em Antropologia, Educação

Anotações de um tópico de nosso curso de Filosofia da Educação

A comunicação é hoje um tema de pesquisa em muitas das disciplinas das chamadas Ciências Humanas. Não é, portanto, fora de propósito tratar dela também em uma disciplina pedagógica. Mas as razões para seu estudo em Filosofia da Educação não são meramente circunstanciais: há motivos intrínsecos e próprios para sua consideração, que se poderiam resumir apenas destacando o fato de que a educação é comunicação, mas um tipo de comunicação muito especial: o educador, ao ensinar, se comunica de um modo particular, diferente do informador ou comunicador público, ainda que também se dirija a um grupo humano. A diferença não está no número de receptores de sua ação comunicativa, nem nas condições do canal comunicativo, mas na própria índole da ação. Vamos estudar suas características próprias, e para isso é conveniente iniciar por uma consideração genérica da comunicação humana.

A mais difundida noção da comunicação humana é dizer que ela é intercâmbio de informação. Sem ser falsa, essa definição é reduzida e incompleta, pois depois de uma primeira reflexão, ela provoca mais problemas do que resolve. Por exemplo: O que acarreta uma melhor comunicação: a abundância ou a escassez de informação? Pode haver comunicação mediante um ato intencional de silêncio? Qual é o principal agente: o que possui a informação ou o destinatário dela? Centrar a comunicação na “informação compartilhada” é uma perspectiva fisicista: atende os aspectos materiais, mas despreza os aspectos formais, verdadeiramente definitórios.

Segundo o dicionário, o termo “comunicação” tem um significado complexo, pois como substantivo de ação do verbo “comunicar” oferece nove acepções diferentes: manifestar, conservar, transmitir, consultar ou propagar, entre outras. A referência mais consistente, na medida em que está implícita nas restantes, é a primeira: manifestar, isto é, fazer com que uma pessoa participe do que outra pessoa tem. Este significado revela, por outra parte, o caráter derivado ou secundário da informação, pois tanto se pode participar dela quanto por exemplo, de seu oposto: a ignorância.

Um belo estudo de E. Redondo confirma o núcleo essencial da comunicação segundo sua referência linguística: a participação. Dessa maneira, a comunicação fica definida como a relação real estabelecida entre dois ou mais seres em virtude da qual um deles participa de outro, ou ambos participam entre si. Ou ainda: “relação real estabelecida entre dois seres em virtude da qual se põem em contato, e um deles – ou ambos – doa algo ao outro”: a comunicação não se pode definir sem usar o conceito de participação, o qual expressa esse ter extensivo a outro, que é o constitutivo essencial da comunicação.

Participar é ter parte em algo que outro já tem. Poderia também se caracterizar como “posse compartilhada”, efeito direto de uma doação. Essa é a primeira nota que convém destacar no conceito de participação: a doação, isto é, a ação de um sujeito que dá algo a alguém. Se não houvesse a doação, se a possessão fosse compartilhada “ab initio”, não haveria em rigor comunicação, mas comunidade.

Um segundo momento na consideração da doação mostra outra nota essencial referente à participação: ela é uma doação que não se perde quando se dá, pois senão não seria compartilhada. Redondo esclarece: “Não se pode afirmar que toda doação seja em rigor uma comunicação, mas somente aquela que não suponha empobrecimento por parte do doador. O específico da comunicação é precisamente isto: dar sem se empobrecer”.

Este dar sem se empobrecer também mostra que a verdadeira comunicação é algo plenamente humano, pois só um ser espiritual é capaz disso.

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