a outra. Quando cada uma dessas funções estiver funcionando segundo sua própria índole, então o sentido da Universidade está realizado. 

Entretanto, se formos classificar as funções da Universidade não tanto por sua importância relativa, mas por sua prioridade lógica, teremos que convir que a primeira em precedência deve ser a pesquisa.  O filósofo e teórico da educação Leonardo Polo afirma que “é da pesquisa que dependem, em último termo, todas as demais funções da universidade. Se falta a pesquisa, a universidade se esclerosa, a transmissão do saber perde os horizontes e a atualidade, e facilmente se cai na repetição retórica ou dogmática de dados não assimilados. Se não há pesquisa, a extensão também perde grande parte do seu sentido, porque a sociedade não mais percebe sua necessidade. Sem pesquisa, os centros universitários se desagregam por falta de projetos unificadores, a posição do catedrático se desvirtua pela ausência de metas ulteriores para sua vida acadêmica” 

Evidentemente a Pesquisa também necessita das outras duas funções. Necessita da docência porque não se pode pesquisar a partir do zero, e porque os resultados por alcançar devem se enlaçar ao saber historicamente acumulado: a descontinuidade no progresso científico traria consigo perda de qualidade intelectual. Uma pesquisa desconectada está eivada de um forte caráter conjuntural, e esse perigo é ainda maior pela crescente exigência da especialização. A pesquisa necessita também da extensão, para evitar esoterismos e servir ao bem comum. Em suma: a pesquisa não é autônoma, mas uma nova dimensão da integral hegemonia da educação superior. 

Isso de hierarquizar funções que se interpenetram pode ser um bizantinismo ou uma tautologia Infantil (“em um tripé, qual o pé mais importante?”). As três funções da Universidade são tão interdependentes que o correto seria que nunca estivessem em conflito, mas sempre vinculadas, uma servindo a outra, e assim fossem vistas e avaliadas pelo mundo acadêmico. 

Essas considerações, embora óbvias, estão se fazendo atualmente necessárias quando lemos nas revistas acadêmicas e mesmo nos meios de divulgação uma série de artigos e intervenções, com maior ou menor grau de fundamentação, discorrendo sobre o novo papel da Extensão, e sobre as implicações práticas da Resolução CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 2018, que Estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira. Os debates suscitados pelas formas de aplicar essa Resolução deram uma nova candência ao tema. 

Como bem analisa Moacir Gadotti, no fazer universitário atual têm se confrontado duas vivências de Extensão: “uma mais assistencialista, e outra não assistencialista(…). A primeira entende a Extensão Universitária como a transmissão vertical do conhecimento, um serviço assistencial, desconhecendo a cultura e o saber popular. Basicamente, essa concepção sustenta que “aqueles que têm estendem àqueles que não tem. Essa visão assistencialista traz, pois, uma direção unilateral, ou seja, é uma espécie de rua de mão única, que só vai da universidade para a sociedade. A mão inversa não é considerada. É interpretada como inexistente. Não se leva em conta o que vem da sociedade para a Universidade, seja em termos da sociedade sustentando o ensino superior, seja em termos do próprio saber que a universidade elabora. Entretanto, para que a universidade se insira efetivamente na sociedade de modo consequente, é necessário que se considere a mão inversa também.  A segunda vertente entende a extensão como comunicação de saberes. É uma visão não assistencialista, não extensionista de Extensão Universitária (…) Ela se fundamenta numa teoria do conhecimento, respondendo à pergunta: como se aprende, como se produz conhecimento. Uma teoria do conhecimento fundamentada numa antropologia que considera todo ser humano como um ser inacabado, incompleto e inconcluso, que não sabe tudo, mas, também, que não ignora tudo”. 

Mais adiante, Gadotti ressalta que “mão dupla” significa uma troca entre os saberes acadêmico e popular, que tem como por consequência não só a democratização do conhecimento acadêmico, mas, igualmente, uma produção científica, tecnológica e cultural enraizada na realidade. A extensão deve influenciar o ensino e a pesquisa e não ficar isolada deles, da universidade como um todo e dos anseios da sociedade, “entrelaçando” saberes. O projeto político-pedagógico institucional da Universidade precisa explicitar o que ela pensa sobre ensino, pesquisa, extensão, gestão e suas articulações.

Esse conceito de extensão não é exatamente novo:  a LDB, de 1996, ao estabelecer que a extensão é uma das finalidades da educação superior, já postulava que tal Extensão deveria “ser aberta à participação da população, visando a difusão das conquistas e benefícios da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológicas geradas na instituição”.  E a Constituição de 1988 já garantia a indissociabilidade do ensino, da pesquisa e da extensão.   A expressão “participação da população”, da Lei Darci Ribeiro já abria caminho, portanto, à “mão dupla”, ou à “troca de saberes” entre o acadêmico e o popular. 

O que já parece mais novo nos debates é que essa “democratização da extensão” traria como consequência uma mudança no conceito de pesquisa.  Muito tem se falado sobre a uma nova modalidade de pesquisa, oportunamente chamada de “pesquisa-ação”.  Essa ação investigativa, sem dispensar as evidentes vantagens características da pesquisa científica cartesiana, difere desta quanto ao papel do pesquisador:  na pesquisa acadêmica científica, o pesquisador deve se comportar como um “elemento ausente”, observando e registrando os fenômenos sem interferir neles em nada. Já na pesquisa-ação a intenção de interferir é clara e primordial: o pesquisador estabelece um diálogo com a comunidade, para que juntos, unindo os saberes acadêmico e autóctone, encontrem a melhor solução para uma determinada necessidade social, ou delineiem o melhor caminho para um crescimento harmônico e consciente. Nessa forma de trabalho científico, o pesquisador universitário é também um sujeito interveniente na sociedade, imerso no seu contexto.  O sociólogo Boaventura Santos compara essa dinâmica a uma “ecologia dos saberes”, onde ocorre a simbiose entre a produção universitário e a tradição popular. A pesquisa-ação, além da levar a universidade ao meio social, também traz esse meio para dentro da universidade.  Edgar Morin, com sua habitual precisão terminológica, sintetiza: “É fato que a universidade tem várias contribuições a fazer para a sociedade brasileira. Mas o inverso também é verdadeiro, pois a sociedade também tem contribuições a fazer à universidade. Para que a construção de uma universidade democrática possa acontecer, a complexidade do mundo deve ser reconhecida e não excluída da universidade. Trazer a complexidade para dentro dos seus muros, estimulando a diversidade, compreendê-la, são formas de avançar para um modelo mais inclusivo, mais democrático da universidade”. 

Infelizmente não são todos que possuem essa precisão terminológica de Morin. E, portanto, é comum encontrarmos opiniões tendentes a achar ou pelo menos insinuar, que a pesquisa, e mesmo o ensino, perderam sua importância, e que a Extensão sozinha deverá no futuro ditar os rumos da universidade.  Alguns exemplos: 

  • A extensão deve deixar de operar como mera difusora do conhecimento produzido, e passar a fazer com que a universidade se insira na realidade social e política da nação.
  • O eixo pedagógico clássico, baseado na relação professor/aluno se desloca para um novo eixo, protagonizado pela relação aluno/comunidade.
  • Alunos e professores seriam sujeitos do aprendizado, fazendo da extensão uma forma de democratização do saber acadêmico, reelaborando-o com a comunidade, trabalhando o saber reelaborado na Universidade, por meio de novas pesquisas, para que neste ciclo de trocas seja construído um conhecimento capaz de contribuir na transformação social 
  • a extensão precisa sair da passividade e assumir-se enquanto estratégica para a sociedade e para universidade, levando a uma “Universidade mais comprometida e atuante com seu entorno”
  • extensão longe de ser um conceito estático, permanece em constante movimento não só para responder as demandas da sociedade brasileira, como também para provocar essas demandas

O simplismo de algumas afirmações assim contrasta com a visão progressista, mas ao mesmo tempo meticulosamente exata de Morin: a extensão deve trazer a complexidade da sociedade para dentro dos muros da universidade. E a partir do reconhecimento dessa complexidade, Ensino e Pesquisa devem trabalhar unidos para o crescimento social.

Para entender um pouco mais sobre Extensão Universitária, acompanhe o vídeo a seguir:

O RITMO DO TEMPO

Anotações de um tópico da aula “O tempo de vida humana”, de nosso curso de Antropologia Filosófica.

O tempo de todos os seres vivos está fortemente relacionado com os astros, e com a natureza: há um “tempo de nascer” análogo à Primavera; e um “tempo de morrer” paralelo ao Inverno. A noite é o tempo de dormir, e a manhã é o momento do despertar.

Há uma harmonia entre a natureza e o ritmo de vida do homem e dos animais. Esse ritmo não diz apenas respeito ao corpo, mas também se relaciona com os sentimentos: os dias nublados nos deprimem, o crepúsculo induz à melancolia, o ar puro e o mar nos descansam a alma, etc. Durante milênios o homem viveu como que “embalado” pelo ritmo do tempo natural.

Atualmente o modo ordinário de vida se distanciou muito desse convívio com a natureza. O homem moderno quer se assenhorear do tempo, e a maneira que ele tem para fazer isso é a velocidade, isto é, a redução do tempo natural dos processos. A velocidade é uma ganância do tempo com o uso da técnica. Essa “mania” de vencer o tempo gera uma patologia – uma doença – chamada pressa. O homem moderno é um homem com pressa. A velocidade é o único prazer inventado pelo homem moderno. Seu grande perigo é que ela altera os ritmos naturais. Isso se vê na tirania do relógio, uma forma de dividir o tempo para o aproveitar melhor.

Um axioma básico no mundo atual é que o tempo é um bem escasso: fazer mais coisas em menos tempo é uma das grandes necessidades. A competitividade na vida econômica consiste não tanto em vencer o adversário, mas em chegar antes dele.

Queremos “ganhar tempo” até mesmo quando isso não é necessário. A vivência da velocidade se dá no campo do ócio, do lúdico e do esporte, onde aparece a mania de quebrar recordes. No campo do trabalho a mania de velocidade leva à atividade febril, ao estabelecimento de metas absurdas, a agendas lotadas, a tensões de todo tipo. As pessoas não são julgadas pelo que são, mas pelo que fazem.

É óbvio que essa forma de cultura da produtividade instrumentaliza o homem. Mas há mais e pior: essa pressa e pressão por velocidade altera os ritmos humanos naturais. Essa alteração tem duas manifestações principais: de um lado o “doping”, isto é, o aumento artificial da capacidade de rendimento físico, mental e psicológico por meio de estimulantes; e de outro lado o estresse, o esgotamento nervoso, que se combatem com calmantes. Somos a sociedade da pressa: o normal é estar correndo, sem se deter para contemplar a beleza do que foi feito, porque temos que correr para fazer mais.

Será isso realmente necessário e condizente com a natureza humana? Uma via diferente dessa, e muito mais concorde com a natureza e o ritmo humanos poderia seguir os seguintes parâmetros:

  1. Redescobrir a lentidão. Abolir a pressa, ser donos do tempo e da situação, viver com serenidade, sem sobressaltos, não fazendo-se escravos dos horários, nem dos resultados, nem da planificação. As grandes obras e os grandes gozos não se saboreiam correndo.
  2. Incrementar as experiências pessoais: A tranquilidade supõe um enriquecimento da pessoa e de sua interioridade. Somos os verdadeiros donos de nossas obras, e para as criar, contemplar, aperfeiçoar e manifestar necessitamos dessa tranquilidade e do tempo.
  3. Praticar a contemplação: Apenas quem abandona seus interesses imediatos é capaz de contemplar: “Não é correndo, não é no tumulto das pessoas e na pressa de cem coisas atropeladas que se conhece a beleza”. A solidão, o silêncio, o repouso, são necessários para todo nascimento, e se alguma vez um pensamento ou um trabalho de arte surgem como um relâmpago, é que houve antes uma longa incubação de morosidade”. Em um mundo que perdeu a paciência, há que aprender a esperar.

O HOMEM NÃO VIVE APENAS DE CAVIAR

Tradução livre, acrescida de comentários pertinentes e impertinentes, de uma página de “A vida lograda” de Alejandro Llano.

Ninguém pediu para nascer. Os existencialistas de 30 ou 40 anos atrás pensavam que isso de viver era uma espécie de maldição: ser jogado na existência, estar no mundo sem essa nem mais aquela… Os humanistas, ao contrário, entendem que a existência é um dom: o presente do próprio ser. De qualquer forma, eu recebi a vida, mas não a recebi completa e acabada. Tenho que construir, complementar, levar a termo minha própria vida, e o drama que tenho enquanto pessoa é que nesse empreendimento eu posso ter sucesso, ou posso fracassar. Recebi gratuitamente o dom da vida, mas dependerá de mim que ela seja um sucesso ou um fracasso.

– Então, qual é o meio que tenho para chegar a viver bem? Como posso edificar minha vida ou, pelo contrário como a posso arruinar?

– O meio principal é a ação. Ao atuar, você está jogando sua vida. A chave do êxito de tua existência consiste fundamentalmente em agir bem. É aí, em tuas ações, que você está construindo tua vida.

– Mas o que acontece se eu não tenho vontade de arriscar? Não posso apenas deixar a vida passar, abstendo-me de agir?

– Não, você não pode. Sempre estará arriscando, inclusive quando não quiser entrar no jogo. Você estará então escolhendo ser espectador, mas nem por isso deixa de tomar parte no drama. Queira ou não queira, você tem que decidir, você não pode deixar de arriscar.

Mas não é qualquer tipo de ação que tem a mesma importância vital. A espécie de ação que verdadeiramente conta para a edificação da própria vida não é a produção, mas a operação. Vamos entender os significados distintos dessas palavras, pois isso é realmente fundamental.

O importante não está nas coisas que produzo exteriormente – uma casa, uma viagem, um livro – mas no que faço com minha própria vida e com a vida dos que me cercam: como me porto com eles e comigo mesmo. A chave está nos bens humanos, nas virtudes que realizo (torno reais) e integro, e não tanto nas coisas materiais que procuro fabricar e possuir.

Aplicando: Na educação, o importante não é aquilo que faço, mas como me completo e me transformo fazendo.

O fim da produção está sempre fora de mim. É uma atividade processual, é um método, que implica em um certo movimento, movimento esse que acaba quando atinjo o fim proposto. Pela produção eu não tenho a pretensão de me realizar, mas apenas de realizar outra coisa, por exemplo reconfigurar meu laptop que entrou em sua típica fase caótica. A produção implica em um processo e em um resultado.


  1.  Santo Agostinho: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.

Aplicando:Os propalados “sistemas” de ensino que vigoram em muitas escola, se forem muito bem aplicados poderão no máximo atingir um fim concreto e externo, como adquirir uma série de informações que me permitirão passar em determinada prova. Não me realizo com isso. Produzo algo externo a mim, e só.

A Operação, ao contrário, tem um fim que permanece em mim enquanto agente. É uma ação que afeta meu modo de ser. Não faço nada com ela, a não ser fazer a mim mesmo como, por exemplo, quando digo a verdade em um ambiente onde é perigoso a dizer. Se disser a verdade, me torno sincero; se mentir me transformo em mentiroso. Isto é: a operação não apenas atua “para fora”, mas me vai configurando a mim mesmo (como alguém sincero, ou como alguém mentiroso). Algo semelhante acontece com o comportamento ético, com o qual não se procura produzir nada externo, mas sim atingir um bem humano que me faça melhor a mim mesmo e aos que me rodeiam.

– Mas reconfigurar o laptop é útil, serve para algo. Dizer a verdade, pelo contrário, não serve para nada, a não ser para me antipatizar com os outros…

– Esta é a chave. Dizer a verdade não é um meio para um fim: é o próprio fim. Não serve para outra coisa, exatamente porque é uma ação que tem o fim em si mesma. Não é necessariamente algo “útil”, é simplesmente algo bom. E justamente por causa disso é relevante para orientar minha vida para seu próprio florescimento. Enquanto que reconfigurar meu laptop é muito útil para continuar escrevendo este artigo, mas pouco importa para atingir o êxito em minha vida.

Ao dizer a verdade não ganhei nada externo e tangível: ganhei a mim mesmo. Não avancei rumo a meu triunfo profissional ou ao meu prestígio social: avancei em direção a mim mesmo.(Avancei em direção a meu ideal de mim mesmo, e que é o verdadeiro objetivo da educação personalizada). Enriqueci de um modo muito mais íntimo e precioso do que se ganhasse o premio da Mega Sena. Não mudei externamente, mas meu interior cresceu de tal forma que estou em condições de atuar melhor na próxima vez. Cresci até atingir e integrar em mim alguns bens que provavelmente permitirão enfrentar com mais acerto as vicissitudes do futuro, e – mais que isso – me assemelhar com Deus naquele aspecto único e pessoal que Deus deseja que eu pareça com Ele.

Passo a passo, à força de operações acertadas, vou me completando, ainda que às vezes dê a muitos a impressão de estar deixando de aproveitar oportunidades valiosas. É um tipo de trabalho de uma altura muitíssimo maior. Não se tratam de lentilhas, mas de caviar. Ainda que as lentilhas, bem preparadas, sejam boas. E ainda que o homem não viva apenas de caviar.

DESVIOS E REDUCIONISMOS NO ENTENDIMENTO DA LIBERDADE

Sendo a liberdade uma dimensão radical da natureza humana, imbricada intimamente com sua essência, não é de espantar que ela seja frequentemente considerada apenas de maneira parcial, enfocando-se um de seus aspectos, e propondo-se esse aspecto de maneira exclusa em detrimento dos outros. A liberdade é objeto de reducionismos pela sua fecunda complexidade, que a razão não consegue abarcar satisfatoriamente. Assim, apresenta um flanco aberto a um dos mais frequentes e fáceis enganos da inteligência: o que consiste em tomar a parte pelo todo.

O primeiro erro na compreensão da liberdade, fonte de outros equívocos, é afirmala como absoluta, tomando-a como o todo da condição humana, sendo que é uma parte. Ela é então considerada como o fim último da existência, ainda acima da felicidade. Essa é a concepção de Rousseau, destacado inspirador do pensamento político, social e pedagógico da modernidade, para quem a finalidade da existência humana é a plenitude da liberdade. Esta passa a ser compreendida como independência absoluta, como ausência total de vínculos e débitos subjetivos. O homem natural é precisamente aquele que não deve nada a ninguém, desligado de qualquer obrigação que não se tenha ele mesmo imposto a si mesmo. Esta visão será retomada por Kant, que a irá expressar como autonomia moral, marcando o tom do pensamento que irá conformar muitas propostas pedagógicas da modernidade. Segundo ambos, Rousseau e Kant, pode-se dizer que a dignidade humana reclama uma liberdade absoluta, e que o homem será tanto mais humano quanto possa outorgar a si mesmo as leis que regem sua conduta moral.

Essa posição não leva em conta o caráter relativo da liberdade, fruto de finitude humana: sendo o homem um ser limitado, sua liberdade será limitada também.

Os limites mais imediatos da liberdade dimanam da condição física da natureza humana. O corpo é a primeira fonte de limitações para a liberdade pessoal, que deve se cernir, por exemplo, ao nosso metabolismo. Outro limite da liberdade é o fato de que o homem esta “situado”, isto é, tem que contar com a presença dos demais homens: a ação livre de um homem tem como referente outra ação livre alheia, com a qual se deve conjugar. Isso é essencial entender na educação: o ensino, atividade deliberada e livre do docente, reclama a ação formativa – radicalmente livre – do aprendiz. Sem a concorrência de ambas liberdades a educação é impossível.

Por outra parte, a liberdade é também defectível: ela pode errar em sua realização, e inclusive pode se autodestruir, através do erro: pelo uso errado da liberdade o homem pode perde-la e se tornar escravo (por exemplo, de um vício).

Então, a liberdade é a sementeira da excelência humana, mas é também um encargo para o ser que a deve realizar. A pretensão exaltada de que ela é absoluta, unida à consciência vivida de que é falível leva o homem a outro desvio: negar a existência da liberdade, e a relegar ao terreno das fábulas ou ilusões. É o que fizeram ao longo da história filósofos de várias tendências, tais como Spinoza, Shopenhauer e Nietzsche. Para eles a liberdade é ilusória: o homem acredita ser livre, quando na realidade está sujeito a determinações cósmicas das quais não pode escapar. Os mais pessimistas, como Jaspers e J. P. Sartre afirmarão que a ideia de liberdade, mais que ilusão, é uma carga esmagadora que oprime o homem: melhor seria não ser livre, e afastar essa exorbitante responsabilidade que supera em muito a capacidade humana.

Outra via de negação da liberdade é a entender como espontaneidade. Esse falso entendimento irá gerar em nossos dias as “pedagogias da libertação”. O postulado implícito e esse erro é a bondade natural e originária do ser humano, como afirma Rousseau. O mal seria contradizer essa origem, essa natureza intrinsecamente boa. Para escapar desse mal, o homem não teria outro caminho senão retornar à sua origem, buscando o “homem naturalmente bom” que poderia ter sido. Essa “volta à origem” não é vista como um retrocesso histórico e cultural, mas como um avanço até um futuro possível, onde o homem pode dominar a si mesmo pela fidelidade à sua natureza naturalmente boa. O natural se manifestaria no autenticamente espontâneo. A liberdade seria assim a libertação, superação e anulação de todas as constrições externas, principalmente a liberação dos impedimentos impostos pelo relacionamento social através de suas instituições que regulam a vida comum, tais como o Estado, a Universidade, a Igreja, e até mesmo a Família.

UNIVERSIDADE: TRADIÇÃO E RENOVAÇÃO

A história nos ensina que quando uma Universidade não soube adaptar sua missão às necessidades culturais e sociais de seu tempo, acabou por ficar isolada. A fidelidade à sua razão de ser exige da instituição universitária uma contínua renovação, para continuar iluminando e servindo a sociedade através das mudanças dos tempos e dos lugares. Mais ainda: é a Universidade que deve estar na própria origem dessas mudanças. A fidelidade aos seus princípios constitutivos e à sua identidade como instituição superior implica em um espírito de vivificação contínua, mesmo em circunstâncias adversas.

Ora, um dos grandes princípios que identificam a Universidade é a unidade dos saberes que ela cultiva. Manter e fazer resplandecer essa unidade é uma tarefa vital, e que nunca irá terminar. É uma meta cujo cumprimento constitui a própria vida da Universidade. Seu objetivo contínuo sempre será recompor sua Unidade de Pesquisa, de Ensino e de Extensão, dentro e através da mutabilidade dos contextos sociais. Para isso a Universidade exige de si mesma uma contínua renovação.

Contrariamente ao que uma leitura superficial poderia imaginar, inovação e fidelidade aos princípios não são atitudes antagônicas. A liberdade não se reduz à aplicação de um esquema abstrato e estereotipado. A fidelidade à missão recebida requer imaginação, espontaneidade, iniciativa, agilidade de decisão, juventude interior. Não há receitas nem formulários para enfrentar as conjunturas, que sempre serão inéditas.

Se isso é válido para qualquer âmbito da vida, é de especial vigência no âmbito universitário: a Universidade tem uma relação essencial com essas realidades que recebem o qualificativo de “novas”. A história intelectual do Ocidente nos ensina que quando as universidades se esqueceram que a inovação é seu sinal de identidade mais característico, elas imediatamente caíram em um academicismo rançoso, em uma prepotência orgulhosa e oca, que as esvaziou de conteúdo e obscureceu sua missão. Pelo contrário, quando souberam estar “na própria origem das mudanças corretas que surgem na vida da sociedade”, – para usar a expressão de S. Josemaria Escrivá, fundador da Universidade de Navarra – então ficaram na vanguarda da história, estiveram no próprio nascimento do conhecimento novo, e ganharam a liderança que lhes corresponde, no terreno do saber publicamente reconhecido.

O amor pela tradição – outra característica vital da universidade – não é de forma alguma incompatível com o desejo do progresso. Uma tradição que não se renova mostraria claramente que está morta, e seria então uma carga balofa e incômoda, que se arrasta sem motivo. Por outro lado, não existe progresso verdadeiro que não brote de uma história pujante, que sempre floresce em rebentos novos, prova de sua vitalidade e de sua força.

Mas vamos nos entender bem: a relevância da tradição só é viável se a conseguirmos libertar de seu cárcere tradicionalista. Porque existe um tradicionalismo conservador que é apenas o erro oposto do progressismo liberal: ambas as linhas de pensamento estão contaminadas pela visão obstinadamente unilateral e “caolha” do homem e da história humana. A genuína ideia de tradição está arraigada na complexa e plural realidade dos caminhos que levam os homens a se aperfeiçoarem a si mesmos, ao mesmo tempo que aperfeiçoam as obras de suas mentes e de suas mãos. A lealdade à própria identidade não se deve confundir com um conservadorismo teimoso, incapaz de distinguir entre a seiva fluida e a casca ressecada. Apegarse ao detalhe acidental simplesmente porque “antes se fez assim” mostra que a fidelidade à missão institucional começa a se esvaziar, e vai sendo substituída pelo ritualismo oco e vazio. A tradição autêntica é capaz de evoluir de forma homogênea e renovar-se para dar espaço ao seu próprio desenvolvimento interno, e às cambiantes vicissitudes do entorno cultural e social; enquanto que a falsa tradição é a que se imobiliza em uma espécie de corte temporal, mitificando um presente qualquer, chamado – como todos os outros – a ser absorvido pelo passado.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018) e LLANO, Alejandro: A Universidade diante do novo. Aula inaugural do ano acadêmico 2002-2003, da Universidade de Navarra.

A LIBERDADE POSSÍVEL: SERÁ QUE A LIBERDADE EXISTE MESMO?

Este texto recolhe uma intervenção do filósofo Leonardo Polo em um colóquio organizado por alunos da Universidade de Navarra

Nosso tema é a liberdade. Vou abordá-lo iniciando com duas perguntas, e me fingindo de pessimista ao responde-las. Primeira: “O homem é livre?” E segunda: “O homem é sempre igualmente livre, conta sempre com a mesma liberdade?” (Pois a liberdade também precisa ser vista “em movimento”: não é simplesmente algo que o home tem, mas algo a respeito do qual ele pode fazer alguma coisa)

Evidentemente a primeira pergunta é radical, e a resposta deve oscilar entre “ou o homem é livre, ou não”. Já a segunda poder parecer menos radical, e no entanto é bem radical também. Porque se respondêssemos a primeira dizendo que o homem é livre, e depois respondêssemos a segunda afirmando que o homem é sempre igualmente livre, então teríamos que a liberdade é uma propriedade humana nativa, que não se desenvolve: todos os homens seriam igualmente livres, e historicamente não se poderia aumentar a liberdade. A liberdade seria uma simples propriedade da vontade, constitutiva como tal, e nada mais. Mas se é constitutiva, ou está, ou não está, e se está, está. Então o interesse pela liberdade desapareceria, ela ficaria fora do progresso. Seria simplesmente uma fonte, e uma fonte constante dos atos humanos. E ao ser uma fonte que não se acrescenta, a consequência seria que o progresso que os atos humanos poderiam alcançar seria um progresso à margem da liberdade. E se é um progresso à margem da liberdade, poderia até mesmo ser um progresso inimigo da liberdade.

Há pessoas que se atrevem a responder positivamente às duas questões, dizendo que sim, o homem é livre, e além disso é crescentemente livre. Eu também acredito nisso, mas como filósofo preciso advertir que há certas dificuldades em responder assim, pois à primeira vista isso não está tão claro. Por isso me faço de pessimista: para mostrar antes os sinais, os muitos fatos que nos levam a uma espécie de desesperança a respeito da resposta afirmativa a essas duas perguntas. Vejamos quais seriam as dificuldades a respeito da primeira questão, se o homem é livre ou não. Do ponto de vista vital, essas dificuldades podem ser chamadas de “atitudes”, “vivências”, sentimentos que atualmente se adotam a respeito da liberdade, a respeito da indagação de se o homem é livre ou não.

A aspiração à liberdade

Podemos perceber em toda a humanidade atual algo que poderíamos chamar “aspiração à liberdade”: todos querem ser mais livres, ou melhor dizendo, todos querem ser livres. Toma-se a liberdade como uma meta: algo que ainda não se tem, mas que se deseja. E isso já é uma dificuldade a respeito da primeira questão, pois se aspiramos a uma liberdade, estamos afirmando que não a temos. Quem aspira à liberdade reconhece que não a possui. O que realmente acontece no mundo é que não se sabe exatamente o que a liberdade seja, e então se aspira a ela de uma forma muito vaga: Há muitas pessoas que acham que não são livres e desejam sê-lo, mas não sabem exatamente o que significa ser livre. A liberdade se lhes apresenta como um ideal cujo conteúdo e contornos são extremamente imprecisos. Nota-se claramente nos jovens que eles não se consideram livres, mas querem ser. E então se tornam revolucionários, ou coisas assim. Há também minorias que têm uma sensação de não ter liberdade, de estar na escravidão, de que a liberdade é algo que no momento não existe.

Mas, em que consiste essa liberdade? O que se nota em seu valor positivo? Exatamente o que é ser livre? Não se sabe, claro… porque…. como se pode saber? A única forma de saber o que é ser livre, é sendo-o, pois a liberdade não se conhece como se poderia conhecer um outro objeto qualquer. A liberdade nos a conhecemos exercendo-a. Se não se exerce, não se sabe. Portanto, quando surge uma atitude de ânsia pela liberdade, evidentemente ela leva implícita uma percepção extraordinariamente confusa do que seja essa liberdade. Prova disso é que essa aspiração à liberdade normalmente costuma terminar desvanecendo-se, ou termina em algumas situações que nada mais são do que desordem: não são liberdade, mas desordem.

A negação da liberdade

Outros simplesmente negam a liberdade. E por que? Porque quando fizeram a experiência da liberdade, constataram que a liberdade não é um valor tão positivo como parecia, que é um valor muito relativo, e que de certa forma é mesmo um desvalor, ou um anti-valor. Isso é característico, por exemplo, do pensamento existencialista, e também de algumas formas de psicanálise. Alguns existencialistas pensam que estamos condenados a ser livres, e que não temos mais remédio que carregar o fardo de nossa própria existência, no sentido de “termos que nos fazer” (que é o que significaria a liberdade em seu próprio conceito). O homem se tem a si mesmo como tarefa, e portanto tem que carregar seu próprio ser. E esse carregar seu próprio ser, assumindo seu próprio ser em uma ou outra direção, isso seria a liberdade. A liberdade está gravada radicalmente pela própria pessoa, e então em vez de ser uma coisa excelente, alegre, brilhante, é exatamente o contrário: é uma espécie de tarefa necessária, obrigatória, pesada, esgotante, que temos que realizar com nossos próprios e limitados recursos. E ainda por cima temos que fazer isso sozinhos. Assim, chega-se a um certo medo da liberdade. Mais que medo, a uma avaliação que não é inteiramente positiva: a liberdade é uma desgraça, seria melhor não ser livre, porque se não a tivéssemos estaríamos isentos dessa tremenda tarefa de nos autoconstruir. Outra atitude concernente à liberdade que também aparece é o que poderíamos chamar de desespero: a liberdade desespera. Não se trata agora de a valorizar negativamente no sentido de que ser livre é uma dureza, mas sim que seria melhor ser como uma formiga, simplesmente seguir o caminho da vida, sem ter que preocupar-se com nada: “Ser livre é preocupar-se, e isso já é algo negativo”.

A liberdade inútil

Mas há ainda uma terceira atitude possível, que pode coexistir com as outras, e pode se mesclar com elas: dizer que a liberdade não serve para nada, que é rotundamente inútil. Não é exatamente dizer que a liberdade é uma desgraça porque me traz obrigação de me auto-realizar, mas sim dizer perguntar se essa tarefa tem algum sentido, ou se tem alguma possibilidade de ser levada a cabo. Em resumo, que a liberdade, além de ser difícil e incômoda, não serve para nada. Isso não ocorre com excessiva intensidade, mas às vezes aparece: “A liberdade serve para que? Que interesse ela tem? Vamos conseguir algo pelo fato de sermos livres? Somo efetivamente livres, mas que o sejamos não significa nada do ponto de vista de realização”. E o homem renuncia a ser livre, não porque a liberdade seja um valor negativo, mas porque não tem significado algum.

Há ainda a tristeza diante da liberdade. Não a anterior, mas um outro matiz: consiste em renunciar à liberdade porque essa aspiração nunca se irá alcançar: “Vamos ficar correndo atrás dela toda a vida, para terminar em um fracasso radical. Talvez não por culpa nossa, mas por outros fatores externos que não podemos controlar. E no final, depois de ter feito um grande trabalho para sermos livres, sucederá que tudo não servirá para nada, e se desvanecerá. E aí vem a morte sorrateira, e tudo se acaba”. É a tristeza diante da liberdade, porque buscamos uma coisa que no final nos escapa.

A liberdade finita

Vejamos agora outra questão. A primeira pergunta “somos ou não somos livres?” pode-se resolver em na segunda, que seria esta: “Se somos livres, quanta liberdade temos?” E, sempre como pessimista, respondemos que “podemos ter uma liberdade maior ou menor, que poderá talvez crescer um pouco ou diminuir um pouco, mas que sempre será finita. Haverá sempre um limite que não se pode superar, e portanto nossa liberdade é uma liberdade determinada, e nada mais”. E o pessimista demonstrará isso mostrando uma série de circunstancias ou dados que coarctam nossa liberdade, e que não podemos superar. Por exemplo: “Somos livres, mas o somos de maneira limitada porque estamos inseridos em uma realidade física que nos rodeia, e que nos limita. Não podemos fazer magia com a realidade física. Ela não obedece à nossa liberdade, é um limite para ela”. Mas a finitude de nossa liberdade não termina aqui: “Em segundo lugar nossa liberdade é uma liberdade encarnada, isto é, além de estarmos postos em um mundo físico que nos envolve, nossa liberdade é a de um ser que não obedece à liberdade em todas as suas dimensões”. Não se trata de que eu queira ser livre com respeito à lei da gravidade, isso não tem sentido, mas dentro de mim, dentro de minha constituição como ser que sou, na realidade que sou, há muitos aspectos, há muitas dimensões que não são livres. Podemos suspeitar que muitíssimas coisas que fazemos não obedecem à nossa liberdade, mas obedecem a um impulso de outro tipo.

Outras limitações

Há ainda uma terceira consideração com respeito à finitude de nossa liberdade: nossa liberdade é sempre uma liberdade situada. E isso quer dizer que nossa liberdade de fato deve ter em conta a liberdade dos demais. Não somente estamos em um mundo que tem suas próprias leis, em respeito das quais nossa liberdade está coarctada, (essas leis não obedecem à liberdade): e não somente ocorre que normalmente temos uma constituição psicofísica que em grande parte tampouco obedece à liberdade. Além disso, desde que nascemos estamos inseridos em um meio social de onde nos vêm uma série de determinações que não podemos saltar: isso é o que poderíamos chamar a situação de nossa liberdade. Nossa liberdade é uma liberdade finita, não somente porque está limitada pelo mundo físico, não somente porque está encarnada, isto é, porque tem a ver com uma constituição psicobiológica, mas também porque está situada, isto é, porque inevitavelmente tem que contar com os demais, e os demais não é que coacionem (o que também pode ocorrer), mas fundamentalmente o que ocorre é que os demais não me deixam passar. Ademais, não é somente isso: muitas das vezes que alguém se acredita operar em plena autoconsciência, em plena possessão dos motivos, em realidade esses motivos vêm dados de fora. Não é preciso ir mais longe que observar o fenômeno da publicidade, ou ao fenômeno social: compro uma coisa livremente, ou foi porque de uma maneira talvez inconsciente fui influenciado por um anuncio na televisão?

E para o cristianismo não são apenas esses os modos de finitude da liberdade, mas há mais. Em primeiro lugar nossa liberdade é uma liberdade decaída: o pecado tem que ver com nossa liberdade de uma forma muito estrita e perfeitamente definida. A maneira como se manifesta a liberdade em sua finitude na forma de queda é – e isso é já um tema muito clássico que Santo Agostinho recolhe, e que Lutero empregará exageradamente – o tema clássico das concupiscências. As concupiscências não são, nesse sentido, as paixões: as paixões teriam que ver mais com o fato de que nossa liberdade é uma liberdade encarnada. A concupiscência se nota fundamentalmente no que poderíamos chamar a ordem das motivações, a impossibilidade de estar seguro de que alguém obra com retidão de intenção completa: existirá inclusive nos atos em que alguém crê que é mais livre, porque é mais livre para o bem. Como saberemos se naqueles atos em que alguém acredita ser mais generoso, ou que tenta ser mais generoso, não existirá um fundo errôneo e que na verdade a pessoa está se buscando a si mesma? Ou mais profundamente: quando nossa liberdade “dispara”, ela o faz de um modo realmente e inteiramente livre, ou é condicionada por qualquer fator que a dirige e sujeita? Existe um egoísmo radical que nos incapacita de fazermos um ato completamente bom, porque nossos atos em algum momento vêm marcados pela liberdade decaída. E como os motivos da concupiscência não são nada claros, isso se torna uma finitude da liberdade, dentro da própria liberdade.

Por último, se pode dizer que nossa liberdade é finita porque é criada. E nesse sentido depende de um princípio radical que não é originalmente próprio, que é Deus.

Recapitulação

Tratamos até agora do aspecto negativo da questão. Depois de ver as atitudes diante da liberdade, destacamos sua finitude radical, que lhe vem do mundo físico, de nossa própria constituição psicobiológica, do fato de que está situada, desse deterioramento interior que é a concupiscência, e por último (por ser criada), da dependência de um ser que a criou, e que portanto a transcende também.

Focamos as coisas do ponto de vista mais pessimista, e tentamos acumular todas as dificuldades que o tema da liberdade abarca. Agora, é preciso dar a volta na questão e vermos como o homem é livre, e como essas dificuldades apresentadas a respeito da liberdade e de seu progresso podem ser resolvidas a partir de uma compreensão de liberdade mais profunda. Veremos que todas essas “experiências” referentes à inexistência da liberdade ou à sua finitude são no fundo vivências, muitas delas inegáveis, mas que não alcançam o fundo da questão. É preciso dizer agora que o assunto da liberdade é muito sério, extraordinariamente importante e radical, e está muito além de todas essas questões. Todas essas vivencias a que me referi são muito contingenciais, e todas elas são motivadas não pela consideração da liberdade, mas por considerações imaginárias segunda as quais alguém quer ser livre.

É isso que precisamos ver: se o homem pode ser livre de qualquer maneira, ou se há certos modos de ser livre, e no final apenas um, do qual todos os outros são derivações mais ou menos intensas.

Porque quando alguém tenta abordar o tema da liberdade de uma maneira caprichosa ou de uma maneira qualquer, não haverá nada de estranho que se encontre com uma visão da liberdade que é uma visão negativa, uma versão triste, uma versão desesperante, uma versão pesarosa, ou inclusive que se chegue a dizer – uma vez que não há mais nada que determinação ou jogo de fatores – que não somos nada mais que marionetes.

O QUE É COMUNICAR

Anotações de um tópico de nosso curso de Filosofia da Educação

A comunicação é hoje um tema de pesquisa em muitas das disciplinas das chamadas Ciências Humanas. Não é, portanto, fora de propósito tratar dela também em uma disciplina pedagógica. Mas as razões para seu estudo em Filosofia da Educação não são meramente circunstanciais: há motivos intrínsecos e próprios para sua consideração, que se poderiam resumir apenas destacando o fato de que a educação é comunicação, mas um tipo de comunicação muito especial: o educador, ao ensinar, se comunica de um modo particular, diferente do informador ou comunicador público, ainda que também se dirija a um grupo humano. A diferença não está no número de receptores de sua ação comunicativa, nem nas condições do canal comunicativo, mas na própria índole da ação. Vamos estudar suas características próprias, e para isso é conveniente iniciar por uma consideração genérica da comunicação humana.

A mais difundida noção da comunicação humana é dizer que ela é intercâmbio de informação. Sem ser falsa, essa definição é reduzida e incompleta, pois depois de uma primeira reflexão, ela provoca mais problemas do que resolve. Por exemplo: O que acarreta uma melhor comunicação: a abundância ou a escassez de informação? Pode haver comunicação mediante um ato intencional de silêncio? Qual é o principal agente: o que possui a informação ou o destinatário dela? Centrar a comunicação na “informação compartilhada” é uma perspectiva fisicista: atende os aspectos materiais, mas despreza os aspectos formais, verdadeiramente definitórios.

Segundo o dicionário, o termo “comunicação” tem um significado complexo, pois como substantivo de ação do verbo “comunicar” oferece nove acepções diferentes: manifestar, conservar, transmitir, consultar ou propagar, entre outras. A referência mais consistente, na medida em que está implícita nas restantes, é a primeira: manifestar, isto é, fazer com que uma pessoa participe do que outra pessoa tem. Este significado revela, por outra parte, o caráter derivado ou secundário da informação, pois tanto se pode participar dela quanto por exemplo, de seu oposto: a ignorância.

Um belo estudo de E. Redondo confirma o núcleo essencial da comunicação segundo sua referência linguística: a participação. Dessa maneira, a comunicação fica definida como a relação real estabelecida entre dois ou mais seres em virtude da qual um deles participa de outro, ou ambos participam entre si. Ou ainda: “relação real estabelecida entre dois seres em virtude da qual se põem em contato, e um deles – ou ambos – doa algo ao outro”: a comunicação não se pode definir sem usar o conceito de participação, o qual expressa esse ter extensivo a outro, que é o constitutivo essencial da comunicação.

Participar é ter parte em algo que outro já tem. Poderia também se caracterizar como “posse compartilhada”, efeito direto de uma doação. Essa é a primeira nota que convém destacar no conceito de participação: a doação, isto é, a ação de um sujeito que dá algo a alguém. Se não houvesse a doação, se a possessão fosse compartilhada “ab initio”, não haveria em rigor comunicação, mas comunidade.

Um segundo momento na consideração da doação mostra outra nota essencial referente à participação: ela é uma doação que não se perde quando se dá, pois senão não seria compartilhada. Redondo esclarece: “Não se pode afirmar que toda doação seja em rigor uma comunicação, mas somente aquela que não suponha empobrecimento por parte do doador. O específico da comunicação é precisamente isto: dar sem se empobrecer”.

Este dar sem se empobrecer também mostra que a verdadeira comunicação é algo plenamente humano, pois só um ser espiritual é capaz disso.

OS CEGOS E O ELEFANTE: OS REDUCIONISMOS E A UNIVERSIDADE

Qualquer adulto medianamente ilustrado acredita saber definir bem e claramente o que é uma Universidade, pois já passou por algum tipo de experiência atinente a essa instituição. Assim, se perguntado, responderia algo condizente com o que viu, leu, experimentou, ou ouviu dizer: “A Universidade é uma instituição de ensino superior”; “… é um conjunto de faculdades”; “… é um centro de pesquisas”; “…é um tipo de empresa”; “é um templo do saber”; “é uma escola para a vida”. Talvez alguns, mesclando alguma amarga experiência ao sarcasmo, acrescentem sentenças e aforismos copiados: “É uma instituição que desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez” (Techkhov); ou ainda, “É o local onde a ignorância é levada às últimas consequências” (Millor Fernandes).

Estas e todas a mil outras respostas análogas fazem lembrar a conhecida parábola indiana dos cegos e do elefante. O animal foi apresentado a um grupo de cegos, para que o conhecessem e definissem. Cada um deles apalpou uma parte do elefante. O que tocou a pata, definiu: “este animal é semelhante a uma árvore”. O que tateou a tromba, replicou: “é uma serpente”. O cego que tocava o ventre do animal contestou: “é parecido com um muro rugoso” …

O apego obstinado a apenas uma parte da verdade é próprio do cego, quando se trata de coisas materiais, e próprio do reducionista quando se trata do intelecto. O reducionismo é exatamente isso: uma insistência obstinada em uma parte da verdade que se percebe, acompanhada de uma teimosa negativa da existência de outros aspectos dessa mesma realidade, que o reducionista não vê. Leonardo Polo comenta que as frases dos reducionistas já trazem embutidas essa negativa teimosa em sua própria sintaxe, no uso do advérbio restritivo “apenas”: “o homem é apenas instinto”; “as pessoas se movem apenas pelo dinheiro”; “apenas os ingênuos são religiosos”, etc.

No íntimo, talvez o reducionista esteja apenas querendo dizer: “É apenas isso, porque isso é tudo o que sei, e não possa admitir que não possua todo o saber”. É um modo cômodo de caricaturar uma verdade complexa em algumas linhas que se possam postar nas redes sociais.

Este Blog está fazendo sua estreia nas redes sociais, mas não quer ser reducionista. Pretende tratar da Universidade. E como este é um tema complexo, o irá tratar paulatinamente, correlacionando opiniões, assentando pedras firmes e talhadas com método, plano e paciência, como quem constrói uma catedral. Temos a esperança de que leitores e amigos contribuam com suas parcelas de verdade. Aos poucos iremos assim construindo uma visão mais abrangente, mais sólida, mais polifacética, e – esperamos – mais verdadeira.

A primeira pedra que desejamos por, à maneira de fundamento, é que a Universidade é Una, como una é a Verdade.

Que é, qual o fim da Universidade? Seus primordiais equivalentes na Grécia Antiga, a Academia de Platão, e o Liceu de Aristóteles, buscavam a Verdade, em si mesma, e isso lhes bastava. A verdade era a identificação entre o Pensamento e a Natureza, e como a Natureza era una, pois que, no dizer de Anaxágoras, “tudo tem a ver com tudo”, a verdade a ser conhecida era una também.

Nas Universidades Medievais, essa busca da Verdade Una prosseguiu, somada ao ideal de serviço trazido pelo Cristianismo: a missão da Universidade passa a ser também o serviço da sociedade. Surge então a ideia de progresso: a Universidade não busca apenas o cultivo do Saber por si mesmo, mas procura encontrar nesse Saber o impulso que ajude o homem a crescer, tanto material quanto espiritualmente. A História, que os antigos viam como uma sucessão fatal de acontecimentos, é agora encarada pelo medieval como algo em que se pode intervir, de certa forma produzir, e até mesmo prever. O homem deixa de ser um joguete nas mãos dos deuses, e passa a ser um coautor da História, ao lado e sob a regência de Deus. A História tem um rumo, aponta para uma meta. Os homens podem livremente conhecer, estudar e percorrer esse caminho, que passa pelo aprofundamento na verdade, e consequentemente pela santificação pessoal de cada um. A Universidade, ao lado da Família, é vista como uma das Instituições que desvendam ao homem as múltiplas verdades das coisas, todas elas harmônicas e tendentes para a Verdade Única, de tal forma que o homem, ao descobrir uma verdade, tinha a certeza de que a poderia seguir, “fazendo seu próprio caminho ao andar”, certo de que no final todos se encontrariam no Verdadeiro, que era Bom, e que era Belo. Todas as Instituições colimavam o mesmo fim. Essa realidade medieval é assim descrita pelo Papa Leão XIII na encíclica “Imortale Dei”:

“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. (…) Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.”

No Renascimento, e depois na Ilustração, a simbiose entre a Universidade e a Sociedade se tornou ainda mais diversificada: as atividades técnicas humanas se beneficiam ainda mais das novas ajudas proporcionadas pela pesquisa universitária. As Ciências da Natureza se desenvolvem como nunca antes, proporcionando à sociedade um enorme desenvolvimento prático, técnico e econômico.

Entretanto, essa maior abertura para a prática e a técnica, que só benefícios deveria trazer, acarretou um desvio de rumo, uma progressiva perda do ideal universitário, que com o passar do tempo se tornou desastroso.

Ofuscado pela prática e pela técnica, o Iluminismo esqueceu que não basta conhecer as Ciências da Natureza, mas que é preciso também conhecer o Espírito, e toda a plêiade de saberes que essa palavra acarreta, tudo aquilo que no homem não é apenas matéria, e tudo aquilo que no universo é espiritual, e o fim de tudo, que é Deus. A “nova universidade” foi deixando de ser una, para ser primeiro duas, e depois muitas: os assuntos atinentes ao espírito continuaram sendo tratados, mas “de lado”, depois “nos fundos”, e depois ainda no quarto de despejo do conhecimento e da pesquisa humanos, até chegarmos ao estado de coisas atuais, onde esses saberes, reunidos sob o nome de “Humanidades”, são vistos com uma espécie de condescendência, como antiqualhas que serão talvez belas, mas que tem o mesmo valor prático da gravata, da cartola e do colete. Meros acessórios. Como descreve Alejandro Llano, a estrutura unitária da Universidade se rompeu:

“Em sua origem, ela era uma instituição em que todos os saberes tinham correlação entre si: era o Ideal da Árvore dos Saberes, ou Árvore das Ciências, onde se via todo o conhecimento humano hierarquizado em ciências fundamentais, que eram as raízes, outras que sustentavam o tronco, e outras ainda que formavam os ramos, isto é, as diversas especializações do saber. Esse ideal de manter a unidade da árvore das ciências se vai paulatinamente rompendo, e paralelamente a Universidade vai também perdendo seu caráter unitário. Foi esse estado de coisas que nós herdamos: a Universidade não é mais Una, e se transformou em Pluridiversidade.”

Leonardo Polo é enfático ao dizer que a universidade se fragmentou, se estilhaçou em especializações que não mais dialogam entre si, ocasionando um desentendimento entre os distintos ramos do saber, inteiramente contrário ao verdadeiro espirito universitário. E o Papa Bento XVI, em um encontro de professores universitários celebrado em Roma em 2007, também chamou a atenção para a urgente necessidade que tem a Universidade de “redescobrir a unidade do saber opor-se à tendência à fragmentação e à falta de comunicabilidade que acontece com demasiada frequência em nossos centros educativos”. Bento XVI recordava deste modo à Universidade “sua vocação de ser uma universitas, onde as mais diferentes disciplinas, cada uma a seu modo, se vejam como parte de um unum maior”.

Se desejamos realmente edificar uma Universidade, que nossa primeira pedra seja essa: a universidade é una, como a verdade que ela busca, pesquisa, defende e ensina.

O PROJETO HUMANISTICO DE HARVARD, CHICAGO E COLUMBIA.

Uma das soluções que algumas universidades do mundo buscaram para superar o problema da fragmentação do saber foi oferecer aos alunos uma formação intelectual que tornasse possível a integração dos conhecimentos especializados de cada curso ou faculdade em uma unidade superior. Para isso criaram o chamado “Core Curriculum”, um conjunto de componentes curriculares e de cursos, normalmente de viés humanístico, que fosse comum para todos os estudantes, independentemente da faculdade que cursassem ou da carreira que escolhessem.

O primeiro programa de Core Curriculum foi implantado na Universidade de Columbia, em 1919. Desde seu início estava ligado à ideia de formação humanística, ou melhor dizendo, à perspectiva humanística de educação. Esse movimento se mostrou extraordinariamente fecundo nas universidades norteamericanas até os anos 60, especialmente em Columbia, Chicago e Harvard. Entre os seus principais promotores se destaca a figura Robert Hutchins, que introduziria em Chicago o sistema dos Great Books: leitura, análise e debate de grandes clássicos da literatura universal, de Platão a Shakespeare, passando pelos clássicos norte-americanos.

Em 1945 James Bryant Conant, Reitor de Harvard, sintetizava em poucas linhas o desafio que as universidades deveriam afrontar no período imediatamente posterior à Segunda Guerra: o centro do problema da educação deveria ser a continuidade da tradição humanística. Nem a aquisição de conhecimentos básicos nas ciências físicas e biológicas nem o desenvolvimento das habilidades de escrita e expressão bastariam para preservar a civilização e construir uma nação de cidadãos livres. É necessário mais: que em cada nível educativo, desde o colegial até a universidade, os estudantes entrem em contato com aquelas áreas do saber em que os juízos de valor são primordiais. É imprescindível que o estudante saiba avaliar e empregar as palavras “correto” e “equivocado” tanto em sua dimensão ética quanto matemática. Se não for assim, estará cego para distinguir aquelas ideias e aspirações profundas que atuam como motor interior da vida de tantas pessoas ao longo da história.

Conant acertava ao sublinhar o desafio que a educação superior norteamericana devia enfrentar naqueles anos. Suas palavras não pretendiam desvalorizar os progressos científicos de seu tempo (Ele mesmo era um químico de projeção internacional), nem diminuir a importância da formação nos estudos técnicos e científicos. Mas sublinhava a necessidade de ir mais além do que essa formação oferecia, para atingir níveis de compreensão e de juízo mais profundos. E para isso, a tradição liberal e humanística era insubstituível.

Infelizmente a história posterior da educação universitária norte-americana não seguiu essa linha então delineada por Harvard, Chicago e Columbia, e a corrente da formação humanística decaiu. Entretanto, algumas algumas Universidades e Centros Universitários ainda resistem heroicamente ao ataque do pragmatismo e do mero utilitarismo. Graças ao empenho de alguns professores e ao apoio de antigos alunos, esse empenho educativo continua presente nas três Universidades que o iniciaram, e em prestigiosos “Colleges” como Saint John ou Thomas Aquinas.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)