“Desfragmentar”, em informática, é o manejo pelo qual se acomodam arquivos de dados em áreas contíguas do Disco Rígido. O uso contínuo do computador, escrevendo e reescrevendo arquivos, provoca com o passar do tempo sua “fragmentação”, de tal forma que a informação referente a cada arquivo fica dispersa em diferentes pontos do disco, diminuindo sua eficiência. A solução desse problema é relativamente fácil: há programas que em poucos minutos desfragmentam o disco, restituindo a unidade perdida.
A solução já não é tão fácil e linear quando o que está fragmentado é a sociedade, e dentro dela, a instituição da Universidade. Nem a fragmentação da vida nem a fragmentação do conhecimento têm um processo de reversão realizável de forma tão automática e mecânica.
Já se tornou um lugar-comum dizer que atualmente a Universidade está fragmentada, e que esse fenômeno é o reflexo no âmbito do conhecimento, das profundas alterações pelas quais a sociedade e a cultura passaram durante o último século.
As análises da psicologia social e da sociologia em geral apontam para essas mutações. Nesse sentido, alguns autores, falam de uma “sociedade palimpsesta”, evocando os pergaminhos raspados para nova utilização, e que mostram agora fragmentos do esparsos de conhecimentos diferentes. Outro termo, mais em moda, define nosso tempo como o das “sociedades líquidas”, onde a única faceta permanente é a da mudança. Essas imagens, ainda que talvez exageradas, captam, no entanto, um aspecto muito real e preocupante do mundo atual.
Essa perda de unidade na vida das pessoas e da sociedade também se projeta no âmbito universitário. Há muito que se fala de um processo crescente de compartimentalização do conhecimento, consequência de uma perda da unidade e da hierarquia dos saberes. Essa fragmentação aparece em toda parte: nos programas dos cursos, no isolamento das faculdades, na separação dos Departamentos, na ausência de diálogo entre as disciplinas. Aparece também no apego cego a um único viés metodológico. Aparece ainda no desprezo de toda tradição.
Esse fenômeno já tem quase um século. Já em 1940 o Chanceler da Universidade de Chicago, Robert Hutchins, afirmava em um discurso em Yale:
“Hoje em dia o jovem norte-americano entende apenas acidentalmente a tradição de que é parte e na qual deve viver, porque seus fragmentos dispersos e separados se espalham de um extremo a outro do campus universitário. Nossos graduados universitários têm muito mais informação e muito menor compreensão que na época colonial”.
Sim, os estudantes universitários em 1940 tinham “muita informação”, mas infelizmente muito pouca compreensão. Que diríamos de nossos universitários de hoje? Graças à informática, dispõe de praticamente toda a informação que a humanidade acumulou durante milênios. E o que fazem com ela? Como afirma um grande amigo meu, médico e soberbo cultor da arte e da literatura, “podemos nos comunicar instantaneamente com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo… mas não temos o que dizer”. Não sabemos processar a informação que nos avassala, e somos esmagados por ela.
É verdade que sob alguns aspectos a fragmentação da ciência é um fenômeno ligado ao desenvolvimento das especializações, e que se poderia alegar que é algo inevitável. Mas este raciocínio é simplista. O problema não está nas especializações, mas na absolutização das visões parciais da realidade, desprezando a visão geral. É uma necessidade do conhecimento humano a busca de explicações compreensivas da realidade. Quando essas explicações são desprezadas e apodadas de “ingênuas” ou “ilusórias”, aparecem outras novas, que mal disfarçam sua pretensão totalizadora e exclusivista.
Outras vozes replicam que a fragmentação dos estudos universitários é consequência da missão da universidade de formar profissionais. Mas essa é outra falácia. A Universidade sempre formou profissionais, desde suas origens. O problema aqui é considerar que a Universidade existe exclusivamente para isso. É alimentar uma visão estreita e utilitarista da Universidade que precisa ser superada.
A desfragmentação da Universidade requer pensar criativamente soluções concretas. Não basta constatar que o problema existe. Tampouco adianta ficar se lamentando e chorando os “bons tempos passados” (que aliás geralmente não foram tão bons assim). É preciso assumir a realidade tal como ela se apresenta, para buscar alternativas viáveis à desorientação de que padece a Universidade nos dias de hoje.
Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)