A UNIVERSIDADE NECESSITA DE UMA DESFRAGMENTAÇÃO

 

“Desfragmentar”, em informática, é o manejo pelo qual se acomodam arquivos de dados em áreas contíguas do Disco Rígido. O uso contínuo do computador, escrevendo e reescrevendo arquivos, provoca com o passar do tempo sua “fragmentação”, de tal forma que a informação referente a cada arquivo fica dispersa em diferentes pontos do disco, diminuindo sua eficiência. A solução desse problema é relativamente fácil: há programas que em poucos minutos desfragmentam o disco, restituindo a unidade perdida.

A solução já não é tão fácil e linear quando o que está fragmentado é a sociedade, e dentro dela, a instituição da Universidade. Nem a fragmentação da vida nem a fragmentação do conhecimento têm um processo de reversão realizável de forma tão automática e mecânica.

Já se tornou um lugar-comum dizer que atualmente a Universidade está fragmentada, e que esse fenômeno é o reflexo no âmbito do conhecimento, das profundas alterações pelas quais a sociedade e a cultura passaram durante o último século.

As análises da psicologia social e da sociologia em geral apontam para essas mutações. Nesse sentido, alguns autores, falam de uma “sociedade palimpsesta”, evocando os pergaminhos raspados para nova utilização, e que mostram agora fragmentos do esparsos de conhecimentos diferentes. Outro termo, mais em moda, define nosso tempo como o das “sociedades líquidas”, onde a única faceta permanente é a da mudança. Essas imagens, ainda que talvez exageradas, captam, no entanto, um aspecto muito real e preocupante do mundo atual.

Essa perda de unidade na vida das pessoas e da sociedade também se projeta no âmbito universitário. Há muito que se fala de um processo crescente de compartimentalização do conhecimento, consequência de uma perda da unidade e da hierarquia dos saberes. Essa fragmentação aparece em toda parte: nos programas dos cursos, no isolamento das faculdades, na separação dos Departamentos, na ausência de diálogo entre as disciplinas. Aparece também no apego cego a um único viés metodológico. Aparece ainda no desprezo de toda tradição.

Esse fenômeno já tem quase um século. Já em 1940 o Chanceler da Universidade de Chicago, Robert Hutchins, afirmava em um discurso em Yale:

“Hoje em dia o jovem norte-americano entende apenas acidentalmente a tradição de que é parte e na qual deve viver, porque seus fragmentos dispersos e separados se espalham de um extremo a outro do campus universitário. Nossos graduados universitários têm muito mais informação e muito menor compreensão que na época colonial”.

Sim, os estudantes universitários em 1940 tinham “muita informação”, mas infelizmente muito pouca compreensão. Que diríamos de nossos universitários de hoje? Graças à informática, dispõe de praticamente toda a informação que a humanidade acumulou durante milênios. E o que fazem com ela? Como afirma um grande amigo meu, médico e soberbo cultor da arte e da literatura, “podemos nos comunicar instantaneamente com qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo… mas não temos o que dizer”. Não sabemos processar a informação que nos avassala, e somos esmagados por ela.

É verdade que sob alguns aspectos a fragmentação da ciência é um fenômeno ligado ao desenvolvimento das especializações, e que se poderia alegar que é algo inevitável. Mas este raciocínio é simplista. O problema não está nas especializações, mas na absolutização das visões parciais da realidade, desprezando a visão geral. É uma necessidade do conhecimento humano a busca de explicações compreensivas da realidade. Quando essas explicações são desprezadas e apodadas de “ingênuas” ou “ilusórias”, aparecem outras novas, que mal disfarçam sua pretensão totalizadora e exclusivista.

Outras vozes replicam que a fragmentação dos estudos universitários é consequência da missão da universidade de formar profissionais. Mas essa é outra falácia. A Universidade sempre formou profissionais, desde suas origens. O problema aqui é considerar que a Universidade existe exclusivamente para isso. É alimentar uma visão estreita e utilitarista da Universidade que precisa ser superada.

A desfragmentação da Universidade requer pensar criativamente soluções concretas. Não basta constatar que o problema existe. Tampouco adianta ficar se lamentando e chorando os “bons tempos passados” (que aliás geralmente não foram tão bons assim). É preciso assumir a realidade tal como ela se apresenta, para buscar alternativas viáveis à desorientação de que padece a Universidade nos dias de hoje.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)

A INSTITUIÇÃO UNIVERSITÁRIA

Coleção de ideias de Leonardo Polo Os antecessores da Universidade são as escolas de pensamento da Grécia clássica, como a Academia de Platão, e o Liceu, de Aristóteles. Nelas, a busca da verdade era uma atividade que se justificava por si mesma.

Depois, com o Cristianismo, surgiram as Universidades medievais. Nelas se acrescenta uma nova característica à busca da verdade: o saber cultivado na academia precisa também estar disponível para o progresso, e para a organização da vida social: a Universidade não existe apenas para buscar o conhecimento, mas para servir. É na Idade Média que o Saber começa a influenciar a vida, e a História: começa-se a cogitar de um futuro, que até então era incognoscível. Foi só quando o saber se tornou um dos fatores da dinâmica social que se teve a possibilidade de fazer cogitações sobre o que irá acontecer, pois o futuro pode ser de alguma forma “programado” por esse saber que a sociedade, através da Universidade, incorporou: se racionalizamos a marcha da História, o futuro é cogitável, quase previsível.

É justamente assim que surge a ideia de progresso. Não se trata apenas do cultivo do saber por si mesmo, mas também de encontrar nele uma aplicação de tal natureza que ao impregnar a marcha da História a faça acessível ao cálculo. A História já não é um conjunto de eventos mais ou menos contingentes, como antes se pensava, mas pode ser racionalmente conduzida pelo homem.

Na Ilustração, a influência da Universidade se torna mais significativa nos processos internos da sociedade. Na primeira fase dessa simbiose, as atividades técnicas humanas vão buscar ajuda nova na ciência universitária. Por isso se fomenta o desenvolvimento das Ciências da Natureza, e dessa cooperação nasce um enorme desenvolvimento econômico. De tal forma que se pode dizer que crescimento econômico dos países ocidentais foi a primeira fase da simbiose entre o saber universitário e a dinâmica social.

Mas essa simbiose foi apenas parcial, pois se aproveitou apenas da ciência, e esqueceu, ou desprezou, a outra parte dos saberes produzidos pela Universidade: esse grande conjunto de temas que chamamos de Humanidades, ou – na denominação alemã – Ciências do Espírito.

A Ilustração menosprezou a verdade de que não basta conhecer as Ciências da Natureza, mas é preciso conhecer também o Espírito. Falar do Espírito é tratar de Deus e também daquilo que no homem não é somente a pura natureza material. Como o ênfase utilitário foi dado apenas a um lado, e como o método da cosmologia e das humanidades não é o mesmo, aconteceu que a Universidade se dividiu. Uma parte dos saberes se torna aproveitável no mercado social. A outra, meio hesitante, se torna como que o refúgio de uma série de valores que mesmo sem utilidade prática, ainda são necessários para outro assunto importante, que é a formação dos seres humanos. É a “cultura”, a Bildung, presente em Kant, em Goethe, etc.

De qualquer forma, o importante é constatar que a partir da Ilustração se rompe a estrutura unitária da Universidade. Em sua origem, ela era uma instituição em que todos os saberes tinham correlação entre si: era o Ideal da Árvore dos Saberes, ou Árvore das Ciências, onde se via todo o conhecimento humano hierarquizado em ciências fundamentais, que eram as raízes, outras que sustentavam o tronco, e outras ainda que formavam os ramos, isto é, as diversas especializações do saber.

Esse ideal de manter a unidade da árvore das ciências se vai paulatinamente rompendo, e paralelamente a Universidade vai também perdendo seu caráter unitário.

Foi esse estado de coisas que nós herdamos: a Universidade não é mais Una, e se transformou em Pluridiversidade. Ela perdeu sua unidade exatamente porque o rendimento social dos valores universitários é parcial. Só se aproveita parte desses valores, aquilo que é imediatamente rentável. E não se considera rentável construir a cultura, fazer o homem justo, nem se acredita que isso seja um impulso efetivo para o “progresso”.

Por isso, o próprio progresso se tornou unilateral. Podemos sustentar a tese de que a unilateralidade do progresso moderno corresponde ao desaparecimento da unidade na Universidade, com seu ideal de Árvore das Ciências. O que restou agora foi o divórcio entre as Ciências do Espírito e as Ciências da Natureza.

Diante dessa realidade, qual é agora a missão da Universidade? No meu modo de ver, a missão da Universidade consiste em recuperar sua unidade, isto é, voltar a ser Universidade, coisa que – insisto – progressivamente deixou de ser.

É preciso que a vida social se abra às ciências superiores. Dessa maneira a sociedade não estará dominada por motivações excessivamente materialistas. Não se trata de uma mera declaração de desejo, utópica. É fato demonstrável que a dinâmica social guiada apenas pelas ciências da natureza ou pela tecnologia vai caindo em problemas cada vez mais insolúveis. Para que a Universidade cumpra sua missão diante da sociedade futura é preciso que as Humanidades mostrem sua utilidade social. Acredito que esse é o desafio diante do qual nos encontramos.

Para cumprir esse requisito, a Universidade precisa levar em conta uma série de fatores, alguns inerentes à própria vida universitária, e outros – que poderíamos chamar críticos – que constam em mostrar o déficit de racionalidade social que advém da falta de aproveitamento dos saberes humanísticos para o próprio desenvolvimento da sociedade.

(É preciso) Demonstrar que a Universidade moderna fracassou na construção de um mundo mais humano porque quis cumprir sua função de dirigir a História usando apenas as Ciências da Natureza. Mas esse fracasso era de se esperar. Como dirigir a marcha da História somente com as ciências da natureza? Estamos fazendo uma sociedade sem saber quem somos, e portanto, estamos fazendo uma sociedade sem saber para quem. Pretender dirigir a História com essa ignorância é um disparate.

Se as Ciências do Espírito não entram também em cena, se não acontece essa simbiose, então a sociedade se estropeia, o progresso se torna unilateral e desemboca num conjunto de iniciativas que se contradizem, em uma complexidade ingovernável, como hoje se costuma dizer.

(Acrescentar aqui esta ideia: “Daí a nossa vertente antropológica: vemos a Antropologia como a ciência capaz de unir os dois lados em que a Universidade se fragmentou. A Antropologia é o saber capaz de devolver à Universidade o seu devido esplendor, é o nervo que tornará a Universidade aquilo que ela é )

Os homens traçam idealmente uma série de objetivos, de futuros conjeturáveis (por exemplo, a construção de uma ordem internacional durável e justa), que são impossíveis de alcançar apenas com as Ciências da Natureza, mas que exigem também as Ciências do Espírito. E convém acrescentar a isso a pesquisa da essência da realidade, a que chamamos de Filosofia.

Se conseguirmos isso, poderemos dizer com verdade e otimismo a frase de Paul Valéry que se repete hoje com cargas de pessimismo e apreensão: “O futuro já não é o que era”. Em rigor, encontramo-nos em uma situação tal que se continuarmos dirigindo a sociedade com critérios tecnológicos, toda essa política acabará em catástrofe. Mas o futuro é passível de renovação: ele pode ser escolhido por nós, livremente, se soubermos exercer nossa liberdade, que cresce à medida em que é exercida.

CORE CURRICULUM: O DESEJO DE RENOVAR O FUTURO

Se acreditarmos na criatividade humana guiada não apenas pela tecnologia mas também iluminada pelas dimensões espirituais da pessoa, então com certeza poderemos encarar o futuro com ânimo positivo e dizer com novo significado: graças à simbiose entre as Ciências Exatas e Humanas, o futuro já não é mais a tragédia a que o exclusivismo tecnocrata iria levar.

Os saberes humanos ou são realmente vividos, ou não existem. Não podem apenas ficar guardados em uma biblioteca. Uma ética apenas em livros é ética nenhuma: o que existem são pessoas éticas. São os fatores humanos, é o homem que devemos revitalizar se queremos influir bem na marcha da História. Então sim, poderemos propor um futuro que não é o que era, mas um futuro novo e melhor.

A missão da Universidade é recuperar seu caráter unitário, de modo que contribua – na palavras de S. João Paulo II – para substituir o Progresso pelo Desenvolvimento, isto é, pelo crescimento harmônico de todos os homens, e do Homem todo.

Se a Universidade recuperar a unidade perdida, deixará de ser um pilar rachado, e se tornará uma instituição que , unida à família – onde o homem cresce e se desenvolve- e unida à empresa – onde o homem exerce seu trabalho – formará uma trilogia plenamente capaz de fazer aflorar um novo ideal de sociedade, não utópico, mas real e atuante.

É precisa, pois, a integração, a “Religação dos Saberes”, nas palavras de Edgar Morin. Ambos os lados, convencidos pelo bom estudo da Antropologia que não podem viver sem o outro, necessitam reatar os vínculos que o Iluminismo rompeu, e que a modernidade alargou. Se os engenheiros não se integrarem às humanidades, farão muito mal. E se os humanistas persistirem em desprezar a engenharia, ficarão nas nuvens onde muitos deles teimam em vagar. É preciso conseguir a unidade, e é isso que se chama Interdisciplinaridade.

Filósofos e humanistas dialogando e cooperando com empresários e cientistas… Não é nada fácil. São muitos os problemas de compreensão mútua. São muitos os preconceitos, os interesses já estabelecidos, são muitos os pessimistas que alegam “já ter intentado esse diálogo” e que voltaram desanimados às suas trincheiras acadêmicas anteriores, ao constatar que os “do outro lado” sequer falam a mesma língua que eles.

CAMINHOS PARA A RECUPERAÇÃO DA UNIVERSIDADE

A burocratização da Universidade atual se nota no caráter fragmentado, recortado, estático, das disciplinas das faculdades, e também no fato de que o único objetivo dos curso sejam os exames, e não o diálogo. É preciso acabar com a idolatria dos títulos acadêmicos. É preciso criar departamentos interdisciplinares. Como isso não é nada fácil, não se poderá fazer da noite para a manhã. É preciso antes disso criar o clima adequado. E na verdade esse clima seria apenas um: a relação de formação recíproca entre os professores maduros com os professores mais jovens.

A Universidade é antes de tudo uma comunidade. Deve existir entre seus membros a preocupação de formar, não apenas aqueles jovens que irão sair, mas especialmente os jovens que irão ficar. É preciso que exista um “ambiente” que não tem nada a ver com os critérios burocráticos, onde se dialogue, se converse, e se aprenda nessa conversa. Assim era a Academia de Platão, assim era a Universidade Medieval, assim deve ser a Universidade hoje: um Colégio, no sentido profundo e latino da palavra, uma reunião dos mestres com os discípulos que no futuro os irão substituir. Precisamos novamente aprender a ser Universitários.

Como dizia Kierkegaard, quando o espírito realmente se abre, ele o faz para fora. Uma personalidade assim é generosa. Quando se trata de coisas materiais, o que é de um não é de outro. Mas em troca, o saber é efusivo. Só nesse ambiente uma Universidade realmente caminha. Só assim são possíveis os intercâmbios interdisciplinares. Os vazios entre as faculdades se preenchem, há interconexões, que as pessoas aos poucos irão criando. Alejandro Llano ensina que

a interdisciplinaridade é atualmente o caminho aberto para o novo. Resistir a ela equivale a resistir à atualização alegando, por exemplo, o tradicionalismo de uma matéria, ou a importância de um departamento. Esses argumentos se voltam contra quem os formula, porque revelam um enorme imobilismo, que ja é hora de acabar. Os que mais resistiram no passado em passar do sistema de cátedras para a estrutura departamental, se aferram agora aos departamentos como tábua de salvação para não aceitar o esquema de áreas temáticas funcionais, com agrupamentos fluidos e mutáveis ao ritmo da evolução científica ou profissional.

Assim, no final, resulta que a Universidade é uma comunidade de pessoas, não um simples conviver, mas estarem todos de acordo com um mesmo projeto, no qual todos põem seu esforço, e assim se vai adiante. Ser universitário é incrementar o saber. Insisto, se a Universidade tem que cumprir uma função social e tem que fazer isso com galhardia, esse aporte tem que ser interdisciplinar: Ciências do Espírito e Ciências da Natureza sem divórcio, sem separação. O que adquire o espírito universitário não o perde jamais, não pensa que ensinar é repetir as aulas do ano passado, ou que estudar é armazenar conteúdos. Sabe que é algo mais vital, o crescer no saber. Desburocratizar a Universidade é fundamental, porque de outra forma esse clima não se forma.

Lección inaugural de apertura del Curso 2002-2003 (50 aniversario),impartida por el Dr. Alejandro Llano,Ex-Rector y entonces Catedrático deFilosofía de la Universidad de Navarra

O PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

Uma forma de pensar sobre  o perfil do professor universitário é considerar a universidade como uma empresa.  Nas empresas se costuma distinguir dois tipos de pessoas: o staff e a linha. As pessoas do staff são as de administração. As da linha são as que intervém diretamente no produto que a empresa oferece.

Vamos agora nos perguntar qual é o produto da universidade, e quem faz parte da linha que elabora esse produto. Sem rodeios, respondemos: na Universidade a linha elaboradora do produto é o professorado. Simplesmente assim, e ponto final.

De nada adianta contar com grandes e bem dotadas instalações se não se pôr em primeiro plano a atividade do produtor. E o produtor de uma Universidade é exclusivamente o professor.  A primeira consequência disso é que o professor, falando no singular, é a dimensão da Universidade que mais deve estar integrada a ela.  São os professores as pessoas que mais devem fazer sua a universidade.

Por isso, não é professor universitário o “paraquedista”, que aparece de vez em quando, e cujo interesse principal é outro.  A profissão de professor universitário é incompatível com o caráter eventual ou secundário, exatamente por causa da importância radical que tem. Ser professor universitário é um modo de ser, e cria caráter.  Se se apaga esse caráter, então a universidade mingua, e sua existência é apenas nominal.

Repetindo a pergunta: qual é o produto da Universidade? Qual o bem que a Universidade aporta à Humanidade, e à sociedade em geral?  A resposta é taxativa: o que a Universidade aporta à sociedade é o Saber Superior.

Corresponde à Universidade do desenvolvimento do saber superior, e é bom que não haja confusões a esse respeito. Em muitos lugares a universidade é entendida apenas como um “terceiro nível de ensino”, uma continuação do nivel básico e do Ensino Médio.  Mas isso não deve ser assim. Não se trata apenas de uma questão de “hierarquia”, é algo muito mais sério.

Esse cultivo do saber é uma característica da Cultura Ocidental. Ele está inexoravelmente aberto ao futuro, e precisa crescer.  Não é verdade que um professor universitário funcione apenas como um administrador, e um repartidor do saber adquirido.  Não é verdade que  ele seja apenas um terceiro nível de ensino.

Formar os alunos é certamente um produto da universidade, mas não é o seu fim primário. Se a universidade ficar apenas nisso, ela fica aquém do que é. Sim, é certo que o saber também entra na corrente social, e pode ser um fator a mais para que a sociedade funcione bem. Isso é bom, mas não é o primeiro produto da Universidade, que será sempre o cultivo do saber superior.

E o que se pode fazer com o poder superior? O primeiro que se deve fazer é incrementá-lo, e depois, e apenas em segundo lugar, o divulgar. E é aqui que entram os alunos.

Evidentemente, formar pessoas, comunicar-lhes o que se sabe, é muito importante para a sociedade, mas ainda assim não é o principal. Se uma parte da tradição universitária vai para a sociedade, a outra parte da produção universitária vai para a história. E esse é a parte mais importante. Quando se vêm as coisas desse modo, o professor universitário se dá conta de onde se meteu, e em que apostou sua vida.

O que caracteriza as pessoas que estudam na Universidade e depois saem dela para exercer sua profissão, é que o saber adquirido fica sendo a base consolidade de sua atividade, que ele irá complementar com a prática.  Mas o professor universitário nunca pode dizer “agora já sei, e só transmito o que aprendí”. Não. Ser professor universitário não é o mesmo que ser advogado ou médico na clínica. E não é o mesmo porque sua relação como o desenvolvimento do saber é diferente. O professor universitário se dedica a estar na ponta do saber, e só comsegue isso  – e ainda assim apenas em parte – estudando sem parar, estudando até morrer.

Isso é que é um professor universitário. Ele é membro de uma instituição característica do Ocidente, que se justifica e existe por isto, pela importancia que dá ao saber superior, ao desenvolvimento do saber.

E como se pode definir o saber superior? O saber superior é a plenitude de conhecimentos na situação mais alta que a humanidade adquiriu em um momento histórico.  É evidente,  por exemplo,  que o saber superior no que diz respeito à Física era diferente nos tempos de Aristóteles e nos tempos atuais.

E que se pode acrescentar a esse saber? Já é muito que não seja esquecido, e que não decaia. Apenas isso já pede um grande esforço. Não se trata de ser original, não se trata de conseguir o Premio Nobel, mas tampouco se trata de se conformar com o último nível.

É preciso estar na trincheira, não há outro modo. E qual é a trincheira? Cada um tem que saber qual é a sua, pois ela muda com a idade, ela está onde o universitário pesquisa a partir de todos os conhecimentos anteriores acumulados, e trata de ir mais longe, ou pelo menos tenta. E depois transmite seu saber aos demais universitários, e não apenas aos alunos que irão embora.

Considerações a partir de: POLO, Leonardo. “O professor universitário”. Conferência a professores da Universidade de Piura, Agosto de 1993,

DIMENSÃO POÉTICA E RETÓRICA DO ENSINO

A linguagem é a capacidade e o produto que melhor mostra o ser humano, tanto em sua essência atemporal quanto em seu existir histórico. É o meio essencial para o ensino e uma finalidade radical para a formação humana. No ensino formal todo docente precisa ser um mestre no uso da linguagem.

A linguagem educativa se desdobra em muitas funções linguísticas. E a primeira não é a denotativa, mas a conotativa.  Acreditar que a mera declaração do saber, a mera explicação de um conteúdo é suficiente para a formação humana, é estar eivado desse racionalismo moderno que costuma ignorar – entre outras coisas – o valor da afetividade como motor da ação pessoal e portanto como instrumento de formação.

A compreensão intelectual da verdade não é causa próxima nem direta da ação humana: não é porque o homem sabe o que ou como são as coisas que surge nele espontaneamente a disposição de agir.  É preciso mais: é preciso que o ensino estimule o aluno de tal forma que ele se veja afetado em sua vida pessoal. É preciso que ele possa, no sentido mais real do termo, “apreender.  Para conseguir isso a linguagem não pode ficar na função enunciativa. Isso não seria educar, mas – no máximo – instruir.

O mestre é o intermediário entre a realidade e o discípulo. Seu discurso não pode ser apenas lógico, mas também retórico e poético, já que o silogismo lógico não leva à ação, e, portanto, é insuficiente e ineficaz para a formação humana. Um discurso enunciativo ou “científico” pede o assentimento lógico do ouvinte à verdade teórica declarada, e nada mais. Um discurso poético e retórico busca a persuasão, ou seja, o assentimento intelectual, mas também e sobretudo a adesão da vontade à verdade prática que está sugerindo.  E isso se realiza de um duplo modo: excitando a afetividade mediante a dimensão da beleza do discurso poético por uma parte, e também mostrando a verdade, não apenas enquanto tal, mas também como verossímil, isto é, como semelhante e próxima a outras verdades conhecida e vividas pelo aprendiz.

Naturalmente, falar da dimensão poética do discurso docente não significa expressamente que as lições devam estar em verso (ainda que esse também seja um bom e antigo recurso).  Aqui, por dimensão poética entendemos a elaboração de um discurso que, sem perdem nunca a primordial referência à verdade teórica que expõe, atenda também à própria beleza da verdade, na medida em que verdade e beleza não transcendentais do ser.  Trata-se simplesmente de mostrar o “splendor veritatis”, o resplendor do ser na verdade.

A persuasão retórica se fundamenta na experiência de ação do ouvinte, apresentando a verdade de modos que se possam estabelecer relações lógicas fáceis e acessíveis com outras verdades conhecidas.  Dessa forma a verdade é realmente aprendida: não é vista apenas como possível, mas como exequível e realizável.  Assim ocorre, por exemplo, com o recurso retórico da metáfora, forma poética da analogia lógica: ao apresentar algo desconhecido tal como é, se expõe uma nova verdade lógica, mas ao relatá-lo como se fosse outra coisa já conhecida e vivida por quem aprende, se sugere também uma verdade prática que pode incidir diretamente na tendência humana, apelando para a vontade, e co-movendo a afetividade. Isso também acontece de modo parecido com os demais recursos retóricos.

A última razão de ser das dimensões poéticas e retóricas do ensino está na conveniência de relacionar a instrução com a experiência.  A necessidade de aprender a partir do já conhecido é uma afirmação intemporal, fruto do senso comum mais elementar.  Isso justifica o uso dos exemplos no ensino como apoio decisivo para a aprendizagem.  Um exemplo é um caso isolado, mas que por sua particularidade de ser “exemplar” apresenta a realização de um enunciado universal em um fato singular. Desse modo se abre a via indutiva do conhecimento, mais apta e eficaz para aprender que a via dedutiva, ainda que não incompatível com ela.  Conjugando habilmente as metáforas com os exemplos, a aprendizagem fica facilitada. Inclusive na própria pesquisa científica, onde o exemplo, sob o nome de “modelo” é um frequente recurso para potencializar o conhecimento.

Anotações de uma aula de nosso curso de Filosofia da Educação, calcada na obra de Francisco Altarejos e Concepción Naval.

TOMÁS DE AQUINO DEFINE EDUCAÇÃO

Não há em toda a obra de S. Tomás de Aquino uma definição formal de educação, que comece com a fórmula “Educar é…”. Entretanto, a maioria dos estudiosos concordam que S. Tomás definiria educar como sendo “a condução e a promoção da prole ao estado perfeito do homem enquanto homem, que é o estado de virtude”.  As diferentes partes desta definição expressam as ideias nucleares sobre a educação como ação humana:

a) – Condução e promoção: A educação não é um processo espontâneo na existência. Se bem que o ser humano possa aprender por si mesmo, quando falamos de educação estamos nos referindo a um processo guiado, no duplo sentido que a definição expressa: suscitado ou promovido por uma parte, e orientado e dirigido por outra. Isso supõe uma intencionalidade consciente de quem educa, e uma certa previsão ou antecipação da finalidade.

b)-  “da prole”: No pensamento tomista a educação é um prolongamento da geração e da nutrição. Essa concepção dos pais como titulares primários da educação não é admitida por todos. Não obstante, expressa em seu sentido profundo um dos postulados indiscutíveis da atualidade: o direito fundamental do ser humano de receber educação, complementar ao direito à subsistência, e ambos essenciais ao direito a uma vida digna.

c)– “ao estado perfeito do homem enquanto homem”: obviamente a educação não outorga a vida ao ser humano, mas busca o imprescindível para que ele tenha uma vida verdadeiramente humana: não lhe dá a vida, mas sim o estado de vida que convém ao ser humano e a sua natureza. Em termos atuais se diria que a educação sustenta a humanização do ser humano, ajudando-o a realizar sua condição pessoal.

d)- “que é o estado de virtude”: esta cláusula expressa a ideia de fim, com uma inequívoca referência ética. Compreensivelmente é a mais discutida na atualidade, pois a finalidade manifesta operativamente o conceito ou ideia de homem subjacente a toda educação, e o terreno antropológico está juncado de controvérsias a esse respeito.

A definição de Tomás de Aquino, em sua literalidade, tem hoje uma vigência reduzida. Entretanto o núcleo de sua concepção se mantém firme, expressando a essência da ação educativa.

ALTAREJOS, Francisco, e NAVAL, Concepción. Filosofia de la Educación. EUNSA, Pamplona, 2004, p. 25.

“FREI TOMÁS, O PROFESSOR DA SALA CINCO”

Como se comportaria em sala de aula um professor do porte de São Tomás de Aquino?  Paul Wadel, em seu livro “A primazia do amor – Uma introdução à ética de S. Tomás de Aquino”, nos dá uma indicação:

“Se considerarmos a situação de uma aula como uma conversação, pode nos servir esta reflexão de Wadel sobre a experiência de Tomás de Aquino durante as aulas, seguindo a análise que faz Joseph Pieper em seu Guia para Tomás de Aquino:

“Sua genialidade com docente estava em sua capacidade de comunicar realmente bem o que sabia, e podia fazer isso, porque se lembrava de como era aprender algo pela primeira vez. Pieper explica:

“Em minha opinião, é precisamente isso que caracteriza o docente: possui a arte de abordar o tema a partir do ponto de vista do principiante; é capaz de entrar na situação psicológica da pessoa que se encontra com um conteúdo programático pela primeira vez”.

Tomás possuía esse dom. Sua devoção por seus alunos foi tal que podia pôr-se em sua situação recordando o assombro, o medo, a confusão e o respeito que sente uma pessoa quando tem que aprender algo pela primeira vez.  Seu dom como docente consistia em sentir o que sentia o aluno. Por isso, sabia exatamente como explicar a matéria. Pieper escreve: “O docente, na medida em que pode se identificar com o principiante, compartilha algo que, no curso normal da natureza, se nega ao homem maduro: vê a realidade da mesma maneira que a vê o principiante, com a inocência do primeiro encontro. Mas, ao mesmo tempo, com a perspectiva de compreensão e penetração que possui a mente culta. Tomás possuía este dom em abundância”.

 (Paul J. Wadell, La primacía del amor: una introducción a la ética de Tomás de Aquino (Madrid: Palabra, 2014), 43-44).