em Core Curriculum, Universidade

Coleção de ideias de Leonardo Polo Os antecessores da Universidade são as escolas de pensamento da Grécia clássica, como a Academia de Platão, e o Liceu, de Aristóteles. Nelas, a busca da verdade era uma atividade que se justificava por si mesma.

Depois, com o Cristianismo, surgiram as Universidades medievais. Nelas se acrescenta uma nova característica à busca da verdade: o saber cultivado na academia precisa também estar disponível para o progresso, e para a organização da vida social: a Universidade não existe apenas para buscar o conhecimento, mas para servir. É na Idade Média que o Saber começa a influenciar a vida, e a História: começa-se a cogitar de um futuro, que até então era incognoscível. Foi só quando o saber se tornou um dos fatores da dinâmica social que se teve a possibilidade de fazer cogitações sobre o que irá acontecer, pois o futuro pode ser de alguma forma “programado” por esse saber que a sociedade, através da Universidade, incorporou: se racionalizamos a marcha da História, o futuro é cogitável, quase previsível.

É justamente assim que surge a ideia de progresso. Não se trata apenas do cultivo do saber por si mesmo, mas também de encontrar nele uma aplicação de tal natureza que ao impregnar a marcha da História a faça acessível ao cálculo. A História já não é um conjunto de eventos mais ou menos contingentes, como antes se pensava, mas pode ser racionalmente conduzida pelo homem.

Na Ilustração, a influência da Universidade se torna mais significativa nos processos internos da sociedade. Na primeira fase dessa simbiose, as atividades técnicas humanas vão buscar ajuda nova na ciência universitária. Por isso se fomenta o desenvolvimento das Ciências da Natureza, e dessa cooperação nasce um enorme desenvolvimento econômico. De tal forma que se pode dizer que crescimento econômico dos países ocidentais foi a primeira fase da simbiose entre o saber universitário e a dinâmica social.

Mas essa simbiose foi apenas parcial, pois se aproveitou apenas da ciência, e esqueceu, ou desprezou, a outra parte dos saberes produzidos pela Universidade: esse grande conjunto de temas que chamamos de Humanidades, ou – na denominação alemã – Ciências do Espírito.

A Ilustração menosprezou a verdade de que não basta conhecer as Ciências da Natureza, mas é preciso conhecer também o Espírito. Falar do Espírito é tratar de Deus e também daquilo que no homem não é somente a pura natureza material. Como o ênfase utilitário foi dado apenas a um lado, e como o método da cosmologia e das humanidades não é o mesmo, aconteceu que a Universidade se dividiu. Uma parte dos saberes se torna aproveitável no mercado social. A outra, meio hesitante, se torna como que o refúgio de uma série de valores que mesmo sem utilidade prática, ainda são necessários para outro assunto importante, que é a formação dos seres humanos. É a “cultura”, a Bildung, presente em Kant, em Goethe, etc.

De qualquer forma, o importante é constatar que a partir da Ilustração se rompe a estrutura unitária da Universidade. Em sua origem, ela era uma instituição em que todos os saberes tinham correlação entre si: era o Ideal da Árvore dos Saberes, ou Árvore das Ciências, onde se via todo o conhecimento humano hierarquizado em ciências fundamentais, que eram as raízes, outras que sustentavam o tronco, e outras ainda que formavam os ramos, isto é, as diversas especializações do saber.

Esse ideal de manter a unidade da árvore das ciências se vai paulatinamente rompendo, e paralelamente a Universidade vai também perdendo seu caráter unitário.

Foi esse estado de coisas que nós herdamos: a Universidade não é mais Una, e se transformou em Pluridiversidade. Ela perdeu sua unidade exatamente porque o rendimento social dos valores universitários é parcial. Só se aproveita parte desses valores, aquilo que é imediatamente rentável. E não se considera rentável construir a cultura, fazer o homem justo, nem se acredita que isso seja um impulso efetivo para o “progresso”.

Por isso, o próprio progresso se tornou unilateral. Podemos sustentar a tese de que a unilateralidade do progresso moderno corresponde ao desaparecimento da unidade na Universidade, com seu ideal de Árvore das Ciências. O que restou agora foi o divórcio entre as Ciências do Espírito e as Ciências da Natureza.

Diante dessa realidade, qual é agora a missão da Universidade? No meu modo de ver, a missão da Universidade consiste em recuperar sua unidade, isto é, voltar a ser Universidade, coisa que – insisto – progressivamente deixou de ser.

É preciso que a vida social se abra às ciências superiores. Dessa maneira a sociedade não estará dominada por motivações excessivamente materialistas. Não se trata de uma mera declaração de desejo, utópica. É fato demonstrável que a dinâmica social guiada apenas pelas ciências da natureza ou pela tecnologia vai caindo em problemas cada vez mais insolúveis. Para que a Universidade cumpra sua missão diante da sociedade futura é preciso que as Humanidades mostrem sua utilidade social. Acredito que esse é o desafio diante do qual nos encontramos.

Para cumprir esse requisito, a Universidade precisa levar em conta uma série de fatores, alguns inerentes à própria vida universitária, e outros – que poderíamos chamar críticos – que constam em mostrar o déficit de racionalidade social que advém da falta de aproveitamento dos saberes humanísticos para o próprio desenvolvimento da sociedade.

(É preciso) Demonstrar que a Universidade moderna fracassou na construção de um mundo mais humano porque quis cumprir sua função de dirigir a História usando apenas as Ciências da Natureza. Mas esse fracasso era de se esperar. Como dirigir a marcha da História somente com as ciências da natureza? Estamos fazendo uma sociedade sem saber quem somos, e portanto, estamos fazendo uma sociedade sem saber para quem. Pretender dirigir a História com essa ignorância é um disparate.

Se as Ciências do Espírito não entram também em cena, se não acontece essa simbiose, então a sociedade se estropeia, o progresso se torna unilateral e desemboca num conjunto de iniciativas que se contradizem, em uma complexidade ingovernável, como hoje se costuma dizer.

(Acrescentar aqui esta ideia: “Daí a nossa vertente antropológica: vemos a Antropologia como a ciência capaz de unir os dois lados em que a Universidade se fragmentou. A Antropologia é o saber capaz de devolver à Universidade o seu devido esplendor, é o nervo que tornará a Universidade aquilo que ela é )

Os homens traçam idealmente uma série de objetivos, de futuros conjeturáveis (por exemplo, a construção de uma ordem internacional durável e justa), que são impossíveis de alcançar apenas com as Ciências da Natureza, mas que exigem também as Ciências do Espírito. E convém acrescentar a isso a pesquisa da essência da realidade, a que chamamos de Filosofia.

Se conseguirmos isso, poderemos dizer com verdade e otimismo a frase de Paul Valéry que se repete hoje com cargas de pessimismo e apreensão: “O futuro já não é o que era”. Em rigor, encontramo-nos em uma situação tal que se continuarmos dirigindo a sociedade com critérios tecnológicos, toda essa política acabará em catástrofe. Mas o futuro é passível de renovação: ele pode ser escolhido por nós, livremente, se soubermos exercer nossa liberdade, que cresce à medida em que é exercida.

CORE CURRICULUM: O DESEJO DE RENOVAR O FUTURO

Se acreditarmos na criatividade humana guiada não apenas pela tecnologia mas também iluminada pelas dimensões espirituais da pessoa, então com certeza poderemos encarar o futuro com ânimo positivo e dizer com novo significado: graças à simbiose entre as Ciências Exatas e Humanas, o futuro já não é mais a tragédia a que o exclusivismo tecnocrata iria levar.

Os saberes humanos ou são realmente vividos, ou não existem. Não podem apenas ficar guardados em uma biblioteca. Uma ética apenas em livros é ética nenhuma: o que existem são pessoas éticas. São os fatores humanos, é o homem que devemos revitalizar se queremos influir bem na marcha da História. Então sim, poderemos propor um futuro que não é o que era, mas um futuro novo e melhor.

A missão da Universidade é recuperar seu caráter unitário, de modo que contribua – na palavras de S. João Paulo II – para substituir o Progresso pelo Desenvolvimento, isto é, pelo crescimento harmônico de todos os homens, e do Homem todo.

Se a Universidade recuperar a unidade perdida, deixará de ser um pilar rachado, e se tornará uma instituição que , unida à família – onde o homem cresce e se desenvolve- e unida à empresa – onde o homem exerce seu trabalho – formará uma trilogia plenamente capaz de fazer aflorar um novo ideal de sociedade, não utópico, mas real e atuante.

É precisa, pois, a integração, a “Religação dos Saberes”, nas palavras de Edgar Morin. Ambos os lados, convencidos pelo bom estudo da Antropologia que não podem viver sem o outro, necessitam reatar os vínculos que o Iluminismo rompeu, e que a modernidade alargou. Se os engenheiros não se integrarem às humanidades, farão muito mal. E se os humanistas persistirem em desprezar a engenharia, ficarão nas nuvens onde muitos deles teimam em vagar. É preciso conseguir a unidade, e é isso que se chama Interdisciplinaridade.

Filósofos e humanistas dialogando e cooperando com empresários e cientistas… Não é nada fácil. São muitos os problemas de compreensão mútua. São muitos os preconceitos, os interesses já estabelecidos, são muitos os pessimistas que alegam “já ter intentado esse diálogo” e que voltaram desanimados às suas trincheiras acadêmicas anteriores, ao constatar que os “do outro lado” sequer falam a mesma língua que eles.

CAMINHOS PARA A RECUPERAÇÃO DA UNIVERSIDADE

A burocratização da Universidade atual se nota no caráter fragmentado, recortado, estático, das disciplinas das faculdades, e também no fato de que o único objetivo dos curso sejam os exames, e não o diálogo. É preciso acabar com a idolatria dos títulos acadêmicos. É preciso criar departamentos interdisciplinares. Como isso não é nada fácil, não se poderá fazer da noite para a manhã. É preciso antes disso criar o clima adequado. E na verdade esse clima seria apenas um: a relação de formação recíproca entre os professores maduros com os professores mais jovens.

A Universidade é antes de tudo uma comunidade. Deve existir entre seus membros a preocupação de formar, não apenas aqueles jovens que irão sair, mas especialmente os jovens que irão ficar. É preciso que exista um “ambiente” que não tem nada a ver com os critérios burocráticos, onde se dialogue, se converse, e se aprenda nessa conversa. Assim era a Academia de Platão, assim era a Universidade Medieval, assim deve ser a Universidade hoje: um Colégio, no sentido profundo e latino da palavra, uma reunião dos mestres com os discípulos que no futuro os irão substituir. Precisamos novamente aprender a ser Universitários.

Como dizia Kierkegaard, quando o espírito realmente se abre, ele o faz para fora. Uma personalidade assim é generosa. Quando se trata de coisas materiais, o que é de um não é de outro. Mas em troca, o saber é efusivo. Só nesse ambiente uma Universidade realmente caminha. Só assim são possíveis os intercâmbios interdisciplinares. Os vazios entre as faculdades se preenchem, há interconexões, que as pessoas aos poucos irão criando. Alejandro Llano ensina que

a interdisciplinaridade é atualmente o caminho aberto para o novo. Resistir a ela equivale a resistir à atualização alegando, por exemplo, o tradicionalismo de uma matéria, ou a importância de um departamento. Esses argumentos se voltam contra quem os formula, porque revelam um enorme imobilismo, que ja é hora de acabar. Os que mais resistiram no passado em passar do sistema de cátedras para a estrutura departamental, se aferram agora aos departamentos como tábua de salvação para não aceitar o esquema de áreas temáticas funcionais, com agrupamentos fluidos e mutáveis ao ritmo da evolução científica ou profissional.

Assim, no final, resulta que a Universidade é uma comunidade de pessoas, não um simples conviver, mas estarem todos de acordo com um mesmo projeto, no qual todos põem seu esforço, e assim se vai adiante. Ser universitário é incrementar o saber. Insisto, se a Universidade tem que cumprir uma função social e tem que fazer isso com galhardia, esse aporte tem que ser interdisciplinar: Ciências do Espírito e Ciências da Natureza sem divórcio, sem separação. O que adquire o espírito universitário não o perde jamais, não pensa que ensinar é repetir as aulas do ano passado, ou que estudar é armazenar conteúdos. Sabe que é algo mais vital, o crescer no saber. Desburocratizar a Universidade é fundamental, porque de outra forma esse clima não se forma.

Lección inaugural de apertura del Curso 2002-2003 (50 aniversario),impartida por el Dr. Alejandro Llano,Ex-Rector y entonces Catedrático deFilosofía de la Universidad de Navarra

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