em Antropologia, Leornado Polo

A festa é o momento para a celebração da plenitude, onde se toca uma realidade transcendente. A festa tem um caráter de ápice da vida humana. A felicidade humana tem forma e conteúdo de festa. Não pode ser de outra maneira. Neste tópico vamos mostrar as razões dessa afirmação.

A festa tem alguns elementos menores e outros maiores, todos inter-relacionados. Um dos elementos menores da festa é a pausa no trabalho, uma ruptura com o quotidiano. A festa é um tempo diferente, que ocorre apenas de vez em quando. A festa exige suspender a atividade comercial, trabalhista e competitiva para que haja paz. Sem paz e segurança não pode haver festa.

Outro elemento da festa é que ela é um afazer comum, que tem sentido próprio, onde se cria beleza e se desfruta dela juntamente com os outros. Exclui, portanto, a solidão e a mera utilidade. Não é possível uma festa sozinha: a festa é essencialmente comunitária.

Em toda festa há um certo “desperdício”, um certo “gastar a mais” (comida, enfeites, presentes, convites, etc.) A festa é essencialmente uma manifestação de riqueza… existencial. Não se calculam exatamente os gastos. Toda festa é generosa com os bens materiais, porque os usa como presente.

O primeiro dos maiores é a alegria. Festa é alegria, e alegria com motivo. E o motivo da alegria é que na festa alguém possui ou recebe o que ama. Onde o amor se alegra, ali está a festa. A alegria e o motivo da festa é o presente, o dom que se recebe. A festa é o reconhecimento alegre do dom recebido. O mundo se mostra então como bom e sua existência fica plenamente justificada: na festa há uma plenitude de sentido que se transborda, que nos enriquece. É precisamente dessa plenitude do que participamos. A maior felicidade possível apenas é pensável como festa justamente porque apenas nela acontece uma plenitude que se transborda, e que é capaz de cumular-nos. E o mesmo viver humano se torna festivo: “a festa autêntica inunda todas as dimensões da vida humana”, mas nasce sobretudo de uma delas: a religiosa.

A festa é também um tempo sagrado, destinado ao culto. Assim se viveram as festas na humanidade, desde o princípio. Platão chega a afirmar que as festas são de instituição divina. A festa é nesse sentido o reconhecimento da bondade de Deus que criou todas as coisas e ama a todas elas. Quando o homem percebe isso, ele celebra a festa, que é colocar-se na presença da divindade, reconhecer sua obra, e agradecer. Por isso, Nietzsche dizia que a festa litúrgica é a “forma mais festiva de festa”, pois nela se venera a Deus pelo que fez e pelo que é.

Outro elemento maior da festa, depois da Alegria, é a Cerimônia, o elemento real que mostra a razão da festa. O decisivo nas cerimônias festivas é a ação simbólica que reproduz ou realiza a entrega dos bens espirituais de que todos os assistentes da festa participam. Estamos falando, por exemplo, dos cumprimentos e aplausos para o aniversariante, dos desejos de “felicidade”, daqueles pequeninos ou grandes rituais que solenizam a ocasião, e que foram o motivo para ela. A ação simbólica pede um cenário: toda festa te um, maior ou menor, em torno do qual os assistentes se agrupam. O cenário e o desenvolvimento da cerimônia exigem a presença da arte e do símbolo: o enfeite, o canto, a música, a dança.

Como todo o ambiente está embelezado, é preciso que os assistentes se embelezem também, que se transformem, que se enfeitem e disponham para entrar nesse cenário extraordinário: é precisa a “produção pessoal”, o traje de festa, uma limpeza externa e interna, uma elevação de sentimentos.

O encontro direto com as grandes verdades, e essa participação na transcendência que acontecem nas cerimonias religiosas levam a pessoa a sentimentos de elevação e a comoções que depois devem desbordar para uma celebração “menos séria” e complementar: é necessário depois que haja a efusão, a alegria, o banquete, a euforia, o baile, as recordações, as fotos e vídeos, etc.

Depois do que foi dito é fácil perceber que uma festa artificial não é uma festa verdadeira, porque nela falta o dom, o motivo verdadeiro. Quando o homem “fabrica” a festa sem motivo verdadeiro, os assistentes não têm mais remédio que ser “eles próprios o espetáculo festivo”, e a cerimônia, se chega a havê-la, não passa de ser uma mera diversão ou uma imitação da ação simbólica.

Talvez hoje tenhamos substituído as festas pelas férias porque não temos nada que comemorar. Isto é, em boa medida, uma consequência da perda do sentido religioso da vida humana. Sem ele se enfraquece a substância própria da festa. A única maneira de saber rir é levar a sério a transcendência: “a verdadeira festa só aparentemente acontece aqui e agora. Na realidade, ela se dá além do tempo”.

(Anotações de um tópico da aula “O tempo de vida humana”, de nosso Curso de Antropologia Filosófica)

Postagens Recentes

Deixe um Comentário