Alguns educadores, mesmo de aparência jovem e “descolada”, ainda cultivam o preconceito (ou talvez o medo) de educar os alunos não apenas nos conteúdos programáticos que serão cobrados nos exames vestibulares, mas também nas virtudes. Embora tenham preenchido várias vezes planejamentos que traçam objetivos tais como “formar um cidadão crítico, consciente, com personalidade, justo, honesto, autônomo”, etc., ficam no entanto arredios e assustados quando encontram um colega que – sendo coerente com os objetivos propostos – querem explicar a seus alunos as virtudes da justiça, da honestidade, da autonomia, da prudência, da temperança e da fortaleza.
Tais críticos argumentam como uma de suas colegas argumentou durante palestra feita pelo professor João Malheiro em um congresso de educação: “Quer dizer então que você quer voltar a vestir nossas crianças com uma camisa de força, ensinando-lhes a prática das virtudes?”
Além da evidente irritação da pergunta, transparece também o medo. A professora tem boas intenções, gosta de seus alunos, e por isso os teme prejudicar amarrando-as numa “camisa de força” pedagógica. O doutor João Malheiro responde, e nós citamos:
No imaginário coletivo de muitos responsáveis pela educação, o conceito de virtude está associado a traumas, repressão, perda da liberdade e da autenticidade, tristeza, formatação e muitos outros sentimentos que a mistura da psicologia com filosofias modernistas se encarregaram de introduzir em nossa cultura. Por outro lado, nós, educadores atuantes, percebemos, a partir da perspectiva histórica que os anos dão, que ter deixado nossas crianças vestir a “camisa de força das próprias paixões irracionais”, que é o que acontece na prática quando não se educa nas virtudes, foi muito pior e escravizante. Os alunos estão em geral completamente desmotivados, falta-lhes capacidade de vislumbrar ideais mais valiosos, sofrem de desamor e solidão de forma precoce e por isso desrespeitam os demais. Estão imaturos para a idade, não sabem o que fazer com a afetividade desgovernada.
Diante desse contraste, é natural que muitos pais e professores se sintam confusos e inseguros. Por isso acredito que seja conveniente aprofundar em algumas ideias que esclareçam cientificamente como formar adequadamente a juventude de hoje.
A primeira é a seguinte: quem não foi educado nos bons hábitos de escolha (conceito de virtude) só terá uma liberdade aparente. Nossos vícios de preguiça, vaidade, egoísmo nos impedem de ver as coisas como realmente são e fazem com que certos aspectos nos pareçam tão atrativos que prevaleçam sobre outros de maior valor objetivo. Nossa sensação é de que atuamos com liberdade porque conservamos o controle de nossos atos, quando na realidade essa escolha procede de um defeito da liberdade, da incapacidade de ver as coisas em seu valor verdadeiro. Para ser autenticamente livre, o querer da nossa vontade deve proceder de um juízo correto sobre a realidade e se esforçar para que não seja desfigurado pelas próprias paixões.
Para que as escolhas sejam boas, é necessário um critério bem formado e interiorizado. Não basta escolher de forma automática, sem reflexão e de modo involuntário. E é importante recordar a todos os educadores que ninguém pode intervir nas escolhas de seus pupilos. São suas próprias decisões que os formam realmente. E não as escolhas dos outros, por mais que sejam boas – a não ser que os jovens, por um ato livre, as assumam depois. Naturalmente, são importantíssimas as presenças do pai e do professor para informar, iluminar, sugerir, fazer pensar. Mas formar realmente só será possível quando o educando repetir inúmeras vezes na prática o que se aconselha, depois de ter captado racionalmente que vale a pena. Portanto, o verdadeiro aprendizado das virtudes está muito longe da imposição ou da coação. Está próximo de incentivar o próprio esforço.[1]
[1] – MALHEIRO, João. O medo de educar nas virtudes. Gazeta do Povo, 13/03/2011. Em: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?id=1105364 . João Malheiro é Doutor em educação pela UFRJ.