Este texto recolhe uma intervenção do filósofo Leonardo Polo em um colóquio organizado por alunos da Universidade de Navarra
Nosso tema é a liberdade. Vou abordá-lo iniciando com duas perguntas, e me fingindo de pessimista ao responde-las. Primeira: “O homem é livre?” E segunda: “O homem é sempre igualmente livre, conta sempre com a mesma liberdade?” (Pois a liberdade também precisa ser vista “em movimento”: não é simplesmente algo que o home tem, mas algo a respeito do qual ele pode fazer alguma coisa)
Evidentemente a primeira pergunta é radical, e a resposta deve oscilar entre “ou o homem é livre, ou não”. Já a segunda poder parecer menos radical, e no entanto é bem radical também. Porque se respondêssemos a primeira dizendo que o homem é livre, e depois respondêssemos a segunda afirmando que o homem é sempre igualmente livre, então teríamos que a liberdade é uma propriedade humana nativa, que não se desenvolve: todos os homens seriam igualmente livres, e historicamente não se poderia aumentar a liberdade. A liberdade seria uma simples propriedade da vontade, constitutiva como tal, e nada mais. Mas se é constitutiva, ou está, ou não está, e se está, está. Então o interesse pela liberdade desapareceria, ela ficaria fora do progresso. Seria simplesmente uma fonte, e uma fonte constante dos atos humanos. E ao ser uma fonte que não se acrescenta, a consequência seria que o progresso que os atos humanos poderiam alcançar seria um progresso à margem da liberdade. E se é um progresso à margem da liberdade, poderia até mesmo ser um progresso inimigo da liberdade.
Há pessoas que se atrevem a responder positivamente às duas questões, dizendo que sim, o homem é livre, e além disso é crescentemente livre. Eu também acredito nisso, mas como filósofo preciso advertir que há certas dificuldades em responder assim, pois à primeira vista isso não está tão claro. Por isso me faço de pessimista: para mostrar antes os sinais, os muitos fatos que nos levam a uma espécie de desesperança a respeito da resposta afirmativa a essas duas perguntas. Vejamos quais seriam as dificuldades a respeito da primeira questão, se o homem é livre ou não. Do ponto de vista vital, essas dificuldades podem ser chamadas de “atitudes”, “vivências”, sentimentos que atualmente se adotam a respeito da liberdade, a respeito da indagação de se o homem é livre ou não.
A aspiração à liberdade
Podemos perceber em toda a humanidade atual algo que poderíamos chamar “aspiração à liberdade”: todos querem ser mais livres, ou melhor dizendo, todos querem ser livres. Toma-se a liberdade como uma meta: algo que ainda não se tem, mas que se deseja. E isso já é uma dificuldade a respeito da primeira questão, pois se aspiramos a uma liberdade, estamos afirmando que não a temos. Quem aspira à liberdade reconhece que não a possui. O que realmente acontece no mundo é que não se sabe exatamente o que a liberdade seja, e então se aspira a ela de uma forma muito vaga: Há muitas pessoas que acham que não são livres e desejam sê-lo, mas não sabem exatamente o que significa ser livre. A liberdade se lhes apresenta como um ideal cujo conteúdo e contornos são extremamente imprecisos. Nota-se claramente nos jovens que eles não se consideram livres, mas querem ser. E então se tornam revolucionários, ou coisas assim. Há também minorias que têm uma sensação de não ter liberdade, de estar na escravidão, de que a liberdade é algo que no momento não existe.
Mas, em que consiste essa liberdade? O que se nota em seu valor positivo? Exatamente o que é ser livre? Não se sabe, claro… porque…. como se pode saber? A única forma de saber o que é ser livre, é sendo-o, pois a liberdade não se conhece como se poderia conhecer um outro objeto qualquer. A liberdade nos a conhecemos exercendo-a. Se não se exerce, não se sabe. Portanto, quando surge uma atitude de ânsia pela liberdade, evidentemente ela leva implícita uma percepção extraordinariamente confusa do que seja essa liberdade. Prova disso é que essa aspiração à liberdade normalmente costuma terminar desvanecendo-se, ou termina em algumas situações que nada mais são do que desordem: não são liberdade, mas desordem.
A negação da liberdade
Outros simplesmente negam a liberdade. E por que? Porque quando fizeram a experiência da liberdade, constataram que a liberdade não é um valor tão positivo como parecia, que é um valor muito relativo, e que de certa forma é mesmo um desvalor, ou um anti-valor. Isso é característico, por exemplo, do pensamento existencialista, e também de algumas formas de psicanálise. Alguns existencialistas pensam que estamos condenados a ser livres, e que não temos mais remédio que carregar o fardo de nossa própria existência, no sentido de “termos que nos fazer” (que é o que significaria a liberdade em seu próprio conceito). O homem se tem a si mesmo como tarefa, e portanto tem que carregar seu próprio ser. E esse carregar seu próprio ser, assumindo seu próprio ser em uma ou outra direção, isso seria a liberdade. A liberdade está gravada radicalmente pela própria pessoa, e então em vez de ser uma coisa excelente, alegre, brilhante, é exatamente o contrário: é uma espécie de tarefa necessária, obrigatória, pesada, esgotante, que temos que realizar com nossos próprios e limitados recursos. E ainda por cima temos que fazer isso sozinhos. Assim, chega-se a um certo medo da liberdade. Mais que medo, a uma avaliação que não é inteiramente positiva: a liberdade é uma desgraça, seria melhor não ser livre, porque se não a tivéssemos estaríamos isentos dessa tremenda tarefa de nos autoconstruir. Outra atitude concernente à liberdade que também aparece é o que poderíamos chamar de desespero: a liberdade desespera. Não se trata agora de a valorizar negativamente no sentido de que ser livre é uma dureza, mas sim que seria melhor ser como uma formiga, simplesmente seguir o caminho da vida, sem ter que preocupar-se com nada: “Ser livre é preocupar-se, e isso já é algo negativo”.
A liberdade inútil
Mas há ainda uma terceira atitude possível, que pode coexistir com as outras, e pode se mesclar com elas: dizer que a liberdade não serve para nada, que é rotundamente inútil. Não é exatamente dizer que a liberdade é uma desgraça porque me traz obrigação de me auto-realizar, mas sim dizer perguntar se essa tarefa tem algum sentido, ou se tem alguma possibilidade de ser levada a cabo. Em resumo, que a liberdade, além de ser difícil e incômoda, não serve para nada. Isso não ocorre com excessiva intensidade, mas às vezes aparece: “A liberdade serve para que? Que interesse ela tem? Vamos conseguir algo pelo fato de sermos livres? Somo efetivamente livres, mas que o sejamos não significa nada do ponto de vista de realização”. E o homem renuncia a ser livre, não porque a liberdade seja um valor negativo, mas porque não tem significado algum.
Há ainda a tristeza diante da liberdade. Não a anterior, mas um outro matiz: consiste em renunciar à liberdade porque essa aspiração nunca se irá alcançar: “Vamos ficar correndo atrás dela toda a vida, para terminar em um fracasso radical. Talvez não por culpa nossa, mas por outros fatores externos que não podemos controlar. E no final, depois de ter feito um grande trabalho para sermos livres, sucederá que tudo não servirá para nada, e se desvanecerá. E aí vem a morte sorrateira, e tudo se acaba”. É a tristeza diante da liberdade, porque buscamos uma coisa que no final nos escapa.
A liberdade finita
Vejamos agora outra questão. A primeira pergunta “somos ou não somos livres?” pode-se resolver em na segunda, que seria esta: “Se somos livres, quanta liberdade temos?” E, sempre como pessimista, respondemos que “podemos ter uma liberdade maior ou menor, que poderá talvez crescer um pouco ou diminuir um pouco, mas que sempre será finita. Haverá sempre um limite que não se pode superar, e portanto nossa liberdade é uma liberdade determinada, e nada mais”. E o pessimista demonstrará isso mostrando uma série de circunstancias ou dados que coarctam nossa liberdade, e que não podemos superar. Por exemplo: “Somos livres, mas o somos de maneira limitada porque estamos inseridos em uma realidade física que nos rodeia, e que nos limita. Não podemos fazer magia com a realidade física. Ela não obedece à nossa liberdade, é um limite para ela”. Mas a finitude de nossa liberdade não termina aqui: “Em segundo lugar nossa liberdade é uma liberdade encarnada, isto é, além de estarmos postos em um mundo físico que nos envolve, nossa liberdade é a de um ser que não obedece à liberdade em todas as suas dimensões”. Não se trata de que eu queira ser livre com respeito à lei da gravidade, isso não tem sentido, mas dentro de mim, dentro de minha constituição como ser que sou, na realidade que sou, há muitos aspectos, há muitas dimensões que não são livres. Podemos suspeitar que muitíssimas coisas que fazemos não obedecem à nossa liberdade, mas obedecem a um impulso de outro tipo.
Outras limitações
Há ainda uma terceira consideração com respeito à finitude de nossa liberdade: nossa liberdade é sempre uma liberdade situada. E isso quer dizer que nossa liberdade de fato deve ter em conta a liberdade dos demais. Não somente estamos em um mundo que tem suas próprias leis, em respeito das quais nossa liberdade está coarctada, (essas leis não obedecem à liberdade): e não somente ocorre que normalmente temos uma constituição psicofísica que em grande parte tampouco obedece à liberdade. Além disso, desde que nascemos estamos inseridos em um meio social de onde nos vêm uma série de determinações que não podemos saltar: isso é o que poderíamos chamar a situação de nossa liberdade. Nossa liberdade é uma liberdade finita, não somente porque está limitada pelo mundo físico, não somente porque está encarnada, isto é, porque tem a ver com uma constituição psicobiológica, mas também porque está situada, isto é, porque inevitavelmente tem que contar com os demais, e os demais não é que coacionem (o que também pode ocorrer), mas fundamentalmente o que ocorre é que os demais não me deixam passar. Ademais, não é somente isso: muitas das vezes que alguém se acredita operar em plena autoconsciência, em plena possessão dos motivos, em realidade esses motivos vêm dados de fora. Não é preciso ir mais longe que observar o fenômeno da publicidade, ou ao fenômeno social: compro uma coisa livremente, ou foi porque de uma maneira talvez inconsciente fui influenciado por um anuncio na televisão?
E para o cristianismo não são apenas esses os modos de finitude da liberdade, mas há mais. Em primeiro lugar nossa liberdade é uma liberdade decaída: o pecado tem que ver com nossa liberdade de uma forma muito estrita e perfeitamente definida. A maneira como se manifesta a liberdade em sua finitude na forma de queda é – e isso é já um tema muito clássico que Santo Agostinho recolhe, e que Lutero empregará exageradamente – o tema clássico das concupiscências. As concupiscências não são, nesse sentido, as paixões: as paixões teriam que ver mais com o fato de que nossa liberdade é uma liberdade encarnada. A concupiscência se nota fundamentalmente no que poderíamos chamar a ordem das motivações, a impossibilidade de estar seguro de que alguém obra com retidão de intenção completa: existirá inclusive nos atos em que alguém crê que é mais livre, porque é mais livre para o bem. Como saberemos se naqueles atos em que alguém acredita ser mais generoso, ou que tenta ser mais generoso, não existirá um fundo errôneo e que na verdade a pessoa está se buscando a si mesma? Ou mais profundamente: quando nossa liberdade “dispara”, ela o faz de um modo realmente e inteiramente livre, ou é condicionada por qualquer fator que a dirige e sujeita? Existe um egoísmo radical que nos incapacita de fazermos um ato completamente bom, porque nossos atos em algum momento vêm marcados pela liberdade decaída. E como os motivos da concupiscência não são nada claros, isso se torna uma finitude da liberdade, dentro da própria liberdade.
Por último, se pode dizer que nossa liberdade é finita porque é criada. E nesse sentido depende de um princípio radical que não é originalmente próprio, que é Deus.
Recapitulação
Tratamos até agora do aspecto negativo da questão. Depois de ver as atitudes diante da liberdade, destacamos sua finitude radical, que lhe vem do mundo físico, de nossa própria constituição psicobiológica, do fato de que está situada, desse deterioramento interior que é a concupiscência, e por último (por ser criada), da dependência de um ser que a criou, e que portanto a transcende também.
Focamos as coisas do ponto de vista mais pessimista, e tentamos acumular todas as dificuldades que o tema da liberdade abarca. Agora, é preciso dar a volta na questão e vermos como o homem é livre, e como essas dificuldades apresentadas a respeito da liberdade e de seu progresso podem ser resolvidas a partir de uma compreensão de liberdade mais profunda. Veremos que todas essas “experiências” referentes à inexistência da liberdade ou à sua finitude são no fundo vivências, muitas delas inegáveis, mas que não alcançam o fundo da questão. É preciso dizer agora que o assunto da liberdade é muito sério, extraordinariamente importante e radical, e está muito além de todas essas questões. Todas essas vivencias a que me referi são muito contingenciais, e todas elas são motivadas não pela consideração da liberdade, mas por considerações imaginárias segunda as quais alguém quer ser livre.
É isso que precisamos ver: se o homem pode ser livre de qualquer maneira, ou se há certos modos de ser livre, e no final apenas um, do qual todos os outros são derivações mais ou menos intensas.
Porque quando alguém tenta abordar o tema da liberdade de uma maneira caprichosa ou de uma maneira qualquer, não haverá nada de estranho que se encontre com uma visão da liberdade que é uma visão negativa, uma versão triste, uma versão desesperante, uma versão pesarosa, ou inclusive que se chegue a dizer – uma vez que não há mais nada que determinação ou jogo de fatores – que não somos nada mais que marionetes.