OS CEGOS E O ELEFANTE: OS REDUCIONISMOS E A UNIVERSIDADE

Qualquer adulto medianamente ilustrado acredita saber definir bem e claramente o que é uma Universidade, pois já passou por algum tipo de experiência atinente a essa instituição. Assim, se perguntado, responderia algo condizente com o que viu, leu, experimentou, ou ouviu dizer: “A Universidade é uma instituição de ensino superior”; “… é um conjunto de faculdades”; “… é um centro de pesquisas”; “…é um tipo de empresa”; “é um templo do saber”; “é uma escola para a vida”. Talvez alguns, mesclando alguma amarga experiência ao sarcasmo, acrescentem sentenças e aforismos copiados: “É uma instituição que desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez” (Techkhov); ou ainda, “É o local onde a ignorância é levada às últimas consequências” (Millor Fernandes).

Estas e todas a mil outras respostas análogas fazem lembrar a conhecida parábola indiana dos cegos e do elefante. O animal foi apresentado a um grupo de cegos, para que o conhecessem e definissem. Cada um deles apalpou uma parte do elefante. O que tocou a pata, definiu: “este animal é semelhante a uma árvore”. O que tateou a tromba, replicou: “é uma serpente”. O cego que tocava o ventre do animal contestou: “é parecido com um muro rugoso” …

O apego obstinado a apenas uma parte da verdade é próprio do cego, quando se trata de coisas materiais, e próprio do reducionista quando se trata do intelecto. O reducionismo é exatamente isso: uma insistência obstinada em uma parte da verdade que se percebe, acompanhada de uma teimosa negativa da existência de outros aspectos dessa mesma realidade, que o reducionista não vê. Leonardo Polo comenta que as frases dos reducionistas já trazem embutidas essa negativa teimosa em sua própria sintaxe, no uso do advérbio restritivo “apenas”: “o homem é apenas instinto”; “as pessoas se movem apenas pelo dinheiro”; “apenas os ingênuos são religiosos”, etc.

No íntimo, talvez o reducionista esteja apenas querendo dizer: “É apenas isso, porque isso é tudo o que sei, e não possa admitir que não possua todo o saber”. É um modo cômodo de caricaturar uma verdade complexa em algumas linhas que se possam postar nas redes sociais.

Este Blog está fazendo sua estreia nas redes sociais, mas não quer ser reducionista. Pretende tratar da Universidade. E como este é um tema complexo, o irá tratar paulatinamente, correlacionando opiniões, assentando pedras firmes e talhadas com método, plano e paciência, como quem constrói uma catedral. Temos a esperança de que leitores e amigos contribuam com suas parcelas de verdade. Aos poucos iremos assim construindo uma visão mais abrangente, mais sólida, mais polifacética, e – esperamos – mais verdadeira.

A primeira pedra que desejamos por, à maneira de fundamento, é que a Universidade é Una, como una é a Verdade.

Que é, qual o fim da Universidade? Seus primordiais equivalentes na Grécia Antiga, a Academia de Platão, e o Liceu de Aristóteles, buscavam a Verdade, em si mesma, e isso lhes bastava. A verdade era a identificação entre o Pensamento e a Natureza, e como a Natureza era una, pois que, no dizer de Anaxágoras, “tudo tem a ver com tudo”, a verdade a ser conhecida era una também.

Nas Universidades Medievais, essa busca da Verdade Una prosseguiu, somada ao ideal de serviço trazido pelo Cristianismo: a missão da Universidade passa a ser também o serviço da sociedade. Surge então a ideia de progresso: a Universidade não busca apenas o cultivo do Saber por si mesmo, mas procura encontrar nesse Saber o impulso que ajude o homem a crescer, tanto material quanto espiritualmente. A História, que os antigos viam como uma sucessão fatal de acontecimentos, é agora encarada pelo medieval como algo em que se pode intervir, de certa forma produzir, e até mesmo prever. O homem deixa de ser um joguete nas mãos dos deuses, e passa a ser um coautor da História, ao lado e sob a regência de Deus. A História tem um rumo, aponta para uma meta. Os homens podem livremente conhecer, estudar e percorrer esse caminho, que passa pelo aprofundamento na verdade, e consequentemente pela santificação pessoal de cada um. A Universidade, ao lado da Família, é vista como uma das Instituições que desvendam ao homem as múltiplas verdades das coisas, todas elas harmônicas e tendentes para a Verdade Única, de tal forma que o homem, ao descobrir uma verdade, tinha a certeza de que a poderia seguir, “fazendo seu próprio caminho ao andar”, certo de que no final todos se encontrariam no Verdadeiro, que era Bom, e que era Belo. Todas as Instituições colimavam o mesmo fim. Essa realidade medieval é assim descrita pelo Papa Leão XIII na encíclica “Imortale Dei”:

“Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. (…) Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.”

No Renascimento, e depois na Ilustração, a simbiose entre a Universidade e a Sociedade se tornou ainda mais diversificada: as atividades técnicas humanas se beneficiam ainda mais das novas ajudas proporcionadas pela pesquisa universitária. As Ciências da Natureza se desenvolvem como nunca antes, proporcionando à sociedade um enorme desenvolvimento prático, técnico e econômico.

Entretanto, essa maior abertura para a prática e a técnica, que só benefícios deveria trazer, acarretou um desvio de rumo, uma progressiva perda do ideal universitário, que com o passar do tempo se tornou desastroso.

Ofuscado pela prática e pela técnica, o Iluminismo esqueceu que não basta conhecer as Ciências da Natureza, mas que é preciso também conhecer o Espírito, e toda a plêiade de saberes que essa palavra acarreta, tudo aquilo que no homem não é apenas matéria, e tudo aquilo que no universo é espiritual, e o fim de tudo, que é Deus. A “nova universidade” foi deixando de ser una, para ser primeiro duas, e depois muitas: os assuntos atinentes ao espírito continuaram sendo tratados, mas “de lado”, depois “nos fundos”, e depois ainda no quarto de despejo do conhecimento e da pesquisa humanos, até chegarmos ao estado de coisas atuais, onde esses saberes, reunidos sob o nome de “Humanidades”, são vistos com uma espécie de condescendência, como antiqualhas que serão talvez belas, mas que tem o mesmo valor prático da gravata, da cartola e do colete. Meros acessórios. Como descreve Alejandro Llano, a estrutura unitária da Universidade se rompeu:

“Em sua origem, ela era uma instituição em que todos os saberes tinham correlação entre si: era o Ideal da Árvore dos Saberes, ou Árvore das Ciências, onde se via todo o conhecimento humano hierarquizado em ciências fundamentais, que eram as raízes, outras que sustentavam o tronco, e outras ainda que formavam os ramos, isto é, as diversas especializações do saber. Esse ideal de manter a unidade da árvore das ciências se vai paulatinamente rompendo, e paralelamente a Universidade vai também perdendo seu caráter unitário. Foi esse estado de coisas que nós herdamos: a Universidade não é mais Una, e se transformou em Pluridiversidade.”

Leonardo Polo é enfático ao dizer que a universidade se fragmentou, se estilhaçou em especializações que não mais dialogam entre si, ocasionando um desentendimento entre os distintos ramos do saber, inteiramente contrário ao verdadeiro espirito universitário. E o Papa Bento XVI, em um encontro de professores universitários celebrado em Roma em 2007, também chamou a atenção para a urgente necessidade que tem a Universidade de “redescobrir a unidade do saber opor-se à tendência à fragmentação e à falta de comunicabilidade que acontece com demasiada frequência em nossos centros educativos”. Bento XVI recordava deste modo à Universidade “sua vocação de ser uma universitas, onde as mais diferentes disciplinas, cada uma a seu modo, se vejam como parte de um unum maior”.

Se desejamos realmente edificar uma Universidade, que nossa primeira pedra seja essa: a universidade é una, como a verdade que ela busca, pesquisa, defende e ensina.

O PROJETO HUMANISTICO DE HARVARD, CHICAGO E COLUMBIA.

Uma das soluções que algumas universidades do mundo buscaram para superar o problema da fragmentação do saber foi oferecer aos alunos uma formação intelectual que tornasse possível a integração dos conhecimentos especializados de cada curso ou faculdade em uma unidade superior. Para isso criaram o chamado “Core Curriculum”, um conjunto de componentes curriculares e de cursos, normalmente de viés humanístico, que fosse comum para todos os estudantes, independentemente da faculdade que cursassem ou da carreira que escolhessem.

O primeiro programa de Core Curriculum foi implantado na Universidade de Columbia, em 1919. Desde seu início estava ligado à ideia de formação humanística, ou melhor dizendo, à perspectiva humanística de educação. Esse movimento se mostrou extraordinariamente fecundo nas universidades norteamericanas até os anos 60, especialmente em Columbia, Chicago e Harvard. Entre os seus principais promotores se destaca a figura Robert Hutchins, que introduziria em Chicago o sistema dos Great Books: leitura, análise e debate de grandes clássicos da literatura universal, de Platão a Shakespeare, passando pelos clássicos norte-americanos.

Em 1945 James Bryant Conant, Reitor de Harvard, sintetizava em poucas linhas o desafio que as universidades deveriam afrontar no período imediatamente posterior à Segunda Guerra: o centro do problema da educação deveria ser a continuidade da tradição humanística. Nem a aquisição de conhecimentos básicos nas ciências físicas e biológicas nem o desenvolvimento das habilidades de escrita e expressão bastariam para preservar a civilização e construir uma nação de cidadãos livres. É necessário mais: que em cada nível educativo, desde o colegial até a universidade, os estudantes entrem em contato com aquelas áreas do saber em que os juízos de valor são primordiais. É imprescindível que o estudante saiba avaliar e empregar as palavras “correto” e “equivocado” tanto em sua dimensão ética quanto matemática. Se não for assim, estará cego para distinguir aquelas ideias e aspirações profundas que atuam como motor interior da vida de tantas pessoas ao longo da história.

Conant acertava ao sublinhar o desafio que a educação superior norteamericana devia enfrentar naqueles anos. Suas palavras não pretendiam desvalorizar os progressos científicos de seu tempo (Ele mesmo era um químico de projeção internacional), nem diminuir a importância da formação nos estudos técnicos e científicos. Mas sublinhava a necessidade de ir mais além do que essa formação oferecia, para atingir níveis de compreensão e de juízo mais profundos. E para isso, a tradição liberal e humanística era insubstituível.

Infelizmente a história posterior da educação universitária norte-americana não seguiu essa linha então delineada por Harvard, Chicago e Columbia, e a corrente da formação humanística decaiu. Entretanto, algumas algumas Universidades e Centros Universitários ainda resistem heroicamente ao ataque do pragmatismo e do mero utilitarismo. Graças ao empenho de alguns professores e ao apoio de antigos alunos, esse empenho educativo continua presente nas três Universidades que o iniciaram, e em prestigiosos “Colleges” como Saint John ou Thomas Aquinas.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)

CORE CURRICULUM DA UNIVERSIDADE DE NAVARRA

A Universidade de Navarra, fundada em Pamplona em 1952 por São Josemaria Escrivá de Balaguer, é uma obra corporativa do Opus Dei. Segundo as palavras de seu fundador, a Universidade de Navarra “aspira a que em todas as suas atividades esteja presente a consciência de que o trabalho é testemunho da primazia do homem sobre as realidades materiais, meio de desenvolvimento da própria personalidade, vínculo de união entre os seres humanos e um modo fundamental de contribuição para o progresso da humanidade

Pode-se dizer que a Universidade de Navarra teve um Core Curriculum desde sua fundação, em 1952, pois já nessa época apresentava um conjunto de componentes curriculares comuns a todos os estudantes, independentemente de que curso estivessem fazendo. Entre esses conteúdos se destacavam os de Teologia, incluídos nos planos de estudo de todas as licenciaturas até a reforma educativa universitária de 1992. Entretanto, foi apenas a partir de 2007, quando da adaptação dos planos de estudo ao Espaço Europeu de Educação Superior, que a Universidade apresentou um novo Core Curriculum, onde os estudos teológicos permaneceram também.

Atualmente esse Core Curriculum consta de 18 Créditos, estruturados da seguinte maneira: um curso de Antropologia (6 Créditos) no primeiro ano, um curso de Ética Geral (6 Créditos) no segundo ano, e um módulo de 6 Créditos composto por vários cursos optativos de 3 Créditos cada um – que recebem o nome genérico de “Chaves Culturais” – entre os quais o estudante deve escolher dois. Um curso que sempre se oferece é “Introdução ao Cristianismo”. Em 2015 a Universidade deu um novo impulso ao Core Curriculum criando um órgão centralizado. Nasceu assim a Comissão de Core Curriculum, integrada por seis pessoas que representam as faculdades. Um dos primeiros resultados do trabalho dessa comissão foi a redação de um documento descritivo e normativo sobre o Core Curriculum. Sua finalidade é dupla: por um lado reforçar a identidade e unidade do Core Curriculum no conjunto dos estudos de graduação da Universidade, e de outro, explicar da forma mais clara e sintética possível os conteúdos e meios que orientam esses estudos. Vamos percorrer alguns pontos desse documento.

A finalidade do Core Curriculum

Faz parte do ideário da Universidade de Navarra a promoção e o desenvolvimento da personalidade dos estudantes em todas as suas dimensões. Neste sentido, a formação que os estudantes recebem não se limita ao âmbito acadêmico ou profissional, mas abarca também outros setores, como o pessoal, o cultural e o religioso. Um dos meios para implementar essa formação “além do acadêmico e do profissional” é o Core Curriculum. Sua finalidade principal é assim contribuir para o desenvolvimento da maturidade intelectual dos alunos através do estudo e reflexão das grandes questões da existência humana: o sentido e a finalidade da vida, o problema do mal, a liberdade, o amor, Deus considerado em Si mesmo e em sua relação com o homem, a racionalidade do mundo, o conhecimento humano, a justiça, etc. São temas e problemas que transcendem as fronteiras das disciplinas, ao mesmo tempo em que se encontram na base de todas elas.

É claro que todos os cursos da Universidade promovem a maturidade dos estudantes, pois todos buscam desenvolver uma formação a partir de uma perspectiva cristã. Mas nos cursos do Core Curriculum essa finalidade está presente de forma direta e imediata. Nesse sentido se pode dizer deles que “constituem o marco formativo global de cada plano de ensino”. Através desses cursos se pretende que os estudantes “alcancem por si mesmos uma interpretação global da realidade”. Esta perspectiva maior os ajudará a compreender melhor as matérias próprias de sua graduação. Mas além disso lhes permitirá dotá-las de sentido e as relacionar com o resto dos saberes humanos, e com a própria vida.

Em outras palavras, se pode afirmar que os cursos do Core Curriculum têm uma perspectiva sapiencial, como é geralmente a perspectiva da educação humanística, e mais que isso, personalista. O bom aproveitamento dos cursos do Core Curriculum conduz à formação de um verdadeiro pensamento crítico no sentido original do termo, isto é, um pensamento que discerne, avalia, e separa o verdadeiro do falso, o real do aparente. “O decisivo” – afirmava Karl Jaspers – “não é a posse do aprendido, mas a capacidade de julgar”. E o Core Curriculum em muito contribui para o crescimento dessa capacidade.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)

ENTREVISTA COM MARIA IRABURU

ENTREVISTA DO DEPARTAMENTO DE CORE CURRICULUM DA INVENIO COM A ENTÃO PRÓREITORA DE PROFESSORADO DA UNIVERSIDADE DE NAVARRA, E HOJE REITORA NA MESMA UNIVERSIDADE, PROFESSORA MARIA IRABURU, EM 14 DE ABRIL DE 2020. 

Maria Iraburu é professora Titular de Bioquímica e Biologia Molecular na Universidade de Navarra. Fez seu doutorado em Ciências Biológicas em 1992, e entre 1993 e 1996 foi pesquisadora pos-doc no Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. Além de sua atividade docente e de pesquisa, tem uma vasta experiência em gestão e governo universitários. Foi membro das Juntas das Faculdades de Medicina e Ciência, e em 2005 se incorporou ao Reitorado da Universidade de Navarra, como pró-reitora de Alunos. Atualmente é Pró -Reitora de Professorado, cargo que ocupa desde 2012.

 

INVENIO – PROFESSORA MARIA, qual a importância do Core Curriculum na Universidade de Navarra?

MARIA IRABURU – Os Core Curriculum são bastante diferentes, nas diferentes Universidades que os adotam. Em Navarra o Core Curriculum é um conjunto de cursos comuns a todas as Faculdades, independentemente de serem Técnicas, Humanas ou Biológicas. São cursos anuais, focados na Antropologia e na Ética. Dois cursos anuais de 60 horas, e mais dois de 30 horas cada, com disciplinas eletivas. Estas últimas podem ser teológicas ou não teológicas, de recorte humanístico: Grandes Livros, ou História das Ideias, por exemplo.

Esse conjunto de matérias procura evitar dois extremos: O primeiro é o do academicismo, e da excessiva especialização. Quando o Core Curriculum apresenta, por exemplo, as grandes figuras da literatura, não é tanto com a intenção de criar especialistas em literatura, mas de conhecer a literatura universal, mergulhar em seus mitos, e refletir sobre a condição humana, sobre o sentido da vida, sobre o sentido da sociedade. O outro extremo a evitar é que os cursos sejam tão superficiais, tão “ligeiros”, que não tenham utilidade formativa alguma.

Isso quanto aos conteúdos. No que diz respeito ao professorado, buscamos os melhores de cada área. Para Antropologia e Ética contamos com os professores da Faculdade de Filosofia. Para Literatura, com os da Faculdade de Letras, e assim por diante. Será sempre o melhor professor da cada área o escolhido para administrar o Core Curriculum: aquele historiador reflexivo com cinquenta anos de experiência, e que se preocupa com os grandes problemas da História, aquele Mestre em Literatura que tem grande experiência da vida… são esses os nossos professores: os interessados pela formação dos estudantes e que sabem fazer o “follow up” entre o específico de sua área e o que tenha melhor impacto formativo entre os alunos.

INVENIO – O Core Curriculum mantém um curso especial para a formação de seus professores?

MARIA IRABURU – A Universidade de Navarra mantém um programa chamado Docens, de dois anos e obrigatório, para formar seus professores. Os professores do Core Curriculum são na realidade os que ministram os cursos do Docens. Além disso, o Instituto de Core Curriculum mantém seu próprio programa de formação de professores, com encontros várias vezes por ano. É um grande intercâmbio de experiências, pois esse professorado é muito maduro e compartilha seus conhecimentos. Mais que o conteúdo que cada um possui, esse esforço de comunicação e essa maturidade de pensamento são essenciais.

INVENIO – Como se faz o acompanhamento dos professores do Core Curriculum? Há algum programa de tutoria para eles?

MARIA IRABURU – Os professores do Core Curriculum são bastante veteranos. O que desejaríamos, mais que os acompanhar, é que eles acompanhassem a nós. A ideia de que o Reitorado possa formar os professores é bastante improvável. Na realidade, eles estão em constante autoformação. Eu sou bioquímica, não tenho nada a dizer, por exemplo, ao professore de Grandes Livros sobre como proceder. A formação dos professores Sêniores, como os do Core Curriculum, consiste em seminários de formação contínua, grandes atos temáticos, onde cada professor explica como trata do tema proposto. Nesses seminários não existe a posição “eu agora vou te formar”, porque neles ninguém tem mais sabedoria que ninguém. Aprendemos todos de todos. Ou um professor tem firmeza de pensamento, abertura intelectual, capacidade de diálogo com os jovens, ou não é professor de Core Curriculum.

INVENIO – Como os alunos, especialmente os de Exatas, encaram e vivenciam a formação do Core Curriculum?

MARIA IRABURU – Reparamos que os alunos dão mais valor aos cursos do Core Curriculum quanto mais o tempo vai passando. Os meus alunos de bioquímica, por exemplo, chegam fugindo dos cursos de Humanas, e a turma do primeiro ano tem certa dificuldade com a Antropologia, o curso do Core Curriculum. Não digo que não gostem, mas que lhes custa muito. Com o passar dos anos o Core Curriculum lhes vai melhor. Nos quatro anos de curso, eles têm três de Core Curriculum e mais um, o último, de Ética Profissional. São os cursos de viés humanístico que recebem. Outra verdade é que quando os professores são bons, os cursos são mais prestigiados e queridos pelos alunos. Os alunos respeitam os professores com intelecto forte e sólido.

INVENIO – Outra missão da Comissão de Core Curriculum é o estudo do Sentido da Universidade…

MARIA IRABURU – Uma vez ao ano temos uma jornada sobre o sentido da Universidade, para todos os professores. Na última compareceram trezentos. Tratamos de temas como o método científico, a interdisciplinaridade, etc. São encontros temáticos.

A Comissão Core Curriculum, formada por professores de diferentes faculdades, analisa as novas matérias dos novos programas, verificando se afetam ou não o Core Curriculum, e revisam os novos programas – por exemplo, um novo Master – no que diz respeito aos conteúdos humanísticos e éticos. Fazem um pouco uma tarefa de “surveillance” para assegurar que têm conteúdo ético. Na verdade, a Comissão de Core Curriculum cumpre muitas funções.

INVENIO – A Universidade de Navarra mantém relacionamento com outras universidades no que tange ao Core Curriculum?

MARIA IRABURU – A equipe de Core Curriculum faz parte de uma associação de Universidades que têm Core Curriculum, a CoreTexts, e mantém um bom relacionamento com todas elas. São poucas, na América e na Europa. A ideia de Core Curriculum é mais americana que inglesa. Em alguns aspectos, eles são bem diferentes de nós. Por exemplo, contratam professores jovens que iniciam sua carreira ficando “full time” no Core Curriculum por dois anos. Em nossa opinião isso não é o melhor.

INVENIO – Navarra é a terceira faculdade da Europa, não?

MARIA IRABURU – (Rindo) – Aqui há um erro. Agora os ingleses não fazem mais parte da Europa, portanto somos os primeiros…

INVENIO – Ainda sobre a formação de professores: depois dessa formação inicial de dois anos, eles retornam para a continuar?

MARIA IRABURU – Existem as jornadas que fazemos sobre a identidade da Universidade. E há formações específicas, setoriais: se um professor se torna assessor, há uma formação específica para assessores. Se fizer parte de uma junta de departamento, há uma formação específica para isso, e assim por diante.

INVENIO – Navarra é também considerada a melhor formadora de professores da Europa…

MARIA IRABURU – A maior preocupação que deve ter uma Universidade é formação de seu professorado. Mais que procurar alunos, a missão número um – número um, hein! – é formar bons professores. E por isso os formadores de professores precisam ser muito seletivos, e muito ativos. Mas a verdade é que esse título de melhor formadora me surpreende um pouco… O fato não me surpreende, porque realmente temos o professorado altamente motivado. Mas não porque os formemos especialmente bem, e sim porque se preservou a cultura inicial e o entusiasmo dos inícios. Há muitíssima motivação. Temos jornadas de atualização docente, e vemos muitíssimos professor com paixão pela docência. Não temos Prêmios Nobel, mas possuímos uma cultura – que conseguimos preservar – de amor e atenção às pessoas, de tentar ajudar e compreender. Isso é um fato, e vem passando de geração em geração. É um milagre de S. Josemaria, nosso fundador.

O CORE CURRICULUM NA UNIVERSIDADE DE NAVARRA: CONTEÚDOS E PROCEDIMENTOS

Assumir a própria tradição

Todo ato de compreensão da realidade pressupõe uma determinada tradição de pensamento. Não é possível pensar fora da história. É a tradição que torna possível todo ato de compreensão e juízo. Portanto, não existe verdadeira formação intelectual sem o empenho por conhecer criticamente a própria tradição.

O Core Curriculum da Universidade de Navarra assume como própria a “tradição intelectual cristã ocidental”, com suas raízes hebraicas, gregas e latinas e seu posterior desenvolvimento histórico.

Assumir a própria tradição não significa identificar-se com ela em todos os seus detalhes e em todos os seus extremos. Implica sim em compreender os fundamentos históricos de nosso modo de aprender a realidade. Só então se está em condições de julgar a própria tradição, compará-la com outras, criticá-la ou contribuir para a enriquecer. O Core Curriculum se empenha que o estudante “desenvolva uma consciência histórica que o faça capaz de descobrir e julgar os pressupostos culturais de seu modo de pensar”. Para oferecer oportunidade a esse desenvolvimento, o Core Curriculum apresenta ao aluno:

  • As grandes obras da literatura e do pensamento;
  • As manifestações da arte enquanto revelam a beleza do ser humano, da natureza e de Deus e são fundamento e expressão das grandes questões da existência humana;
  • Os progressos da ciência, na medida em que introduzem os estudantes na visão científica do mundo e nos desafios que essa visão apresenta;
  • As matérias teológicas, antropológicas e éticas que exponham a visão cristã do mundo;
  • As matérias que estudam as relações entre o cristianismo e as ciências particulares.

Se bem que a “questão filosófica” seja inerente a todas os cursos do Core Curriculum, seja qual for o seu conteúdo concreto, parece lógico pensar que essa perspectiva profunda deva informar a docência das matérias propriamente filosóficas e teológicas. Essas disciplinas estudam a realidade em seu conjunto, e dessa maneira devem atuar mais fortemente como fator de integração dos saberes.

Ao mesmo tempo, é urgente que as Faculdades de Teologia e Filosofia repensem seu papel no conjunto da Universidade, de tal maneira que, sem renunciar às descobertas e progressos dos últimos tempos, recuperem sua intrínseca dimensão sapiencial. Só assim serão capazes de iluminar os problemas mais radicais da existência humana, cujo estudo setorial é assumido em outras perspectivas pelos diversos cursos das faculdades.

Visão integradora dos saberes

Outra importante missão do Core Curriculum é fomentar nos estudantes a abertura mental para as outras disciplinas que ele não cursa, mas que fazem parte dos programas da Universidade, e do acervo do conhecimento humano. Na medida do possível, os conteúdos do Core Curriculum irão versar sobre ramos do conhecimento diferentes daqueles específicos que os alunos cursam. Dessa forma, se criam condições para que o aluno adquira uma “visão integradora dos saberes”, que capte a um mesmo tempo a “Unidade da Verdade” e a diversidade de metodologias necessárias para sua apreensão.

Aprender a “pensar fora da caixa”

A adequação dos conteúdos à finalidade do Core Curriculum é necessária, mas não é suficiente. Não basta assegurar que os cursos do Core Curriculum tratem de matérias tradicionalmente ligadas à educação humanística para que o Core Curriculum cumpra a sua função. Lembremos que a finalidade última do Core Curriculum é ensinar os alunos a pensar sobre as questões mais fundamentais da existência humana. Aprender a pensar significa, entre outras coisas, aprender a captar o universal no concreto, o permanente na mudança, os princípios gerais nos casos particulares. Aprender a pensar é também aprender a distinguir, a analisar e sintetizar, a argumentar e concluir. Aprender a pensar é em boa medida aprender a ler. Os textos podem ser muito variados e inclusive se revestir de formas diferentes das literárias, como acontece com as expressões pictóricas ou escultóricas. A formação intelectual que o Core Curriculum promove se traduz nessa capacidade de ir mais além e também mais aquém do texto, para extrair dele todas as suas potencialidades. É somente a partir dessa capacidade de leitura que se pode desenvolver a criatividade que ativa o pensamento humano. Porque o pensamento é criativo: pergunta os porquês e os “para quês”, questiona os pressupostos, discute sobre os enfoques e a pertinência das perguntas. É capaz de ir mais além do dado, de pensar fora do sistema, e dessa maneira renovar a própria tradição. É o “thinking outside the box”, como ficou na moda falar no mundo anglo-saxão.

Essa perspectiva – vale a pena reiterar – deve presidir todo o ensino universitário, e não apenas o Core Curriculum. Entretanto, para que isso se torne uma realidade, é conveniente que alguns cursos busquem esse fim de uma forma mais direta e imediata. O Core Curriculum vai à frente, carregando uma bandeira que deve inspirar o método dos outros cursos. As matérias de que ele trata, mesmo sem a pretensão de formar teólogos, filólogos, historiadores ou teóricos da ciência, de modo algum são superficiais. Elas vão ao essencial de cada problema, e assumem a “complexidade e a grandeza” das questões que tratam.

Desejo da verdade

Na docência e na regência dos cursos do Core Curriculum a abertura à verdade em todas as suas manifestações se concretiza também na capacidade dos professores de atender os desejos de verdade que se aninham no coração dos alunos, e de corresponder às suas perguntas. Essa disponibilidade para a escuta – condição básica de todo diálogo autêntico – é imprescindível para que as aulas contribuam realmente para a formação dos estudantes. Ajudar a crescer, crescendo junto com o aluno Trata-se de um tipo de docência em que o professor percorre o caminho da verdade com os alunos, e segue um processo em que ele mesmo também cresce interiormente. Isso exige por parte de todos uma boa dose de humildade intelectual, mais difícil no caso do professor que nos estudantes. Vemos que nessa formação que o Core Curriculum pretende implementar, nada é mais estapafúrdio que entender a docência como uma mera transmissão de conteúdos enlatados, já cozidos, para que os alunos os engulam sem mediação intelectual.

Docência, e não doutrinação

Por outra parte, é essa abertura sincera à verdade que permite distinguir a docência universitária da mera doutrinação. É quando se assume que a verdade é o critério último da validade que a docência pode se converter em um diálogo autêntico, sem menoscabo da autoridade do professor. E dessa forma o ensino se converte em caminho de desenvolvimento da liberdade intelectual dos estudantes e também do professor.

Projetos, seminários, debates… até mesmo aulas.

Como é lógico, esse posicionamento irá condicionar o método de ensino. Parecem especialmente idôneos para atingir esses objetivos aqueles métodos que permitam um maior envolvimento dos estudantes, como os seminários, as comunicações, os projetos, os cursos de leitura e debate dos grandes livros. As aulas magistrais, entretanto, também podem ter seu lugar desde que sejam realmente “magistrais”, e na medida do possível complementadas com outros métodos.

Professores convictos

Para que o aluno se situe de verdade no centro de seu processo de aprendizagem, é vital que o professor assuma a tarefa que lhe corresponde. O conhecimento atualizado da matéria que ensina é um pressuposto óbvio. Mas a docência em geral, e a do Core Curriculum em particular, exigem também uma série de qualidades humanas e intelectuais que vão muito além do domínio de uma determinada área de conhecimento. O êxito dos cursos do Core Curriculum depende fundamentalmente de que os professores encarregados de os ministrar reúnam algumas qualidades: interesse pelos alunos, paixão pelo ensino, capacidade para sintonizar com as inquietações dos estudantes, humildade intelectual, paciência… e um amplo etc.

Para concluir, um pensamento de Alejandro Llano: O relevante na formação universitária não é “encher a cabeça de dados”. O relevante é “descobrir as chaves que dão sentido aos fatos”. Essa busca de sentido se enraíza na sede de Verdade que se aninha no coração humano. O Core Curriculum busca não apenas aliviar esta sede, mas também a avivar. E para isso trata de dotar os estudantes dessa grande angular capaz de abarcar a realidade em toda sua grandeza e complexidade, de maneira que possam chegar a ser protagonistas de sua própria vida e responsáveis pelo mundo em que vivem.

Considerações a partir de: PEREZ, Rafael: Desfragmentar a Universidade: o Core Curriculum como marco integrados de Saberes. (Comunicação na Universidade de Los Andes, outubro de 2014, e Universidade de Navarra, janeiro de 2018)

A INSTITUIÇÃO UNIVERSITÁRIA

Coleção de ideias de Leonardo Polo Os antecessores da Universidade são as escolas de pensamento da Grécia clássica, como a Academia de Platão, e o Liceu, de Aristóteles. Nelas, a busca da verdade era uma atividade que se justificava por si mesma.

Depois, com o Cristianismo, surgiram as Universidades medievais. Nelas se acrescenta uma nova característica à busca da verdade: o saber cultivado na academia precisa também estar disponível para o progresso, e para a organização da vida social: a Universidade não existe apenas para buscar o conhecimento, mas para servir. É na Idade Média que o Saber começa a influenciar a vida, e a História: começa-se a cogitar de um futuro, que até então era incognoscível. Foi só quando o saber se tornou um dos fatores da dinâmica social que se teve a possibilidade de fazer cogitações sobre o que irá acontecer, pois o futuro pode ser de alguma forma “programado” por esse saber que a sociedade, através da Universidade, incorporou: se racionalizamos a marcha da História, o futuro é cogitável, quase previsível.

É justamente assim que surge a ideia de progresso. Não se trata apenas do cultivo do saber por si mesmo, mas também de encontrar nele uma aplicação de tal natureza que ao impregnar a marcha da História a faça acessível ao cálculo. A História já não é um conjunto de eventos mais ou menos contingentes, como antes se pensava, mas pode ser racionalmente conduzida pelo homem.

Na Ilustração, a influência da Universidade se torna mais significativa nos processos internos da sociedade. Na primeira fase dessa simbiose, as atividades técnicas humanas vão buscar ajuda nova na ciência universitária. Por isso se fomenta o desenvolvimento das Ciências da Natureza, e dessa cooperação nasce um enorme desenvolvimento econômico. De tal forma que se pode dizer que crescimento econômico dos países ocidentais foi a primeira fase da simbiose entre o saber universitário e a dinâmica social.

Mas essa simbiose foi apenas parcial, pois se aproveitou apenas da ciência, e esqueceu, ou desprezou, a outra parte dos saberes produzidos pela Universidade: esse grande conjunto de temas que chamamos de Humanidades, ou – na denominação alemã – Ciências do Espírito.

A Ilustração menosprezou a verdade de que não basta conhecer as Ciências da Natureza, mas é preciso conhecer também o Espírito. Falar do Espírito é tratar de Deus e também daquilo que no homem não é somente a pura natureza material. Como o ênfase utilitário foi dado apenas a um lado, e como o método da cosmologia e das humanidades não é o mesmo, aconteceu que a Universidade se dividiu. Uma parte dos saberes se torna aproveitável no mercado social. A outra, meio hesitante, se torna como que o refúgio de uma série de valores que mesmo sem utilidade prática, ainda são necessários para outro assunto importante, que é a formação dos seres humanos. É a “cultura”, a Bildung, presente em Kant, em Goethe, etc.

De qualquer forma, o importante é constatar que a partir da Ilustração se rompe a estrutura unitária da Universidade. Em sua origem, ela era uma instituição em que todos os saberes tinham correlação entre si: era o Ideal da Árvore dos Saberes, ou Árvore das Ciências, onde se via todo o conhecimento humano hierarquizado em ciências fundamentais, que eram as raízes, outras que sustentavam o tronco, e outras ainda que formavam os ramos, isto é, as diversas especializações do saber.

Esse ideal de manter a unidade da árvore das ciências se vai paulatinamente rompendo, e paralelamente a Universidade vai também perdendo seu caráter unitário.

Foi esse estado de coisas que nós herdamos: a Universidade não é mais Una, e se transformou em Pluridiversidade. Ela perdeu sua unidade exatamente porque o rendimento social dos valores universitários é parcial. Só se aproveita parte desses valores, aquilo que é imediatamente rentável. E não se considera rentável construir a cultura, fazer o homem justo, nem se acredita que isso seja um impulso efetivo para o “progresso”.

Por isso, o próprio progresso se tornou unilateral. Podemos sustentar a tese de que a unilateralidade do progresso moderno corresponde ao desaparecimento da unidade na Universidade, com seu ideal de Árvore das Ciências. O que restou agora foi o divórcio entre as Ciências do Espírito e as Ciências da Natureza.

Diante dessa realidade, qual é agora a missão da Universidade? No meu modo de ver, a missão da Universidade consiste em recuperar sua unidade, isto é, voltar a ser Universidade, coisa que – insisto – progressivamente deixou de ser.

É preciso que a vida social se abra às ciências superiores. Dessa maneira a sociedade não estará dominada por motivações excessivamente materialistas. Não se trata de uma mera declaração de desejo, utópica. É fato demonstrável que a dinâmica social guiada apenas pelas ciências da natureza ou pela tecnologia vai caindo em problemas cada vez mais insolúveis. Para que a Universidade cumpra sua missão diante da sociedade futura é preciso que as Humanidades mostrem sua utilidade social. Acredito que esse é o desafio diante do qual nos encontramos.

Para cumprir esse requisito, a Universidade precisa levar em conta uma série de fatores, alguns inerentes à própria vida universitária, e outros – que poderíamos chamar críticos – que constam em mostrar o déficit de racionalidade social que advém da falta de aproveitamento dos saberes humanísticos para o próprio desenvolvimento da sociedade.

(É preciso) Demonstrar que a Universidade moderna fracassou na construção de um mundo mais humano porque quis cumprir sua função de dirigir a História usando apenas as Ciências da Natureza. Mas esse fracasso era de se esperar. Como dirigir a marcha da História somente com as ciências da natureza? Estamos fazendo uma sociedade sem saber quem somos, e portanto, estamos fazendo uma sociedade sem saber para quem. Pretender dirigir a História com essa ignorância é um disparate.

Se as Ciências do Espírito não entram também em cena, se não acontece essa simbiose, então a sociedade se estropeia, o progresso se torna unilateral e desemboca num conjunto de iniciativas que se contradizem, em uma complexidade ingovernável, como hoje se costuma dizer.

(Acrescentar aqui esta ideia: “Daí a nossa vertente antropológica: vemos a Antropologia como a ciência capaz de unir os dois lados em que a Universidade se fragmentou. A Antropologia é o saber capaz de devolver à Universidade o seu devido esplendor, é o nervo que tornará a Universidade aquilo que ela é )

Os homens traçam idealmente uma série de objetivos, de futuros conjeturáveis (por exemplo, a construção de uma ordem internacional durável e justa), que são impossíveis de alcançar apenas com as Ciências da Natureza, mas que exigem também as Ciências do Espírito. E convém acrescentar a isso a pesquisa da essência da realidade, a que chamamos de Filosofia.

Se conseguirmos isso, poderemos dizer com verdade e otimismo a frase de Paul Valéry que se repete hoje com cargas de pessimismo e apreensão: “O futuro já não é o que era”. Em rigor, encontramo-nos em uma situação tal que se continuarmos dirigindo a sociedade com critérios tecnológicos, toda essa política acabará em catástrofe. Mas o futuro é passível de renovação: ele pode ser escolhido por nós, livremente, se soubermos exercer nossa liberdade, que cresce à medida em que é exercida.

CORE CURRICULUM: O DESEJO DE RENOVAR O FUTURO

Se acreditarmos na criatividade humana guiada não apenas pela tecnologia mas também iluminada pelas dimensões espirituais da pessoa, então com certeza poderemos encarar o futuro com ânimo positivo e dizer com novo significado: graças à simbiose entre as Ciências Exatas e Humanas, o futuro já não é mais a tragédia a que o exclusivismo tecnocrata iria levar.

Os saberes humanos ou são realmente vividos, ou não existem. Não podem apenas ficar guardados em uma biblioteca. Uma ética apenas em livros é ética nenhuma: o que existem são pessoas éticas. São os fatores humanos, é o homem que devemos revitalizar se queremos influir bem na marcha da História. Então sim, poderemos propor um futuro que não é o que era, mas um futuro novo e melhor.

A missão da Universidade é recuperar seu caráter unitário, de modo que contribua – na palavras de S. João Paulo II – para substituir o Progresso pelo Desenvolvimento, isto é, pelo crescimento harmônico de todos os homens, e do Homem todo.

Se a Universidade recuperar a unidade perdida, deixará de ser um pilar rachado, e se tornará uma instituição que , unida à família – onde o homem cresce e se desenvolve- e unida à empresa – onde o homem exerce seu trabalho – formará uma trilogia plenamente capaz de fazer aflorar um novo ideal de sociedade, não utópico, mas real e atuante.

É precisa, pois, a integração, a “Religação dos Saberes”, nas palavras de Edgar Morin. Ambos os lados, convencidos pelo bom estudo da Antropologia que não podem viver sem o outro, necessitam reatar os vínculos que o Iluminismo rompeu, e que a modernidade alargou. Se os engenheiros não se integrarem às humanidades, farão muito mal. E se os humanistas persistirem em desprezar a engenharia, ficarão nas nuvens onde muitos deles teimam em vagar. É preciso conseguir a unidade, e é isso que se chama Interdisciplinaridade.

Filósofos e humanistas dialogando e cooperando com empresários e cientistas… Não é nada fácil. São muitos os problemas de compreensão mútua. São muitos os preconceitos, os interesses já estabelecidos, são muitos os pessimistas que alegam “já ter intentado esse diálogo” e que voltaram desanimados às suas trincheiras acadêmicas anteriores, ao constatar que os “do outro lado” sequer falam a mesma língua que eles.

CAMINHOS PARA A RECUPERAÇÃO DA UNIVERSIDADE

A burocratização da Universidade atual se nota no caráter fragmentado, recortado, estático, das disciplinas das faculdades, e também no fato de que o único objetivo dos curso sejam os exames, e não o diálogo. É preciso acabar com a idolatria dos títulos acadêmicos. É preciso criar departamentos interdisciplinares. Como isso não é nada fácil, não se poderá fazer da noite para a manhã. É preciso antes disso criar o clima adequado. E na verdade esse clima seria apenas um: a relação de formação recíproca entre os professores maduros com os professores mais jovens.

A Universidade é antes de tudo uma comunidade. Deve existir entre seus membros a preocupação de formar, não apenas aqueles jovens que irão sair, mas especialmente os jovens que irão ficar. É preciso que exista um “ambiente” que não tem nada a ver com os critérios burocráticos, onde se dialogue, se converse, e se aprenda nessa conversa. Assim era a Academia de Platão, assim era a Universidade Medieval, assim deve ser a Universidade hoje: um Colégio, no sentido profundo e latino da palavra, uma reunião dos mestres com os discípulos que no futuro os irão substituir. Precisamos novamente aprender a ser Universitários.

Como dizia Kierkegaard, quando o espírito realmente se abre, ele o faz para fora. Uma personalidade assim é generosa. Quando se trata de coisas materiais, o que é de um não é de outro. Mas em troca, o saber é efusivo. Só nesse ambiente uma Universidade realmente caminha. Só assim são possíveis os intercâmbios interdisciplinares. Os vazios entre as faculdades se preenchem, há interconexões, que as pessoas aos poucos irão criando. Alejandro Llano ensina que

a interdisciplinaridade é atualmente o caminho aberto para o novo. Resistir a ela equivale a resistir à atualização alegando, por exemplo, o tradicionalismo de uma matéria, ou a importância de um departamento. Esses argumentos se voltam contra quem os formula, porque revelam um enorme imobilismo, que ja é hora de acabar. Os que mais resistiram no passado em passar do sistema de cátedras para a estrutura departamental, se aferram agora aos departamentos como tábua de salvação para não aceitar o esquema de áreas temáticas funcionais, com agrupamentos fluidos e mutáveis ao ritmo da evolução científica ou profissional.

Assim, no final, resulta que a Universidade é uma comunidade de pessoas, não um simples conviver, mas estarem todos de acordo com um mesmo projeto, no qual todos põem seu esforço, e assim se vai adiante. Ser universitário é incrementar o saber. Insisto, se a Universidade tem que cumprir uma função social e tem que fazer isso com galhardia, esse aporte tem que ser interdisciplinar: Ciências do Espírito e Ciências da Natureza sem divórcio, sem separação. O que adquire o espírito universitário não o perde jamais, não pensa que ensinar é repetir as aulas do ano passado, ou que estudar é armazenar conteúdos. Sabe que é algo mais vital, o crescer no saber. Desburocratizar a Universidade é fundamental, porque de outra forma esse clima não se forma.

Lección inaugural de apertura del Curso 2002-2003 (50 aniversario),impartida por el Dr. Alejandro Llano,Ex-Rector y entonces Catedrático deFilosofía de la Universidad de Navarra

A escola precisa ensinar a pensar – Conversa com o filósofo Ricardo Yepes Stork

O professor Leonardo Pólo comentou há algum tempo que uma das características de nosso tempo é a reduzida atividade intelectual, especialmente na juventude. A atividade de pensar continua sendo desprezada?

Em boa parte, eu acredito que sim. Em alguns aspectos isso ainda ficou pior. Um dos grandes males de nossa sociedade é que vivemos muito depressa, e não temos tempo de observar o que acontece em nosso redor, para a partir daí formarmos nossas opiniões. Os pensadores antigos sempre insistiram que o começo da sabedoria é o ̈assombro ̈, o maravilhamento diante das coisas que acontecem no mundo, e que nos levam a nos encontrarmos com a verdade. Maravilhar-se é perguntar-se diante de um fato novo: como é possível que isso aconteça? E depois buscar intelectualmente a explicação do fato, seja ele bom ou ruim. A cada instante a TV nos mostra coisas – notícias, filmes, comerciais – que são muito pouco humanos. Assistimos passivamente, e mal notamos, porque nos acostumamos a isso como se fosse o normal. Não paramos para pensar. Uma tarefa urgente dos pais e das escolas é chamar a atenção para isso, e estimular um sadio espírito de rebeldia diante do ruim e do feio, e de entusiasmo admirativo diante do bom e do belo. Nunca de mera atonia conformista.

Por outro lado, esse mesmo jovem que fica abobalhado diante da TV, demonstra muitas vezes uma atitude hipercrítica quando lhe falamos de valores e de virtudes: todos são postos em dúvida, relativizados, ou atirados para o baú das velharias…

É verdade. Isso sucede porque nesses assuntos se costuma julgar apenas por slogans, sem espírito crítico, a partir de uma postura muito individualista: ̈eu não quero depender de ninguém para formar minhas opiniões. Os outros não têm nada que me dizer ̈. Esse orgulho reduz a humanidade a uma sucessão de Náufragos, cada um isolado em sua ilha, sem nenhuma comunicação com os demais. Esquecem que a verdade e o conhecimento se estimulam e se somam, que a ciência avança, que a técnica progride. Esquecem que a verdade é comunicável, porque há valores estáveis, firmes, perenes.

É a ditadura do relativismo…

O relativismo quer nos convencer de que cada um de nos fabrica suas próprias verdades, e com isso nos impede de ver a maravilha de que as verdades existem, e que nós homens as vamos descobrindo ao longo de nossa formação, e com isso nos tornando melhores. Incita cada homem a dizer que o que é válido para mim não o é para os demais. E isso se estende a todos os terrenos, desde o comportamento ético até as crenças religiosas. Por isso, o relativismo não soluciona os problemas humanos, mas apenas os complica ainda mais. Quando pretende romper com as dependências, o homem fica sozinho, tanto na teoria quanto na prática. O que sobra é o cansaço e a desorientação.

E onde isso leva?

O relativismo desemboca no permissivismo. Tudo passa a ser moralmente possível, bom ou indiferente. Não se admite dizer: ̈isto é moralmente bom, e isto é moralmente mau ̈. Mas o permissivismo se gasta. Quando experimentou tudo, sem nenhum freio ético, o que sobra é a desorientação, o fastio, a experiência da frustração. Há um desejo de volta ao lar, mas a vida na sociedade urbana transcorre de modo tão acelerado… Não há tempo para refletir!

E entretanto, pensar é necessário. Mais ainda que navegar e que viver… Mas, voltando à questão inicial, como ensinar a pensar?

Para ensinar a pensar a primeira coisa necessária é – evidentemente – ter pensado, ter-se submetido à disciplina do perscrutar e entender o que as coisas são. O primeiro de tudo é renunciar ao slogan. As pessoas se conformam com poucas frases, e muitas imagens.

Renuncia-se a explicar as coisas: apenas se mostram. A cultura da imagem não necessita de argumentação para impactar o público. É tal a força das imagens que mostrá-las já é suficiente: ver um terremoto ou uma inundação pela televisão é quase como ter estado lá. Nesse contexto não necessitamos comentários. Discorrer, pensar, torna-se assim cada vez menos necessário. Por isso as explicações do que vemos são sumamente simples; o mais importante é o contato direto e imediato com a notícia. Isso afasta as pessoas do hábito de argumentar e discorrer, e por isso se vai dando cada vez menos importância às razões. O velho costume da conversa, do bate-papo, por exemplo, está se perdendo, porque as pessoas falam muito menos: preferem os vídeos ou a televisão. Quando se deixa de ler e se deixa de falar, se pensa cada vez menos. Hoje pouca gente gosta de pensar. Os argumentos abstratos não estão em moda: bastam quatro explicações convencionais, que a mídia repete até a saciedade.

E quem nos garante que o que a mídia mostra é verdadeiro?

Exatamente. Quando temos o hábito de pensar, nos perguntamos isso. Quando não temos, nos contentamos com a imagem e com o slogam, e entramos para o imenso rebanho dos conformistas. Isso pode dar a impressão de que sou contra a imagem, o que não é verdade. Estou sim contra as atitudes acríticas, contra o olhar abobalhado.

Que mais você aconselha para ensinar a pensar aos meninos e aos jovens, aos filhos e aos
alunos?

Despertar neles o amor por ler, e não apenas ver imagens. Não se trata – insisto – de renunciar às imagens, mas de fomentar o gosto pela leitura. É preciso voltar aos clássicos da literatura, e para isso não é necessário ter quarenta anos. Os jovens, que tem uma sensibilidade muito aguçada, são os que podem captar de modo mais veemente os valores humanos que há nos clássicos. O problema está em o texto literário ser ás vezes estranho ou pouco compreensível, afugentando os jovens leitores. Mas essa é precisamente a tarefa a realizar: fazer a aproximação entre os mundos dos clássicos e o nosso mundo. Não é difícil.

Depois, é preciso ensinar a não-conformidade com explicações convencionais ou com chavões. Nisso a linguagem tem boa parte da culpa. Quando se lê pouco e se pensa pouco também se fala mal, com escasso número de palavras. Quando falta vocabulário, as explicações se tornam pobres; tudo é ̈falô ̈, ̈só ̈, ̈massa ̈, ̈disse ̈… São modas ou modos de falar, mas podem esconder um universo mental estreito, reduzido a quatro adjetivos vazios. É preciso enriquecer a linguagem, é preciso fomentar o diálogo, o exercício mental de raciocinar, de defender uma causa, de ter argumentos para as próprias decisões, e de não fazer apenas o que os outros fazem. A conversa, a tertúlia, o debate sereno sobre um tema de interesse, são exercícios que se podem fazer de alguma forma em família, e estimulam o raciocínio, a capacidade racional do homem.

Há uma agressividade contra essa capacidade de pensar: é a aceleração, a pressa, o mundo audiovisual, as modas, a má persuasão publicitária… Tudo isso pôe em perigo a faculdade que tem o homem de reger-se por seu pensamento, que é sua mais alta capacidade, aquilo que ele tem de melhor, que nunca se esgota nem enfastia. Sempre se pode continuar pensando e descobrindo novas verdades.

A necessidade de ler é clara. Mas hoje se publica mais do que nunca. Como e o que escolher?

É verdade. Há uma autêntica inflação de publicações, e isso requer um critério de seleção. Precisamos ter em conta que a publicidade engana. Isso significa que sou contra a publicidade? Não. Sou contra os abusos da publicidade, contra seu poder irrestrito. Às vezes, por exemplo, a publicidade nos apresenta um livro como se fosse uma obra prima, quando não é mais que algo de qualidade mediana e discutível. Conseguir uma boa informação bibliográfica é imprescindível para não cometer erros. É preciso ter em conta que o vendedor apresenta seu produto como o melhor do mundo, e que pode não ser assim. Pode haver mais aparência que conteúdo.

O mais prático é buscar aquilo que o tempo se encarregou de consagrar: são as obras que ficam, os clássicos. Mas um clássico não é apenas um autor do século XVII ou XIX. O século XX também está repleto de clássicos de altíssima qualidade. São atualíssimos. São os mestres desta perplexa Humanidade. É preciso redescobri-los.

Ricardo Yepes Stork (Madri, 1953 – Pamplona, 1996), foi doutor em filosofia, pesquisador, e professor de Fundamentos de Antropologia na Universidade de Navarra. Entre muitos outros livros, é autor de “Fundamentos de Antropologia”, e “Entender o Mundo de Hoje”, traduzidos para o português.

“FREI TOMÁS, O PROFESSOR DA SALA CINCO”

Como se comportaria em sala de aula um professor do porte de São Tomás de Aquino?  Paul Wadel, em seu livro “A primazia do amor – Uma introdução à ética de S. Tomás de Aquino”, nos dá uma indicação:

“Se considerarmos a situação de uma aula como uma conversação, pode nos servir esta reflexão de Wadel sobre a experiência de Tomás de Aquino durante as aulas, seguindo a análise que faz Joseph Pieper em seu Guia para Tomás de Aquino:

“Sua genialidade com docente estava em sua capacidade de comunicar realmente bem o que sabia, e podia fazer isso, porque se lembrava de como era aprender algo pela primeira vez. Pieper explica:

“Em minha opinião, é precisamente isso que caracteriza o docente: possui a arte de abordar o tema a partir do ponto de vista do principiante; é capaz de entrar na situação psicológica da pessoa que se encontra com um conteúdo programático pela primeira vez”.

Tomás possuía esse dom. Sua devoção por seus alunos foi tal que podia pôr-se em sua situação recordando o assombro, o medo, a confusão e o respeito que sente uma pessoa quando tem que aprender algo pela primeira vez.  Seu dom como docente consistia em sentir o que sentia o aluno. Por isso, sabia exatamente como explicar a matéria. Pieper escreve: “O docente, na medida em que pode se identificar com o principiante, compartilha algo que, no curso normal da natureza, se nega ao homem maduro: vê a realidade da mesma maneira que a vê o principiante, com a inocência do primeiro encontro. Mas, ao mesmo tempo, com a perspectiva de compreensão e penetração que possui a mente culta. Tomás possuía este dom em abundância”.

 (Paul J. Wadell, La primacía del amor: una introducción a la ética de Tomás de Aquino (Madrid: Palabra, 2014), 43-44).