O RITMO DO TEMPO

Anotações de um tópico da aula “O tempo de vida humana”, de nosso curso de Antropologia Filosófica.

O tempo de todos os seres vivos está fortemente relacionado com os astros, e com a natureza: há um “tempo de nascer” análogo à Primavera; e um “tempo de morrer” paralelo ao Inverno. A noite é o tempo de dormir, e a manhã é o momento do despertar.

Há uma harmonia entre a natureza e o ritmo de vida do homem e dos animais. Esse ritmo não diz apenas respeito ao corpo, mas também se relaciona com os sentimentos: os dias nublados nos deprimem, o crepúsculo induz à melancolia, o ar puro e o mar nos descansam a alma, etc. Durante milênios o homem viveu como que “embalado” pelo ritmo do tempo natural.

Atualmente o modo ordinário de vida se distanciou muito desse convívio com a natureza. O homem moderno quer se assenhorear do tempo, e a maneira que ele tem para fazer isso é a velocidade, isto é, a redução do tempo natural dos processos. A velocidade é uma ganância do tempo com o uso da técnica. Essa “mania” de vencer o tempo gera uma patologia – uma doença – chamada pressa. O homem moderno é um homem com pressa. A velocidade é o único prazer inventado pelo homem moderno. Seu grande perigo é que ela altera os ritmos naturais. Isso se vê na tirania do relógio, uma forma de dividir o tempo para o aproveitar melhor.

Um axioma básico no mundo atual é que o tempo é um bem escasso: fazer mais coisas em menos tempo é uma das grandes necessidades. A competitividade na vida econômica consiste não tanto em vencer o adversário, mas em chegar antes dele.

Queremos “ganhar tempo” até mesmo quando isso não é necessário. A vivência da velocidade se dá no campo do ócio, do lúdico e do esporte, onde aparece a mania de quebrar recordes. No campo do trabalho a mania de velocidade leva à atividade febril, ao estabelecimento de metas absurdas, a agendas lotadas, a tensões de todo tipo. As pessoas não são julgadas pelo que são, mas pelo que fazem.

É óbvio que essa forma de cultura da produtividade instrumentaliza o homem. Mas há mais e pior: essa pressa e pressão por velocidade altera os ritmos humanos naturais. Essa alteração tem duas manifestações principais: de um lado o “doping”, isto é, o aumento artificial da capacidade de rendimento físico, mental e psicológico por meio de estimulantes; e de outro lado o estresse, o esgotamento nervoso, que se combatem com calmantes. Somos a sociedade da pressa: o normal é estar correndo, sem se deter para contemplar a beleza do que foi feito, porque temos que correr para fazer mais.

Será isso realmente necessário e condizente com a natureza humana? Uma via diferente dessa, e muito mais concorde com a natureza e o ritmo humanos poderia seguir os seguintes parâmetros:

  1. Redescobrir a lentidão. Abolir a pressa, ser donos do tempo e da situação, viver com serenidade, sem sobressaltos, não fazendo-se escravos dos horários, nem dos resultados, nem da planificação. As grandes obras e os grandes gozos não se saboreiam correndo.
  2. Incrementar as experiências pessoais: A tranquilidade supõe um enriquecimento da pessoa e de sua interioridade. Somos os verdadeiros donos de nossas obras, e para as criar, contemplar, aperfeiçoar e manifestar necessitamos dessa tranquilidade e do tempo.
  3. Praticar a contemplação: Apenas quem abandona seus interesses imediatos é capaz de contemplar: “Não é correndo, não é no tumulto das pessoas e na pressa de cem coisas atropeladas que se conhece a beleza”. A solidão, o silêncio, o repouso, são necessários para todo nascimento, e se alguma vez um pensamento ou um trabalho de arte surgem como um relâmpago, é que houve antes uma longa incubação de morosidade”. Em um mundo que perdeu a paciência, há que aprender a esperar.

O HOMEM NÃO VIVE APENAS DE CAVIAR

Tradução livre, acrescida de comentários pertinentes e impertinentes, de uma página de “A vida lograda” de Alejandro Llano.

Ninguém pediu para nascer. Os existencialistas de 30 ou 40 anos atrás pensavam que isso de viver era uma espécie de maldição: ser jogado na existência, estar no mundo sem essa nem mais aquela… Os humanistas, ao contrário, entendem que a existência é um dom: o presente do próprio ser. De qualquer forma, eu recebi a vida, mas não a recebi completa e acabada. Tenho que construir, complementar, levar a termo minha própria vida, e o drama que tenho enquanto pessoa é que nesse empreendimento eu posso ter sucesso, ou posso fracassar. Recebi gratuitamente o dom da vida, mas dependerá de mim que ela seja um sucesso ou um fracasso.

– Então, qual é o meio que tenho para chegar a viver bem? Como posso edificar minha vida ou, pelo contrário como a posso arruinar?

– O meio principal é a ação. Ao atuar, você está jogando sua vida. A chave do êxito de tua existência consiste fundamentalmente em agir bem. É aí, em tuas ações, que você está construindo tua vida.

– Mas o que acontece se eu não tenho vontade de arriscar? Não posso apenas deixar a vida passar, abstendo-me de agir?

– Não, você não pode. Sempre estará arriscando, inclusive quando não quiser entrar no jogo. Você estará então escolhendo ser espectador, mas nem por isso deixa de tomar parte no drama. Queira ou não queira, você tem que decidir, você não pode deixar de arriscar.

Mas não é qualquer tipo de ação que tem a mesma importância vital. A espécie de ação que verdadeiramente conta para a edificação da própria vida não é a produção, mas a operação. Vamos entender os significados distintos dessas palavras, pois isso é realmente fundamental.

O importante não está nas coisas que produzo exteriormente – uma casa, uma viagem, um livro – mas no que faço com minha própria vida e com a vida dos que me cercam: como me porto com eles e comigo mesmo. A chave está nos bens humanos, nas virtudes que realizo (torno reais) e integro, e não tanto nas coisas materiais que procuro fabricar e possuir.

Aplicando: Na educação, o importante não é aquilo que faço, mas como me completo e me transformo fazendo.

O fim da produção está sempre fora de mim. É uma atividade processual, é um método, que implica em um certo movimento, movimento esse que acaba quando atinjo o fim proposto. Pela produção eu não tenho a pretensão de me realizar, mas apenas de realizar outra coisa, por exemplo reconfigurar meu laptop que entrou em sua típica fase caótica. A produção implica em um processo e em um resultado.


  1.  Santo Agostinho: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.

Aplicando:Os propalados “sistemas” de ensino que vigoram em muitas escola, se forem muito bem aplicados poderão no máximo atingir um fim concreto e externo, como adquirir uma série de informações que me permitirão passar em determinada prova. Não me realizo com isso. Produzo algo externo a mim, e só.

A Operação, ao contrário, tem um fim que permanece em mim enquanto agente. É uma ação que afeta meu modo de ser. Não faço nada com ela, a não ser fazer a mim mesmo como, por exemplo, quando digo a verdade em um ambiente onde é perigoso a dizer. Se disser a verdade, me torno sincero; se mentir me transformo em mentiroso. Isto é: a operação não apenas atua “para fora”, mas me vai configurando a mim mesmo (como alguém sincero, ou como alguém mentiroso). Algo semelhante acontece com o comportamento ético, com o qual não se procura produzir nada externo, mas sim atingir um bem humano que me faça melhor a mim mesmo e aos que me rodeiam.

– Mas reconfigurar o laptop é útil, serve para algo. Dizer a verdade, pelo contrário, não serve para nada, a não ser para me antipatizar com os outros…

– Esta é a chave. Dizer a verdade não é um meio para um fim: é o próprio fim. Não serve para outra coisa, exatamente porque é uma ação que tem o fim em si mesma. Não é necessariamente algo “útil”, é simplesmente algo bom. E justamente por causa disso é relevante para orientar minha vida para seu próprio florescimento. Enquanto que reconfigurar meu laptop é muito útil para continuar escrevendo este artigo, mas pouco importa para atingir o êxito em minha vida.

Ao dizer a verdade não ganhei nada externo e tangível: ganhei a mim mesmo. Não avancei rumo a meu triunfo profissional ou ao meu prestígio social: avancei em direção a mim mesmo.(Avancei em direção a meu ideal de mim mesmo, e que é o verdadeiro objetivo da educação personalizada). Enriqueci de um modo muito mais íntimo e precioso do que se ganhasse o premio da Mega Sena. Não mudei externamente, mas meu interior cresceu de tal forma que estou em condições de atuar melhor na próxima vez. Cresci até atingir e integrar em mim alguns bens que provavelmente permitirão enfrentar com mais acerto as vicissitudes do futuro, e – mais que isso – me assemelhar com Deus naquele aspecto único e pessoal que Deus deseja que eu pareça com Ele.

Passo a passo, à força de operações acertadas, vou me completando, ainda que às vezes dê a muitos a impressão de estar deixando de aproveitar oportunidades valiosas. É um tipo de trabalho de uma altura muitíssimo maior. Não se tratam de lentilhas, mas de caviar. Ainda que as lentilhas, bem preparadas, sejam boas. E ainda que o homem não viva apenas de caviar.

DESVIOS E REDUCIONISMOS NO ENTENDIMENTO DA LIBERDADE

Sendo a liberdade uma dimensão radical da natureza humana, imbricada intimamente com sua essência, não é de espantar que ela seja frequentemente considerada apenas de maneira parcial, enfocando-se um de seus aspectos, e propondo-se esse aspecto de maneira exclusa em detrimento dos outros. A liberdade é objeto de reducionismos pela sua fecunda complexidade, que a razão não consegue abarcar satisfatoriamente. Assim, apresenta um flanco aberto a um dos mais frequentes e fáceis enganos da inteligência: o que consiste em tomar a parte pelo todo.

O primeiro erro na compreensão da liberdade, fonte de outros equívocos, é afirmala como absoluta, tomando-a como o todo da condição humana, sendo que é uma parte. Ela é então considerada como o fim último da existência, ainda acima da felicidade. Essa é a concepção de Rousseau, destacado inspirador do pensamento político, social e pedagógico da modernidade, para quem a finalidade da existência humana é a plenitude da liberdade. Esta passa a ser compreendida como independência absoluta, como ausência total de vínculos e débitos subjetivos. O homem natural é precisamente aquele que não deve nada a ninguém, desligado de qualquer obrigação que não se tenha ele mesmo imposto a si mesmo. Esta visão será retomada por Kant, que a irá expressar como autonomia moral, marcando o tom do pensamento que irá conformar muitas propostas pedagógicas da modernidade. Segundo ambos, Rousseau e Kant, pode-se dizer que a dignidade humana reclama uma liberdade absoluta, e que o homem será tanto mais humano quanto possa outorgar a si mesmo as leis que regem sua conduta moral.

Essa posição não leva em conta o caráter relativo da liberdade, fruto de finitude humana: sendo o homem um ser limitado, sua liberdade será limitada também.

Os limites mais imediatos da liberdade dimanam da condição física da natureza humana. O corpo é a primeira fonte de limitações para a liberdade pessoal, que deve se cernir, por exemplo, ao nosso metabolismo. Outro limite da liberdade é o fato de que o homem esta “situado”, isto é, tem que contar com a presença dos demais homens: a ação livre de um homem tem como referente outra ação livre alheia, com a qual se deve conjugar. Isso é essencial entender na educação: o ensino, atividade deliberada e livre do docente, reclama a ação formativa – radicalmente livre – do aprendiz. Sem a concorrência de ambas liberdades a educação é impossível.

Por outra parte, a liberdade é também defectível: ela pode errar em sua realização, e inclusive pode se autodestruir, através do erro: pelo uso errado da liberdade o homem pode perde-la e se tornar escravo (por exemplo, de um vício).

Então, a liberdade é a sementeira da excelência humana, mas é também um encargo para o ser que a deve realizar. A pretensão exaltada de que ela é absoluta, unida à consciência vivida de que é falível leva o homem a outro desvio: negar a existência da liberdade, e a relegar ao terreno das fábulas ou ilusões. É o que fizeram ao longo da história filósofos de várias tendências, tais como Spinoza, Shopenhauer e Nietzsche. Para eles a liberdade é ilusória: o homem acredita ser livre, quando na realidade está sujeito a determinações cósmicas das quais não pode escapar. Os mais pessimistas, como Jaspers e J. P. Sartre afirmarão que a ideia de liberdade, mais que ilusão, é uma carga esmagadora que oprime o homem: melhor seria não ser livre, e afastar essa exorbitante responsabilidade que supera em muito a capacidade humana.

Outra via de negação da liberdade é a entender como espontaneidade. Esse falso entendimento irá gerar em nossos dias as “pedagogias da libertação”. O postulado implícito e esse erro é a bondade natural e originária do ser humano, como afirma Rousseau. O mal seria contradizer essa origem, essa natureza intrinsecamente boa. Para escapar desse mal, o homem não teria outro caminho senão retornar à sua origem, buscando o “homem naturalmente bom” que poderia ter sido. Essa “volta à origem” não é vista como um retrocesso histórico e cultural, mas como um avanço até um futuro possível, onde o homem pode dominar a si mesmo pela fidelidade à sua natureza naturalmente boa. O natural se manifestaria no autenticamente espontâneo. A liberdade seria assim a libertação, superação e anulação de todas as constrições externas, principalmente a liberação dos impedimentos impostos pelo relacionamento social através de suas instituições que regulam a vida comum, tais como o Estado, a Universidade, a Igreja, e até mesmo a Família.

A LIBERDADE POSSÍVEL: SERÁ QUE A LIBERDADE EXISTE MESMO?

Este texto recolhe uma intervenção do filósofo Leonardo Polo em um colóquio organizado por alunos da Universidade de Navarra

Nosso tema é a liberdade. Vou abordá-lo iniciando com duas perguntas, e me fingindo de pessimista ao responde-las. Primeira: “O homem é livre?” E segunda: “O homem é sempre igualmente livre, conta sempre com a mesma liberdade?” (Pois a liberdade também precisa ser vista “em movimento”: não é simplesmente algo que o home tem, mas algo a respeito do qual ele pode fazer alguma coisa)

Evidentemente a primeira pergunta é radical, e a resposta deve oscilar entre “ou o homem é livre, ou não”. Já a segunda poder parecer menos radical, e no entanto é bem radical também. Porque se respondêssemos a primeira dizendo que o homem é livre, e depois respondêssemos a segunda afirmando que o homem é sempre igualmente livre, então teríamos que a liberdade é uma propriedade humana nativa, que não se desenvolve: todos os homens seriam igualmente livres, e historicamente não se poderia aumentar a liberdade. A liberdade seria uma simples propriedade da vontade, constitutiva como tal, e nada mais. Mas se é constitutiva, ou está, ou não está, e se está, está. Então o interesse pela liberdade desapareceria, ela ficaria fora do progresso. Seria simplesmente uma fonte, e uma fonte constante dos atos humanos. E ao ser uma fonte que não se acrescenta, a consequência seria que o progresso que os atos humanos poderiam alcançar seria um progresso à margem da liberdade. E se é um progresso à margem da liberdade, poderia até mesmo ser um progresso inimigo da liberdade.

Há pessoas que se atrevem a responder positivamente às duas questões, dizendo que sim, o homem é livre, e além disso é crescentemente livre. Eu também acredito nisso, mas como filósofo preciso advertir que há certas dificuldades em responder assim, pois à primeira vista isso não está tão claro. Por isso me faço de pessimista: para mostrar antes os sinais, os muitos fatos que nos levam a uma espécie de desesperança a respeito da resposta afirmativa a essas duas perguntas. Vejamos quais seriam as dificuldades a respeito da primeira questão, se o homem é livre ou não. Do ponto de vista vital, essas dificuldades podem ser chamadas de “atitudes”, “vivências”, sentimentos que atualmente se adotam a respeito da liberdade, a respeito da indagação de se o homem é livre ou não.

A aspiração à liberdade

Podemos perceber em toda a humanidade atual algo que poderíamos chamar “aspiração à liberdade”: todos querem ser mais livres, ou melhor dizendo, todos querem ser livres. Toma-se a liberdade como uma meta: algo que ainda não se tem, mas que se deseja. E isso já é uma dificuldade a respeito da primeira questão, pois se aspiramos a uma liberdade, estamos afirmando que não a temos. Quem aspira à liberdade reconhece que não a possui. O que realmente acontece no mundo é que não se sabe exatamente o que a liberdade seja, e então se aspira a ela de uma forma muito vaga: Há muitas pessoas que acham que não são livres e desejam sê-lo, mas não sabem exatamente o que significa ser livre. A liberdade se lhes apresenta como um ideal cujo conteúdo e contornos são extremamente imprecisos. Nota-se claramente nos jovens que eles não se consideram livres, mas querem ser. E então se tornam revolucionários, ou coisas assim. Há também minorias que têm uma sensação de não ter liberdade, de estar na escravidão, de que a liberdade é algo que no momento não existe.

Mas, em que consiste essa liberdade? O que se nota em seu valor positivo? Exatamente o que é ser livre? Não se sabe, claro… porque…. como se pode saber? A única forma de saber o que é ser livre, é sendo-o, pois a liberdade não se conhece como se poderia conhecer um outro objeto qualquer. A liberdade nos a conhecemos exercendo-a. Se não se exerce, não se sabe. Portanto, quando surge uma atitude de ânsia pela liberdade, evidentemente ela leva implícita uma percepção extraordinariamente confusa do que seja essa liberdade. Prova disso é que essa aspiração à liberdade normalmente costuma terminar desvanecendo-se, ou termina em algumas situações que nada mais são do que desordem: não são liberdade, mas desordem.

A negação da liberdade

Outros simplesmente negam a liberdade. E por que? Porque quando fizeram a experiência da liberdade, constataram que a liberdade não é um valor tão positivo como parecia, que é um valor muito relativo, e que de certa forma é mesmo um desvalor, ou um anti-valor. Isso é característico, por exemplo, do pensamento existencialista, e também de algumas formas de psicanálise. Alguns existencialistas pensam que estamos condenados a ser livres, e que não temos mais remédio que carregar o fardo de nossa própria existência, no sentido de “termos que nos fazer” (que é o que significaria a liberdade em seu próprio conceito). O homem se tem a si mesmo como tarefa, e portanto tem que carregar seu próprio ser. E esse carregar seu próprio ser, assumindo seu próprio ser em uma ou outra direção, isso seria a liberdade. A liberdade está gravada radicalmente pela própria pessoa, e então em vez de ser uma coisa excelente, alegre, brilhante, é exatamente o contrário: é uma espécie de tarefa necessária, obrigatória, pesada, esgotante, que temos que realizar com nossos próprios e limitados recursos. E ainda por cima temos que fazer isso sozinhos. Assim, chega-se a um certo medo da liberdade. Mais que medo, a uma avaliação que não é inteiramente positiva: a liberdade é uma desgraça, seria melhor não ser livre, porque se não a tivéssemos estaríamos isentos dessa tremenda tarefa de nos autoconstruir. Outra atitude concernente à liberdade que também aparece é o que poderíamos chamar de desespero: a liberdade desespera. Não se trata agora de a valorizar negativamente no sentido de que ser livre é uma dureza, mas sim que seria melhor ser como uma formiga, simplesmente seguir o caminho da vida, sem ter que preocupar-se com nada: “Ser livre é preocupar-se, e isso já é algo negativo”.

A liberdade inútil

Mas há ainda uma terceira atitude possível, que pode coexistir com as outras, e pode se mesclar com elas: dizer que a liberdade não serve para nada, que é rotundamente inútil. Não é exatamente dizer que a liberdade é uma desgraça porque me traz obrigação de me auto-realizar, mas sim dizer perguntar se essa tarefa tem algum sentido, ou se tem alguma possibilidade de ser levada a cabo. Em resumo, que a liberdade, além de ser difícil e incômoda, não serve para nada. Isso não ocorre com excessiva intensidade, mas às vezes aparece: “A liberdade serve para que? Que interesse ela tem? Vamos conseguir algo pelo fato de sermos livres? Somo efetivamente livres, mas que o sejamos não significa nada do ponto de vista de realização”. E o homem renuncia a ser livre, não porque a liberdade seja um valor negativo, mas porque não tem significado algum.

Há ainda a tristeza diante da liberdade. Não a anterior, mas um outro matiz: consiste em renunciar à liberdade porque essa aspiração nunca se irá alcançar: “Vamos ficar correndo atrás dela toda a vida, para terminar em um fracasso radical. Talvez não por culpa nossa, mas por outros fatores externos que não podemos controlar. E no final, depois de ter feito um grande trabalho para sermos livres, sucederá que tudo não servirá para nada, e se desvanecerá. E aí vem a morte sorrateira, e tudo se acaba”. É a tristeza diante da liberdade, porque buscamos uma coisa que no final nos escapa.

A liberdade finita

Vejamos agora outra questão. A primeira pergunta “somos ou não somos livres?” pode-se resolver em na segunda, que seria esta: “Se somos livres, quanta liberdade temos?” E, sempre como pessimista, respondemos que “podemos ter uma liberdade maior ou menor, que poderá talvez crescer um pouco ou diminuir um pouco, mas que sempre será finita. Haverá sempre um limite que não se pode superar, e portanto nossa liberdade é uma liberdade determinada, e nada mais”. E o pessimista demonstrará isso mostrando uma série de circunstancias ou dados que coarctam nossa liberdade, e que não podemos superar. Por exemplo: “Somos livres, mas o somos de maneira limitada porque estamos inseridos em uma realidade física que nos rodeia, e que nos limita. Não podemos fazer magia com a realidade física. Ela não obedece à nossa liberdade, é um limite para ela”. Mas a finitude de nossa liberdade não termina aqui: “Em segundo lugar nossa liberdade é uma liberdade encarnada, isto é, além de estarmos postos em um mundo físico que nos envolve, nossa liberdade é a de um ser que não obedece à liberdade em todas as suas dimensões”. Não se trata de que eu queira ser livre com respeito à lei da gravidade, isso não tem sentido, mas dentro de mim, dentro de minha constituição como ser que sou, na realidade que sou, há muitos aspectos, há muitas dimensões que não são livres. Podemos suspeitar que muitíssimas coisas que fazemos não obedecem à nossa liberdade, mas obedecem a um impulso de outro tipo.

Outras limitações

Há ainda uma terceira consideração com respeito à finitude de nossa liberdade: nossa liberdade é sempre uma liberdade situada. E isso quer dizer que nossa liberdade de fato deve ter em conta a liberdade dos demais. Não somente estamos em um mundo que tem suas próprias leis, em respeito das quais nossa liberdade está coarctada, (essas leis não obedecem à liberdade): e não somente ocorre que normalmente temos uma constituição psicofísica que em grande parte tampouco obedece à liberdade. Além disso, desde que nascemos estamos inseridos em um meio social de onde nos vêm uma série de determinações que não podemos saltar: isso é o que poderíamos chamar a situação de nossa liberdade. Nossa liberdade é uma liberdade finita, não somente porque está limitada pelo mundo físico, não somente porque está encarnada, isto é, porque tem a ver com uma constituição psicobiológica, mas também porque está situada, isto é, porque inevitavelmente tem que contar com os demais, e os demais não é que coacionem (o que também pode ocorrer), mas fundamentalmente o que ocorre é que os demais não me deixam passar. Ademais, não é somente isso: muitas das vezes que alguém se acredita operar em plena autoconsciência, em plena possessão dos motivos, em realidade esses motivos vêm dados de fora. Não é preciso ir mais longe que observar o fenômeno da publicidade, ou ao fenômeno social: compro uma coisa livremente, ou foi porque de uma maneira talvez inconsciente fui influenciado por um anuncio na televisão?

E para o cristianismo não são apenas esses os modos de finitude da liberdade, mas há mais. Em primeiro lugar nossa liberdade é uma liberdade decaída: o pecado tem que ver com nossa liberdade de uma forma muito estrita e perfeitamente definida. A maneira como se manifesta a liberdade em sua finitude na forma de queda é – e isso é já um tema muito clássico que Santo Agostinho recolhe, e que Lutero empregará exageradamente – o tema clássico das concupiscências. As concupiscências não são, nesse sentido, as paixões: as paixões teriam que ver mais com o fato de que nossa liberdade é uma liberdade encarnada. A concupiscência se nota fundamentalmente no que poderíamos chamar a ordem das motivações, a impossibilidade de estar seguro de que alguém obra com retidão de intenção completa: existirá inclusive nos atos em que alguém crê que é mais livre, porque é mais livre para o bem. Como saberemos se naqueles atos em que alguém acredita ser mais generoso, ou que tenta ser mais generoso, não existirá um fundo errôneo e que na verdade a pessoa está se buscando a si mesma? Ou mais profundamente: quando nossa liberdade “dispara”, ela o faz de um modo realmente e inteiramente livre, ou é condicionada por qualquer fator que a dirige e sujeita? Existe um egoísmo radical que nos incapacita de fazermos um ato completamente bom, porque nossos atos em algum momento vêm marcados pela liberdade decaída. E como os motivos da concupiscência não são nada claros, isso se torna uma finitude da liberdade, dentro da própria liberdade.

Por último, se pode dizer que nossa liberdade é finita porque é criada. E nesse sentido depende de um princípio radical que não é originalmente próprio, que é Deus.

Recapitulação

Tratamos até agora do aspecto negativo da questão. Depois de ver as atitudes diante da liberdade, destacamos sua finitude radical, que lhe vem do mundo físico, de nossa própria constituição psicobiológica, do fato de que está situada, desse deterioramento interior que é a concupiscência, e por último (por ser criada), da dependência de um ser que a criou, e que portanto a transcende também.

Focamos as coisas do ponto de vista mais pessimista, e tentamos acumular todas as dificuldades que o tema da liberdade abarca. Agora, é preciso dar a volta na questão e vermos como o homem é livre, e como essas dificuldades apresentadas a respeito da liberdade e de seu progresso podem ser resolvidas a partir de uma compreensão de liberdade mais profunda. Veremos que todas essas “experiências” referentes à inexistência da liberdade ou à sua finitude são no fundo vivências, muitas delas inegáveis, mas que não alcançam o fundo da questão. É preciso dizer agora que o assunto da liberdade é muito sério, extraordinariamente importante e radical, e está muito além de todas essas questões. Todas essas vivencias a que me referi são muito contingenciais, e todas elas são motivadas não pela consideração da liberdade, mas por considerações imaginárias segunda as quais alguém quer ser livre.

É isso que precisamos ver: se o homem pode ser livre de qualquer maneira, ou se há certos modos de ser livre, e no final apenas um, do qual todos os outros são derivações mais ou menos intensas.

Porque quando alguém tenta abordar o tema da liberdade de uma maneira caprichosa ou de uma maneira qualquer, não haverá nada de estranho que se encontre com uma visão da liberdade que é uma visão negativa, uma versão triste, uma versão desesperante, uma versão pesarosa, ou inclusive que se chegue a dizer – uma vez que não há mais nada que determinação ou jogo de fatores – que não somos nada mais que marionetes.

O QUE É COMUNICAR

Anotações de um tópico de nosso curso de Filosofia da Educação

A comunicação é hoje um tema de pesquisa em muitas das disciplinas das chamadas Ciências Humanas. Não é, portanto, fora de propósito tratar dela também em uma disciplina pedagógica. Mas as razões para seu estudo em Filosofia da Educação não são meramente circunstanciais: há motivos intrínsecos e próprios para sua consideração, que se poderiam resumir apenas destacando o fato de que a educação é comunicação, mas um tipo de comunicação muito especial: o educador, ao ensinar, se comunica de um modo particular, diferente do informador ou comunicador público, ainda que também se dirija a um grupo humano. A diferença não está no número de receptores de sua ação comunicativa, nem nas condições do canal comunicativo, mas na própria índole da ação. Vamos estudar suas características próprias, e para isso é conveniente iniciar por uma consideração genérica da comunicação humana.

A mais difundida noção da comunicação humana é dizer que ela é intercâmbio de informação. Sem ser falsa, essa definição é reduzida e incompleta, pois depois de uma primeira reflexão, ela provoca mais problemas do que resolve. Por exemplo: O que acarreta uma melhor comunicação: a abundância ou a escassez de informação? Pode haver comunicação mediante um ato intencional de silêncio? Qual é o principal agente: o que possui a informação ou o destinatário dela? Centrar a comunicação na “informação compartilhada” é uma perspectiva fisicista: atende os aspectos materiais, mas despreza os aspectos formais, verdadeiramente definitórios.

Segundo o dicionário, o termo “comunicação” tem um significado complexo, pois como substantivo de ação do verbo “comunicar” oferece nove acepções diferentes: manifestar, conservar, transmitir, consultar ou propagar, entre outras. A referência mais consistente, na medida em que está implícita nas restantes, é a primeira: manifestar, isto é, fazer com que uma pessoa participe do que outra pessoa tem. Este significado revela, por outra parte, o caráter derivado ou secundário da informação, pois tanto se pode participar dela quanto por exemplo, de seu oposto: a ignorância.

Um belo estudo de E. Redondo confirma o núcleo essencial da comunicação segundo sua referência linguística: a participação. Dessa maneira, a comunicação fica definida como a relação real estabelecida entre dois ou mais seres em virtude da qual um deles participa de outro, ou ambos participam entre si. Ou ainda: “relação real estabelecida entre dois seres em virtude da qual se põem em contato, e um deles – ou ambos – doa algo ao outro”: a comunicação não se pode definir sem usar o conceito de participação, o qual expressa esse ter extensivo a outro, que é o constitutivo essencial da comunicação.

Participar é ter parte em algo que outro já tem. Poderia também se caracterizar como “posse compartilhada”, efeito direto de uma doação. Essa é a primeira nota que convém destacar no conceito de participação: a doação, isto é, a ação de um sujeito que dá algo a alguém. Se não houvesse a doação, se a possessão fosse compartilhada “ab initio”, não haveria em rigor comunicação, mas comunidade.

Um segundo momento na consideração da doação mostra outra nota essencial referente à participação: ela é uma doação que não se perde quando se dá, pois senão não seria compartilhada. Redondo esclarece: “Não se pode afirmar que toda doação seja em rigor uma comunicação, mas somente aquela que não suponha empobrecimento por parte do doador. O específico da comunicação é precisamente isto: dar sem se empobrecer”.

Este dar sem se empobrecer também mostra que a verdadeira comunicação é algo plenamente humano, pois só um ser espiritual é capaz disso.

O PROJETO HUMANISTICO DE HARVARD, CHICAGO E COLUMBIA.

Uma das soluções que algumas universidades do mundo buscaram para superar o problema da fragmentação do saber foi oferecer aos alunos uma formação intelectual que tornasse possível a integração dos conhecimentos especializados de cada curso ou faculdade em uma unidade superior. Para isso criaram o chamado “Core Curriculum”, um conjunto de componentes curriculares e de cursos, normalmente de viés humanístico, que fosse comum para todos os estudantes, independentemente da faculdade que cursassem ou da carreira que escolhessem.

O primeiro programa de Core Curriculum foi implantado na Universidade de Columbia, em 1919. Desde seu início estava ligado à ideia de formação humanística, ou melhor dizendo, à perspectiva humanística de educação. Esse movimento se mostrou extraordinariamente fecundo nas universidades norteamericanas até os anos 60, especialmente em Columbia, Chicago e Harvard. Entre os seus principais promotores se destaca a figura Robert Hutchins, que introduziria em Chicago o sistema dos Great Books: leitura, análise e debate de grandes clássicos da literatura universal, de Platão a Shakespeare, passando pelos clássicos norte-americanos.

Em 1945 James Bryant Conant, Reitor de Harvard, sintetizava em poucas linhas o desafio que as universidades deveriam afrontar no período imediatamente posterior à Segunda Guerra: o centro do problema da educação deveria ser a continuidade da tradição humanística. Nem a aquisição de conhecimentos básicos nas ciências físicas e biológicas nem o desenvolvimento das habilidades de escrita e expressão bastariam para preservar a civilização e construir uma nação de cidadãos livres. É necessário mais: que em cada nível educativo, desde o colegial até a universidade, os estudantes entrem em contato com aquelas áreas do saber em que os juízos de valor são primordiais. É imprescindível que o estudante saiba avaliar e empregar as palavras “correto” e “equivocado” tanto em sua dimensão ética quanto matemática. Se não for assim, estará cego para distinguir aquelas ideias e aspirações profundas que atuam como motor interior da vida de tantas pessoas ao longo da história.

Conant acertava ao sublinhar o desafio que a educação superior norteamericana devia enfrentar naqueles anos. Suas palavras não pretendiam desvalorizar os progressos científicos de seu tempo (Ele mesmo era um químico de projeção internacional), nem diminuir a importância da formação nos estudos técnicos e científicos. Mas sublinhava a necessidade de ir mais além do que essa formação oferecia, para atingir níveis de compreensão e de juízo mais profundos. E para isso, a tradição liberal e humanística era insubstituível.

Infelizmente a história posterior da educação universitária norte-americana não seguiu essa linha então delineada por Harvard, Chicago e Columbia, e a corrente da formação humanística decaiu. Entretanto, algumas algumas Universidades e Centros Universitários ainda resistem heroicamente ao ataque do pragmatismo e do mero utilitarismo. Graças ao empenho de alguns professores e ao apoio de antigos alunos, esse empenho educativo continua presente nas três Universidades que o iniciaram, e em prestigiosos “Colleges” como Saint John ou Thomas Aquinas.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)

O TEMPO DA FESTA

A festa é o momento para a celebração da plenitude, onde se toca uma realidade transcendente. A festa tem um caráter de ápice da vida humana. A felicidade humana tem forma e conteúdo de festa. Não pode ser de outra maneira. Neste tópico vamos mostrar as razões dessa afirmação.

A festa tem alguns elementos menores e outros maiores, todos inter-relacionados. Um dos elementos menores da festa é a pausa no trabalho, uma ruptura com o quotidiano. A festa é um tempo diferente, que ocorre apenas de vez em quando. A festa exige suspender a atividade comercial, trabalhista e competitiva para que haja paz. Sem paz e segurança não pode haver festa.

Outro elemento da festa é que ela é um afazer comum, que tem sentido próprio, onde se cria beleza e se desfruta dela juntamente com os outros. Exclui, portanto, a solidão e a mera utilidade. Não é possível uma festa sozinha: a festa é essencialmente comunitária.

Em toda festa há um certo “desperdício”, um certo “gastar a mais” (comida, enfeites, presentes, convites, etc.) A festa é essencialmente uma manifestação de riqueza… existencial. Não se calculam exatamente os gastos. Toda festa é generosa com os bens materiais, porque os usa como presente.

O primeiro dos maiores é a alegria. Festa é alegria, e alegria com motivo. E o motivo da alegria é que na festa alguém possui ou recebe o que ama. Onde o amor se alegra, ali está a festa. A alegria e o motivo da festa é o presente, o dom que se recebe. A festa é o reconhecimento alegre do dom recebido. O mundo se mostra então como bom e sua existência fica plenamente justificada: na festa há uma plenitude de sentido que se transborda, que nos enriquece. É precisamente dessa plenitude do que participamos. A maior felicidade possível apenas é pensável como festa justamente porque apenas nela acontece uma plenitude que se transborda, e que é capaz de cumular-nos. E o mesmo viver humano se torna festivo: “a festa autêntica inunda todas as dimensões da vida humana”, mas nasce sobretudo de uma delas: a religiosa.

A festa é também um tempo sagrado, destinado ao culto. Assim se viveram as festas na humanidade, desde o princípio. Platão chega a afirmar que as festas são de instituição divina. A festa é nesse sentido o reconhecimento da bondade de Deus que criou todas as coisas e ama a todas elas. Quando o homem percebe isso, ele celebra a festa, que é colocar-se na presença da divindade, reconhecer sua obra, e agradecer. Por isso, Nietzsche dizia que a festa litúrgica é a “forma mais festiva de festa”, pois nela se venera a Deus pelo que fez e pelo que é.

Outro elemento maior da festa, depois da Alegria, é a Cerimônia, o elemento real que mostra a razão da festa. O decisivo nas cerimônias festivas é a ação simbólica que reproduz ou realiza a entrega dos bens espirituais de que todos os assistentes da festa participam. Estamos falando, por exemplo, dos cumprimentos e aplausos para o aniversariante, dos desejos de “felicidade”, daqueles pequeninos ou grandes rituais que solenizam a ocasião, e que foram o motivo para ela. A ação simbólica pede um cenário: toda festa te um, maior ou menor, em torno do qual os assistentes se agrupam. O cenário e o desenvolvimento da cerimônia exigem a presença da arte e do símbolo: o enfeite, o canto, a música, a dança.

Como todo o ambiente está embelezado, é preciso que os assistentes se embelezem também, que se transformem, que se enfeitem e disponham para entrar nesse cenário extraordinário: é precisa a “produção pessoal”, o traje de festa, uma limpeza externa e interna, uma elevação de sentimentos.

O encontro direto com as grandes verdades, e essa participação na transcendência que acontecem nas cerimonias religiosas levam a pessoa a sentimentos de elevação e a comoções que depois devem desbordar para uma celebração “menos séria” e complementar: é necessário depois que haja a efusão, a alegria, o banquete, a euforia, o baile, as recordações, as fotos e vídeos, etc.

Depois do que foi dito é fácil perceber que uma festa artificial não é uma festa verdadeira, porque nela falta o dom, o motivo verdadeiro. Quando o homem “fabrica” a festa sem motivo verdadeiro, os assistentes não têm mais remédio que ser “eles próprios o espetáculo festivo”, e a cerimônia, se chega a havê-la, não passa de ser uma mera diversão ou uma imitação da ação simbólica.

Talvez hoje tenhamos substituído as festas pelas férias porque não temos nada que comemorar. Isto é, em boa medida, uma consequência da perda do sentido religioso da vida humana. Sem ele se enfraquece a substância própria da festa. A única maneira de saber rir é levar a sério a transcendência: “a verdadeira festa só aparentemente acontece aqui e agora. Na realidade, ela se dá além do tempo”.

(Anotações de um tópico da aula “O tempo de vida humana”, de nosso Curso de Antropologia Filosófica)

LIBERDADE, ESCOLHA, FORMAÇÃO

A liberdade talvez seja a realidade humana sobre a qual mais se escreve, se fala e se age nos últimos séculos. Efetivamente pode-se considerar a liberdade – da forma como é hoje vivenciada – como um descobrimento da modernidade.

Do ponto de vista pedagógico, a liberdade é considerada sob o aspecto da perfectibilidade humana, como também de sua defectibilidade, pois se o ser humano pode melhorar, pode também piorar: pelo fato de não estar determinado pelos objetos, deve se determinar diante deles, e por isso existe a permanente possibilidade do erro. A otimização do ser humano não vem dada, mas precisa ser realizada no tempo, sempre de modo incompleto, porque o ser humano pode se aperfeiçoar continuamente, ilimitadamente. A essa configuração do ser racional chamamos de liberdade. Ela é o fundamento último da ética, unida ao conceito de fim, entendida como um desenvolvimento livre das tendências naturais do homem. Enquanto a educação é ajuda ao aperfeiçoamento humano, a liberdade é seu embasamento operativo, seu princípio radical de atuação, entendendo aqui “princípio” em seu sentido pleno, como motivo da atuação e culminação da mesma: ou seja, como condição essencial da finalidade educativa. O “obrar feliz” só tem sentido a partir da liberdade como raiz originária da atuação humana. Contemplar é a ação humana eminentemente livre: surge e culmina no sujeito, não existe atuação superior, e é autárquica: mediante a contemplação o homem realiza e manifesta seu domínio sobre si e sobre a realidade que o circunda.

Noção de liberdade

A liberdade define essencialmente a natureza humana: por isso pode ser considerada de múltiplas perspectivas. Em educação, o ponto de vista não pode ser outro que o aperfeiçoamento humano, o que supõe entender a liberdade como suscetível de crescimento. Essa é a perspectiva proposta por Leonardo Polo, cujas ideias guiam estas linhas: não iremos tanto nos perguntar diretamente pela natureza da liberdade, mas sim pelo seu crescimento.

O ponto de partida é a experiência. Não há dúvida de que o ser humano experimenta sua liberdade; é consciente dela pela vivência universal de sua indeterminação operativa, de estar aberto a diversas possibilidades de atuação diante de um mesmo objeto. Aparece assim a escolha como ato primeiro e definidor da liberdade: sou livre porque posso escolher, isto é, porque não estou univocamente determinado a obrar.

Entretanto, a partir da consideração do crescimento da liberdade, o assunto não é tão simples. Pois se posso efetivamente escolher, e esse é um ato próprio da liberdade, o desenvolvimento desta deverá consistir em um crescimento do ato de escolha. Parece que deve ser assim, ao menos a partir da difundida mentalidade que identifica “crescimento” com aumento quantitativo das possibilidades de ação: mais se cresce quando se podem fazer mais coisas. Mas esse discurso se choca com a realidade, pois vemos que o aumento da possibilidade de escolha implica na inibição da ação: escolher entre três ou quatro possibilidades é difícil, mas escolher entre trinta ou quarenta é de fato impossível.

Portanto, o crescimento da liberdade não significa aumento das possibilidades de escolha. Convém apresentar outra possibilidade: o crescimento pode não significar necessária e exclusivamente aumento quantitativo, mas também intensidade qualitativa.

Há ainda outra dificuldade, se possível maior: a realização efetiva da escolha tranca a possibilidade de escolher: ao optar por algo, desaparece a própria possibilidade de escolher. Se se revoga a escolha feita, volta-se a ter a possibilidade de escolher, mas uma vez que a escolha se faz, volta-se à mesma situação. Parece então que o ato de escolher não é o próprio e radical ato de liberdade, ainda que a reflexão imediata sugira isso.

O ato de escolher é a manifestação imediata da liberdade, mas por sua vez é o efeito psicológico de outro ato mais radical, que é o autodeterminar-se em razão do fim. A escolha se refere aos meios, que são tais em relação à finalidade, objeto da autodeterminação pessoal. O animal está determinado quase completamente a partir de seu organismo e suas tendências naturais. Já o ser humano se constitui a partir de uma debilíssima determinação originária, chamada “plasticidade”. Essa leve determinação é a condição de possibilidade da liberdade humana, mas não é sua realização ou cume operativo.

Reduzir a liberdade a uma indeterminação primigênia é causa das contradições assinaladas. Para superar este beco sem saída é preciso considerar a liberdade a partir de seu crescimento. Resulta assim que “a liberdade é efetivamente uma capacidade de autodeterminação. Não é indeterminação, é estar acima das determinações externas. Mas só se pode chegar a estar acima das determinações se efetivamente há em sua conduta algo de inabalável. E esse caráter inabalável tem que estar na própria conduta. A liberdade é essa própria autodeterminação.

Outra manifestação da liberdade humana é a de poder estabelecer relações entre meios e fins. As escolhas se referem aos meios, mas estes se justificam e se escolhem em razão da finalidade a respeito da qual o sujeito se autodetermina. Daí vem a característica essencial à conduta verdadeiramente livre: a constância e continuidade na atuação.

A pessoa realmente livre é aquela que mantém sua autodeterminação originária em todas as escolhas que realiza; estas, sendo diversas em sua materialidade, são idênticas em seu sentido: sua permanente referência ao fim querido, objeto da autodeterminação. Por isso, e contrariamente ao que possa parecer à primeira vista, a conduta da pessoa livre é facilmente previsível, uma vez conhecido o sentido de sua autodeterminação. A pessoa que não é livre continua sempre atada à indeterminação inicial, fazendo escolhas desconexas: agora se decide por algo, e em seguida pelo contrário. Ou não decide nada, escapando a toda responsabilidade, e com isso renunciando à sua plenitude pessoal.

Assim, sua liberdade fica anquilosada, congelada no próprio início de seu desenvolvimento. A frivolidade começa a ser o tom vital de sua ação: na aparência está refletindo sobre os motivos e consequências de seus possíveis ato, mas não atua verdadeiramente, adiando sempre a autodeterminação que o compromete. Parece ter uma liberdade absoluta, mas não consegue agir. Tal é a vivência que existe nos reducionismos da liberdade humana.

CORDIALIDADE ACADÊMICA

Me encantou ler há algum tempo o livro de Ken Bain “What the Best College Teachers Do”. Ainda que o livro esteja centrado na vida acadêmica norteamericana – que é uma realidade bastante diferente da nossa – sua leitura pode ajudar muito aos professores universitários de outros países que queiram aprender com a experiência de seus melhores colegas norte-americanos.

O traço mais característico dos melhores professores universitários é que estão interessados acima de tudo em que seus alunos realmente aprendam, e para conseguir isto estão dispostos a mudar os seus métodos, suas atitudes e tudo o que for preciso. “Buscamos pessoas – explicava Bain no início de seu livro – que verdadeiramente colhem peras do que outros consideram que são olmos, pessoas que ajudam constantemente seus estudantes a chegar mais longe do que os demais esperam”.

Já Plutarco em seu Ars Audiendi advertiu que educar não é encher um vaso, mas mais propriamente acender um fogo. Os melhores professores são sempre acenderores do desejo de aprender de seus alunos. “Os melhores educadores pensam em sua docência como algo capaz de animar e ajudar os estudantes a aprender”. Os bons professores não buscam apenas os resultados na matéria que ensinam, mas para eles a questão decisiva é sempre; “Que podemos fazer na sala de aula para ajudar que os estudantes aprendam fora dela?” Estão realmente interessados no crescimento pessoal dos estudantes e no que podem fazer para os auxiliar nesse processo.

Me chamou a atenção que os melhores professores “tendem a tratar seus alunos com o que simplesmente se poderia qualificar como amabilidade”, “escutam seus alunos”, e “evitam a linguagem das exigências e utilizam em seu lugar o vocabulário das expectativas. Convidam, em lugar de ordenar”. Os melhores professores, no final das contas, são aqueles que amam seus estudantes, querem que cresçam, e põem a serviço desse objetivo toda sua ciência e todo seu empenho. Sem dúvida alguma, a cordialidade é um elemento central para a qualidade de vida acadêmica. Essa cordialidade se irá expressar na colaboração afetuosa de alguns professores com outros, no trabalho em equipe, na aprendizagem cooperativa e em tantos outros aspectos que tornam tão amável a vida universitária e o trato entre professores e alunos.

A penosa imagem da universidade do século XIX, perpassada por disputas sem fim entre professores de diversas tendências ou escolas deve dar lugar, no século XXI, a uma universidade aberta e plural onde o trabalho em equipe, a efetiva colaboração interdepartamental e interdisciplinar seja a tônica dominante e habitual. Trabalhar em colaboração não significa uniformidade, mas supõe amor à liberdade e entusiasmo pelo pluralismo.

Em uma visita à Universidade “Roma Tre”, em fevereiro de 2017, o Papa Francisco, depois de responder a perguntas de quatro estudantes, deixou de lado o discurso que trazia preparado e improvisou algumas palavras. Segundo a crônica de imprensa, Francisco se referiu às chamadas “universidades de elite”, nas quais não se ensina a dialogar, mas se ensinam ideologias: “Te ensinam uma linha ideológica, e te preparam para ser um agente dessa ideologia. Isso não é uma universidade”, explicou o papa. Neste sentido, destacava o papel da universidade para o desenvolvimento de uma cultura do diálogo: “A universidade é o lugar onde se aprende a dialogar, porque dialogar é o próprio da universidade. Uma universidade onde se vai à aula, se escuta o professor e logo se volta para casa, isso não é uma universidade. Na Universidade deve-se desenvolver o artesanato do diálogo”.

Esta afirmação, de tanta raiz na tradição universitária, trouxe à minha memória aquilo de John Henry Newman, em “The Idea of a University”, de que o crescimento pessoal tem que estar enraizado em um espaço comunitário em que o intercâmbio de bens espirituais entre estudantes e professores não só seja possível, mas que seja positivamente promovido. Para Newman, durante os anos universitários é essencial o trato afetuoso e inteligente de professores e alunos, a conversa cordial e a convivência livre entre os estudantes, de forma que possam aprender uns dos outros e assim abram suas mentes em favor da humanidade. Neste mesmo sentido, São Josemaria Escrivá, fundador da Universidade de Navarra, dizia que “é na convivência que a pessoa se forma”.

(Trecho do artigo “Liberdade, verdade, cordialidade: o diálogo como chave da vida universitária”, de Jaime Nubiola, catedrático do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Navarra.)

AS UNIVERSIDADES E OS PERIGOS DA DOCILIDADE

Precisamos de professores e estudantes dóceis: aqueles que não têm medo das perguntas fundamentais e das grandes coisas: aqueles que buscam a verdade

Apesar de seus rankings globais estelares, as universidades americanas estão cercadas por um clima dominante de ansiedade. Para aqueles que estudam, ensinam ou trabalham na universidade, pesquisas inovadoras e prestígio internacional muitas vezes ficam em segundo lugar para preocupar-se com entrar, permanecer e pagar pelo ensino superior.

Muitos estudantes e seus pais se perguntam se a faculdade vale o custo, se preocupam com os resultados educacionais ruins, percebem o estado desconfortável da política nos campi ou luta para lidar com empréstimos pesados e perspectivas sombrias após a graduação. Além disso, um número significativo de instituições pode simplesmente não conseguir continuar funcionando por muito mais tempo.

Mesmo se essas ansiedades forem exageros, elas são sentidas fortemente. Em parte, elas explicam a obsessão de nossa nação com rankings, doações, resultados de testes e seletividade da faculdade. Como Mark Shiffman observa, estudantes aflitos “com uma compulsão desesperada por vantagem competitiva (…) acumulam diplomas, habilitações, certificados, credenciais e estágios para mantê-los funcionando pelo que eles sentem ser um sucesso cada vez mais esquivo. Eles são guiados pelo medo”. Ou, como William Deresiewicz comentou em um ensaio agora famoso, são os vencedores desta competição acirrada que muitas vezes são as mais “ansiosos, tímidos e perdidos, com pouca curiosidade intelectual e um senso atrofiado de propósito; presos em uma bolha de privilégio, conduzidos mansamente na mesma direção, ótimos no que estão fazendo, mas sem ideia de por que eles estão fazendo isso”.

Estudiosidade versus Docilidade

Não é de admirar, então, que ser estudioso seja muitas vezes considerado a principal virtude do aluno. O estudo, como explicado por Tomás Aquino, “denota aplicação aguda da mente” para a aquisição do conhecimento. Para os estudantes mais diligentes e ambiciosos, o árduo trabalho de estudo e a intensa aplicação da mente definem sua “compulsão desesperada por vantagem competitiva”. Mas, embora o trabalho duro seja uma condição prévia necessária para ser um bom aluno, a virtude essencial não é a estudiosidade, mas muita docilidade, explica o padre James Schall em seu livro “Docilitas: On Teaching and Being Taught” (“Docilitas: sobre ensinar e ser ensinado”, em tradução livre). Revisitando um tema de um ensaio que ele escreveu há alguns anos, “O que um estudante deve ao seu professor”, Schall explora a docilidade, a vontade de aprender. Essa disposição geralmente envolve o árduo trabalho de estudo, com certeza, mas mesmo o mais diligente dos trabalhadores nem sempre é ensinável.

Não é óbvio o que isso significa. Mesmo que os motivos dos estudantes sejam diversos, e seu último motivo para estudar seja um trabalho bem pago e uma aposentadoria antecipada, eles parecem dispostos a aprender na medida em que trabalham para dominar o material. De acordo com Schall, no entanto, aprender não é equivalente a exames e provas. O estudante dócil é aquele que deseja aprender a “verdade das coisas” ou “o que é”. Querer saber a verdade das coisas é diferente de querer passar na prova.

Augustine descreve assim em On the Teacher:

Aqueles que são pupilos deliberam a si mesmos se o que foi explicado foi verdadeiro; olhando, claro, para essa verdade interior, de acordo com a medida de que cada um deles é capaz. Assim, eles aprendem, e quando a verdade interior lhes faz saber que coisas verdadeiras foram ditas, eles aplaudem.

O estudante dócil não apenas aceita o que o professor diz, mas testa e julga a verdade da explicação. Ao invés da passividade, a capacidade de ensino requer uma busca e esforço ativo pela verdade, mesmo contra as opiniões do professor. O estudante dócil exige prova, não necessariamente no sentido de um argumento demonstrado, mas no sentido mais antigo de revelar a bondade (probus) de uma coisa, a forma como os jovens atletas se demonstram no campo ou como o exército testa armas em um “campo de testes”. Essa prova demonstra bondade, integridade e valorização. A docilidade pode exigir evidências rigorosas, mas, acima de tudo, busca bondade e valor. Ativamente disposto a aprender, o estudante dócil testa e considera, delibera e discerne. Ele não espera apenas por afirmações para transcrever.

Como todas as virtudes, a docilidade não é uma passividade, mas uma disposição para agir – e agir bem. Nós nos deleitamos e aplaudimos a verdade. Devemos agir, porque começamos na ignorância e na insatisfação com a nossa ignorância. Nosso intelecto não está satisfeito com a ignorância, porque não é para isso que ele foi feito. Esse tipo de insatisfação não existe custos, é claro. Como o colega jesuíta de Schall, Bernard Lonergan, disse uma vez,

profundamente dentro de todos nós, emergentes quando o ruído dos outros apetites se acalma, há um impulso para conhecer, entender, para ver por que, para descobrir o motivo, para encontrar a causa, para explicar. (…) Isso pode consumir um homem. Pode ocupá-lo por horas, dia após dia, ano após ano, na prisão estreita de seu escritório ou seu laboratório

Schall nos lembra que Sócrates foi morto por seu desejo de entender. Tais perguntas não eram feitas com segurança na cidade, “mas apenas fora dela, em um lugar protegido da desordem das almas revelada em uma cidade que mataria seu melhor homem”. Dado o perigo da docilidade, querer saber a verdade das coisas, em vez de simples costume, Platão recuou para a academia, “onde as questões fundamentais do homem poderiam ser feitas”.

Investigação livre das grandes questões

Agora, dadas as muitas e variadas patologias da academia contemporânea, Platão (e Schall) pode parecer pitoresco, na melhor das hipóteses, e culposamente ingênuo na pior das hipóteses. Atualmente, vira manchete quando a Universidade de Chicago permanece “firme em sua crença de que uma cultura de pesquisa intensa e discussão informada gera ideias duradouras e que os membros de sua comunidade têm a responsabilidade de desafiar e ouvir”. Enquanto para muitos de nós, é evidente que “sem um compromisso intenso com a investigação livre e aberta, uma universidade deixa de ser uma universidade”, muitos não concordam. Como Sócrates em uma cidade hostil, os verdadeiramente dóceis nem sempre estão em casa na universidade.

No meu entendimento, devemos resistir à tentação de reduzir o problema à política, como se a universidade recuperasse sua função simplesmente insistindo na diversidade intelectual e na indagação gratuita. Enquanto uma universidade deixa de ser uma universidade sem livre investigação, isso é insuficiente para que uma universidade sirva sua função adequada. Como Schall sugere, mesmo que poucas universidades entendam isso como seu “propósito primário ou mesmo secundário”, elas existem para buscar e entender as “grandes questões”. A investigação não é suficiente; devemos nos informar sobre as grandes questões.

Em seu “A ideia de uma universidade”, John Henry Newman sugere que as várias disciplinas e áreas de conhecimento se separam e se afastam na ausência da visão integradora da teologia. Vemos isso, em parte, nos cercos disciplinares, excesso de especialização e ausência de programas centrais e de educação geral em muitas instituições. Se o conhecimento não se integra na mente mais nobre, é difícil entender por que devemos tentar o mesmo. Além disso, Newman argumenta que corremos o risco de distorcer as outras disciplinas quando, na ausência de teologia, reivindicam para elas mais do que deveriam. Por exemplo, a ciência não nos diz nada diretamente sobre a existência ou a inexistência do Divino, pois um deus transcendente não é um ser dentro da ordem imanente estudada pela ciência, e quando os cientistas “se descontrolam” e fazem declarações sobre Deus, eles distorcem assim tanto ciência quanto teologia. (Vide Richard Dawkins.)

Negligenciando as grandes questões, muitas universidades não funcionam como universidades. Frente a uma situação similar, Platão docilmente deixou a cidade para a academia. No entanto, se a academia moderna não está cumprindo seus ideais, como muitos pensam que é o caso, parece um lar desconfortável. Não devemos abandonar completamente a academia, mas sim praticar uma espécie de presença fiel. Isso pode significar a presença de pessoas de fé, sejam eles teólogos ou outros, mas sugere mais a presença daqueles que são fiéis à verdade das coisas, ao que é, seja qual for sua fé ou falta dela. A presença fiel significa manter a fé com o propósito da instituição, chamando a universidade para ser ela própria, para ser o que ela deve ser. Precisamos de professores e estudantes dóceis, sem medo das perguntas fundamentais e das grandes questões: aqueles que querem a verdade.

Durante sua longa carreira, Schall mostrou-se um professor dócil. Em seus muitos livros e ensaios, incluindo “Docilitas”, ele retorna às grandes questões e ao papel dos professores, estudantes, amigos e bons livros para nos ajudar a recuperar o nosso caminho e a buscar as coisas que valem a pena ser buscadas. Enquanto os leitores familiarizados com seu trabalho não encontrarão muita novidade nesses ensaios, muitos dos quais foram palestras ocasionais e são dadas a alguma redundância, aqueles que não o leram antes encontrarão em “Docilitas” uma excelente introdução ao seu pensamento e o desejo dócil da verdade que o impulsiona.

Felizmente, o desejo de verdade é intrínseco a todo ser humano, com o intelecto naturalmente orientado para entender as situações. Nossas perguntas não cessam, e nosso deleite em saber não pode ser erradicado, mesmo que possa ser confundido, atrofiado e prejudicado. A citação de Agostinho em Schall é esperançosa, pois Agostinho nos lembra a “verdade interior”, o próprio intelecto e sua trajetória natural para a verdade das coisas. Enquanto houver intelecto, a universidade pode se recuperar. Ela pode, finalmente, viver de acordo com seus mais altos ideais e melhores objetivos, se formos dóceis.

R.J. Snell dirige o Centro para a Ética e a Universidade no Witherspoon Institute em Princeton, Nova Jersey, e é associado sênior no Agora Institute for Civic Virtue and the Common Good. Seus livros incluem “The Perspective of Love: Natural Law in a New Mode” (“A Perspectiva do Amor: Leis Naturais em um Novo Modo”), e Acedia and Its Discontents (“Acédia e Ses Descontentes”).