em Core Curriculum, Universidade

Assumir a própria tradição

Todo ato de compreensão da realidade pressupõe uma determinada tradição de pensamento. Não é possível pensar fora da história. É a tradição que torna possível todo ato de compreensão e juízo. Portanto, não existe verdadeira formação intelectual sem o empenho por conhecer criticamente a própria tradição.

O Core Curriculum da Universidade de Navarra assume como própria a “tradição intelectual cristã ocidental”, com suas raízes hebraicas, gregas e latinas e seu posterior desenvolvimento histórico.

Assumir a própria tradição não significa identificar-se com ela em todos os seus detalhes e em todos os seus extremos. Implica sim em compreender os fundamentos históricos de nosso modo de aprender a realidade. Só então se está em condições de julgar a própria tradição, compará-la com outras, criticá-la ou contribuir para a enriquecer. O Core Curriculum se empenha que o estudante “desenvolva uma consciência histórica que o faça capaz de descobrir e julgar os pressupostos culturais de seu modo de pensar”. Para oferecer oportunidade a esse desenvolvimento, o Core Curriculum apresenta ao aluno:

  • As grandes obras da literatura e do pensamento;
  • As manifestações da arte enquanto revelam a beleza do ser humano, da natureza e de Deus e são fundamento e expressão das grandes questões da existência humana;
  • Os progressos da ciência, na medida em que introduzem os estudantes na visão científica do mundo e nos desafios que essa visão apresenta;
  • As matérias teológicas, antropológicas e éticas que exponham a visão cristã do mundo;
  • As matérias que estudam as relações entre o cristianismo e as ciências particulares.

Se bem que a “questão filosófica” seja inerente a todas os cursos do Core Curriculum, seja qual for o seu conteúdo concreto, parece lógico pensar que essa perspectiva profunda deva informar a docência das matérias propriamente filosóficas e teológicas. Essas disciplinas estudam a realidade em seu conjunto, e dessa maneira devem atuar mais fortemente como fator de integração dos saberes.

Ao mesmo tempo, é urgente que as Faculdades de Teologia e Filosofia repensem seu papel no conjunto da Universidade, de tal maneira que, sem renunciar às descobertas e progressos dos últimos tempos, recuperem sua intrínseca dimensão sapiencial. Só assim serão capazes de iluminar os problemas mais radicais da existência humana, cujo estudo setorial é assumido em outras perspectivas pelos diversos cursos das faculdades.

Visão integradora dos saberes

Outra importante missão do Core Curriculum é fomentar nos estudantes a abertura mental para as outras disciplinas que ele não cursa, mas que fazem parte dos programas da Universidade, e do acervo do conhecimento humano. Na medida do possível, os conteúdos do Core Curriculum irão versar sobre ramos do conhecimento diferentes daqueles específicos que os alunos cursam. Dessa forma, se criam condições para que o aluno adquira uma “visão integradora dos saberes”, que capte a um mesmo tempo a “Unidade da Verdade” e a diversidade de metodologias necessárias para sua apreensão.

Aprender a “pensar fora da caixa”

A adequação dos conteúdos à finalidade do Core Curriculum é necessária, mas não é suficiente. Não basta assegurar que os cursos do Core Curriculum tratem de matérias tradicionalmente ligadas à educação humanística para que o Core Curriculum cumpra a sua função. Lembremos que a finalidade última do Core Curriculum é ensinar os alunos a pensar sobre as questões mais fundamentais da existência humana. Aprender a pensar significa, entre outras coisas, aprender a captar o universal no concreto, o permanente na mudança, os princípios gerais nos casos particulares. Aprender a pensar é também aprender a distinguir, a analisar e sintetizar, a argumentar e concluir. Aprender a pensar é em boa medida aprender a ler. Os textos podem ser muito variados e inclusive se revestir de formas diferentes das literárias, como acontece com as expressões pictóricas ou escultóricas. A formação intelectual que o Core Curriculum promove se traduz nessa capacidade de ir mais além e também mais aquém do texto, para extrair dele todas as suas potencialidades. É somente a partir dessa capacidade de leitura que se pode desenvolver a criatividade que ativa o pensamento humano. Porque o pensamento é criativo: pergunta os porquês e os “para quês”, questiona os pressupostos, discute sobre os enfoques e a pertinência das perguntas. É capaz de ir mais além do dado, de pensar fora do sistema, e dessa maneira renovar a própria tradição. É o “thinking outside the box”, como ficou na moda falar no mundo anglo-saxão.

Essa perspectiva – vale a pena reiterar – deve presidir todo o ensino universitário, e não apenas o Core Curriculum. Entretanto, para que isso se torne uma realidade, é conveniente que alguns cursos busquem esse fim de uma forma mais direta e imediata. O Core Curriculum vai à frente, carregando uma bandeira que deve inspirar o método dos outros cursos. As matérias de que ele trata, mesmo sem a pretensão de formar teólogos, filólogos, historiadores ou teóricos da ciência, de modo algum são superficiais. Elas vão ao essencial de cada problema, e assumem a “complexidade e a grandeza” das questões que tratam.

Desejo da verdade

Na docência e na regência dos cursos do Core Curriculum a abertura à verdade em todas as suas manifestações se concretiza também na capacidade dos professores de atender os desejos de verdade que se aninham no coração dos alunos, e de corresponder às suas perguntas. Essa disponibilidade para a escuta – condição básica de todo diálogo autêntico – é imprescindível para que as aulas contribuam realmente para a formação dos estudantes. Ajudar a crescer, crescendo junto com o aluno Trata-se de um tipo de docência em que o professor percorre o caminho da verdade com os alunos, e segue um processo em que ele mesmo também cresce interiormente. Isso exige por parte de todos uma boa dose de humildade intelectual, mais difícil no caso do professor que nos estudantes. Vemos que nessa formação que o Core Curriculum pretende implementar, nada é mais estapafúrdio que entender a docência como uma mera transmissão de conteúdos enlatados, já cozidos, para que os alunos os engulam sem mediação intelectual.

Docência, e não doutrinação

Por outra parte, é essa abertura sincera à verdade que permite distinguir a docência universitária da mera doutrinação. É quando se assume que a verdade é o critério último da validade que a docência pode se converter em um diálogo autêntico, sem menoscabo da autoridade do professor. E dessa forma o ensino se converte em caminho de desenvolvimento da liberdade intelectual dos estudantes e também do professor.

Projetos, seminários, debates… até mesmo aulas.

Como é lógico, esse posicionamento irá condicionar o método de ensino. Parecem especialmente idôneos para atingir esses objetivos aqueles métodos que permitam um maior envolvimento dos estudantes, como os seminários, as comunicações, os projetos, os cursos de leitura e debate dos grandes livros. As aulas magistrais, entretanto, também podem ter seu lugar desde que sejam realmente “magistrais”, e na medida do possível complementadas com outros métodos.

Professores convictos

Para que o aluno se situe de verdade no centro de seu processo de aprendizagem, é vital que o professor assuma a tarefa que lhe corresponde. O conhecimento atualizado da matéria que ensina é um pressuposto óbvio. Mas a docência em geral, e a do Core Curriculum em particular, exigem também uma série de qualidades humanas e intelectuais que vão muito além do domínio de uma determinada área de conhecimento. O êxito dos cursos do Core Curriculum depende fundamentalmente de que os professores encarregados de os ministrar reúnam algumas qualidades: interesse pelos alunos, paixão pelo ensino, capacidade para sintonizar com as inquietações dos estudantes, humildade intelectual, paciência… e um amplo etc.

Para concluir, um pensamento de Alejandro Llano: O relevante na formação universitária não é “encher a cabeça de dados”. O relevante é “descobrir as chaves que dão sentido aos fatos”. Essa busca de sentido se enraíza na sede de Verdade que se aninha no coração humano. O Core Curriculum busca não apenas aliviar esta sede, mas também a avivar. E para isso trata de dotar os estudantes dessa grande angular capaz de abarcar a realidade em toda sua grandeza e complexidade, de maneira que possam chegar a ser protagonistas de sua própria vida e responsáveis pelo mundo em que vivem.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)

Postagens Recentes

Deixe um Comentário